Acervo da USP revela novas faces do pensador negro Milton Santos

Por Bruno Bocchini - Repórter da Agência Brasil

Acervo da USP revela novas faces do pensador negro Milton Santos

Vinte e cinco anos após a morte de Milton Santos, completados nesta quarta-feira (24), seu legado está sendo reescrito a partir de um labirinto de papéis guardados na Universidade de São Paulo (USP). Pesquisas recentes no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP), onde está depositado o acervo de Santos com cerca de 60 mil itens, têm trazido à tona faces pouco conhecidas do pensador. 

Depois da implementação das cotas raciais nas universidades, uma nova geração de estudantes passou a exigir uma reformulação nas pesquisas sobre a participação dos intelectuais negros na formação do pensamento brasileiro. A análise é do professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e pesquisador de Milton Santos, Maurício Costa.

A conquista das cotas raciais nas universidades públicas do Brasil permitiu não só o acesso a mais pessoas negras à universidade, mas fundamentalmente um processo de reformulação do conhecimento. De olhar para o conhecimento e dizer: onde estão os autores negros aqui?", aponta 

Esse movimento tem impactado os novos estudos sobre Milton Santos, que agora estão indo além dos temas acadêmicos tradicionalmente relacionados a ele, como a reformulação da geografia e a globalização. Os estudos passaram a investigar também a relação do pensador com a área política, o movimento negro, as periferias, e o período em que esteve nos países africanos.

Ele escreveu, por exemplo, sobre o continente africano, no momento onde tinha pouquíssima gente no Brasil falando sobre esse tema. Especialmente escrevendo sobre a África, tendo visitado o continente. Esses são aspectos que não estão tratados [até agora] na vida e na obra do professor, diz.

Milton Santos é considerado um dos intelectuais mais relevantes do século 20. Nascido em 3 de maio de 1926, em Brotas de Macaúbas, na Bahia, se tornou um dos principais nomes da geografia mundial. Ele concluiu o bacharelado na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e o doutorado na Universidade de Strasbourg, na França.

Exilado durante a ditadura militar, lecionou em universidades na Europa, África e América Latina, antes de retornar ao Brasil, onde consolidou sua produção intelectual. Foi professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade de São Paulo (USP).

Enfrentou o racismo estrutural dentro da academia e construiu uma obra que redefiniu a forma de compreender o espaço geográfico, articulando economia, política e sociedade. Ele se tornou inspiração e referência para outros intelectuais negros.

Falecido em 2001, aos 75 anos, as ideias de Milton Santos continuam sendo referência para análises socioeconômicas no Brasil e no mundo, com sua teoria aparecendo em pesquisas que abordam desde às dinâmicas urbanas em Gana, na África, até Londres e Paris, na Europa.