Vereador abriu portas de empresa para o PCC e comandava 'estrutura paralela', diz Polícia Civil

Por ANDRÉ FLEURY MORAES

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O relatório final do inquérito que apura a participação do vereador Senival Moura (PT) num suposto esquema de lavagem de dinheiro para o PCC (Primeiro Comando da Capital) diz que o parlamentar foi responsável por abrir as portas da empresa de ônibus Transunião para a facção criminosa.

Segundo a Polícia Civil, foi o petista quem "instrumentalizou a Transunião para a operacionalização de um sistema financeiro clandestino", voltado ao suporte econômico de indivíduos ligados ao PCC.

Ele foi preso nesta quarta-feira (25) em operação do Ministério Público de São Paulo e da Polícia Civil.

Procurada, a assessoria do vereador afirmou que uma nota estava sendo preparada e seria divulgada em breve. Não foi informado o contato do advogado do parlamentar.

Senival, de acordo com as investigações, era uma espécie de "instância superior" dentro da empresa ainda que não ocupasse nenhum cargo formal. Na maioria das circunstâncias, diz a Polícia Civil, a palavra final sobre a decisão a ser tomada era dele.

Um relatório do Coaf constatou que o vereador movimentou R$ 2,4 milhões sem origem identificada, situação que, segundo a polícia, "não pode ser compreendida como mera inconsistência pontual ou evento financeiro de reduzida relevância", e viu também incompatibilidades no patrimônio do petista.

Investigadores descobriram que o parlamentar mantinha imóveis avaliados em mais de R$ 1,8 milhão e uma propriedade rural de alto padrão em Extrema (MG).

Os bens são incompatíveis com seus rendimentos como servidor público e titular de mandato. O salário do vereador em São Paulo é de R$ 26 mil.

Procurada por meio de mensagem e telefonemas, a liderança do PT na Câmara não se manifestou até o momento.

Além de Senival, foram presos Jair Ramos de Freitas, o Cachorrão, que seria um diretor informal da empresa de ônibus, e Devanil de Souza Nascimento, o Sapo, homem de confiança do vereador. Os dois são réus acusados do assassinato de Adauto Soares Jorge, então presidente da Transunião, em 2020

A reportagem busca a defesa dos presos e a da própria Transunião, que não atendeu aos telefonemas feitos pela reportagem nesta quarta.

A investigação que deu origem à operação Última Parada começou após o assassinato de Adauto Soares Jorge, então presidente da Transunião, em 2020.

Segundo o Ministério Público, foram coletadas provas sobre o uso da empresa, que teria obtido em 2025 R$ 300 milhões do sistema de transportes paulistano para a prática de lavagem de capitais.

A Justiça decretou o sequestro e bloqueio de R$ 194 milhões de contas bancárias ligadas aos investigados e à companhia. Também foram bloqueados 117 veículos, 21 imóveis e três embarcações.

O Poder Judiciário também determinou o afastamento dos diretores da Transunião e a comunicação à Prefeitura de São Paulo para adoção de providências administrativas, regulatórias e contratuais, incluindo intervenção administrativa.

O objetivo é garantir o atendimento aos usuários do transporte coletivo.

Segundo as investigações, há um núcleo paralelo que toma as decisões relativas à empresa de transporte, incluindo a transferência de valores para criminosos ligados ao PCC.