Médicos da Unifesp criam programa Saindo do Suco, para incentivar abandono aos anabolizantes

Por LUIS EDUARDO DE SOUSA

CAMPINAS, SP (FOLHAPRESS) - Médicos e pesquisadores do Hospital São Paulo, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), lançaram um programa para ajudar usuários de anabolizantes a interromper o consumo de hormônios de maneira gradual e segura, evitando danos causados pela parada abrupta.

A iniciativa foi criada após a morte do influenciador Gabriel Ganley, em 23 de maio, aos 22 anos. O jovem foi vítima de uma cardiomiopatia hipertrófica, caracterizada pela hipertrofia muscular do coração, que dificulta o bombeamento de sangue. O uso de esteroides potencializa a condição.

A morte de Ganley abalou o universo do fisiculturismo e jogou luz aos problemas causados pela reposição hormonal para fins estéticos.

Batizado de "Saindo do Suco", o programa mira etapas sensíveis do abandono às drogas anabólicas. As complicações pela pausa sem acompanhamento médico são severas e tão desafiadoras quanto o próprio uso, segundo o endocrinologista Clayton Macedo, do Ambulatório de Medicina Esportiva do hospital.

O uso de anabolizantes interrompe a produção natural dos hormônios, que não retorna automaticamente após a interrupção. O sistema endócrino precisa de estímulos para voltar a funcionar, por vezes com remédios.

Os hormônios funcionam como mensageiros para o funcionamento de órgãos, músculos e tecidos. Sem eles, o organismo não regula processos como sono, crescimento e fertilidade, por exemplo.

Um dos hormônios mais usados para fins estéticos, a testosterona varia de 500 a 900 nanograma por decilitro de sangue em um homem adulto. Quando injetada por fonte externa, chega a valores de até 2.000, a depender da dose.

Esses níveis resultam em potência sexual, disposição, vigor físico e crescimento acelerado dos músculos, mas elevam o risco de trombose, infarto e AVC (acidente vascular cerebral), além de danos colaterais como calvície, ginecomastia e infertilidade.

Na contramão, a interrupção abrupta leva a quadros de fadiga intensa, impotência sexual e depressão. Há relatos de indivíduos com ideações suicidas por falta de testosterona.

"Quando o indivíduo vai para um patamar alto de performance, o cérebro não aceita retornar ao nível normal, menos ainda para uma deficiência. É a mesma lógica de drogas como a cocaína. O usuário tem uma dependência que rapidamente se transforma em abstinência", explica Clayton, responsável pelo programa. "Essa é a dificuldade principal".

Como o uso de anabolizantes para fins estéticos é proibido pelo CFM (Conselho Federal de Medicina), os usuários o fazem por conta própria, por vezes sem acompanhamento médico e com produtos comprados clandestinamente. Para evitar exposição, tentam parar sozinhos, enfrentam a abstinência e retomam o uso.

O caráter sigiloso da prática deu às drogas o apelido de suco. Nas redes, usar o suco é sinônimo de injetar anabolizantes, daí o nome do programa.

Segundo Clayton, o suco causou um problema de saúde pública inestimável em diversos países. Aplicado às escuras, as redes de saúde não conseguem compilar dados epidemiológicos sobre a quantidade de usuários.

"Pelo movimento dos nossos consultórios, há uma quantidade enorme de usuários. Não só homens jovens, mas também mulheres buscando os tais ?chips da beleza? e antienvelhecimento. O hormônio é a bola da vez, e estamos vendo surgir uma geração de doentes", afirma.

COMO SAIR DO SUCO

Não existe um protocolo igualmente aplicado a todos que optam por parar. Cada caso deve ser avaliado individualmente, considerando quais hormônios a pessoa usou e por quanto tempo.

No programa da Unifesp, a abordagem envolve inicialmente um endocrinologista, para diagnosticar as deficiências hormonais do paciente. Se tiver usado por anos, há um risco cardíaco, por exemplo, que precisa de acompanhamento cardiológico.

Para sanar os danos mentais da interrupção, o programa conta com psicólogos e psiquiatras. Segundo Clayton, são ao todo 40 médicos voluntários.

O serviço é oferecido gratuitamente e sob sigilo. Para participar, é preciso manifestar intenção pelo email saindodosuco@gmail.com.

Um membro do programa vai procurar o interessado com um formulário para ser preenchido, para que a equipe possa entender a dinâmica de uso de hormônios. A partir disso, os médicos encaminham para as especialidades necessárias.

O programa pode ser realizado de qualquer lugar do Brasil, não precisa ser presencialmente. Segundo Clayton, a iniciativa teve mais de 40 interessados em menos de um mês, e a expectativa é que ganhe visibilidade e caminhe para se tornar uma política pública.