Mascote da Copa de 2014, tatu-bola deve ganhar plano de proteção
Por Isabela Vieira - Repórter da Agência Brasil
Mascote da Copa de 2014, tatu-bola deve ganhar plano de proteçãoAgência Brasil
Mascote da Copa do Mundo do Brasil, em 2014, o tatu-bola (Tolypeutes tricinctus) ainda tem o futuro ameaçado pela perda de seu habitat natural. Mesmo após tanta visibilidade, o Fuleco da vida real continua na lista de animais sob risco de extinção, e um novo plano de proteção a essa e outras espécies deve ser lançado neste ano para tentar mudar esse cenário.
Típico da caatinga brasileira, o animal é encontrado em estados do Nordeste, como Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco e Piauí. Mas, para sobreviver, tem precisado driblar empreendimentos energéticos, como a instalação de placas solares e turbinas eólicas, além de estradas e o avanço da agropecuária, lista Flávia Miranda, coordenadora científica do Programa de Conservação do Tatu-bola, da Associação Caatinga.
As fazendas solares estão sendo muito utilizadas na caatinga e, infelizmente, ficam no pé de uma montanha, área de que o tatu gosta, disse. Ela explica que as placas não permitem que a vegetação cresça, atrapalhando o modo de vida do animal. Sem a mata, acrescenta, o bichinho fica ainda vulnerável a incêndios e contaminação.
Tatu Bola. Foto: Samuel Portela/Divulgação
A caça predatória e de subsistência, para comer, ambas ilegais, ainda fazem parte da cultura regional e também são um perigo. Com a conscientização, principalmente, após a Copa do Mundo, a prática vêm sendo enfrentada, conta o sertanejo Lourisvaldo Camilo, do Projeto Ecologia e Conservação Participativa do Tatu-Bola, da Chapada Diamantina.
Hoje, Lourisvaldo é um dos responsáveis por capturar o bichinho, em roteiros de turismo científico, em Sumidouro (BA). Quando a gente era criança, e a situação era ruim, o custo de vida [era alto], a gente pegava o tatu para se alimentar. Mas agora, não, sabemos da importância dele e trabalhamos para preservá-lo, contou.
Assim como nós [seres humanos], eles têm o direito de existir, são parte da natureza, defendeu.
Lourisvaldo atua no projeto ECP Tatu-Bola, na Chapada Diamantina, na Bahia Foto: Lourisvaldo Camilo/Arquivo pessoal
Na Copa do Mundo de 2026, há três mascotes que representam os países-sede: a águia-careca (Estados Unidos), animal que foi salvo da extinção; o jaguar (México); e o alce (Canadá).
Preservação do habitat
A ampliação das áreas onde o tatu-bola vive, por meio da criação e expansão de unidades de conservação, é uma forma de protegê-lo, segundo os especialistas.
No início de junho, o governo federal, como parte do plano de proteger a caatinga, ampliou o Parque Nacional da Serra das Confusões, incorporando 92 mil hectares à área total da unidade, de 916 mil hectares, e prometeu a extensão do Parque Nacional de Sete Cidades, duas das mais importantes unidades de conservação do Piauí.
Aliada à Política Nacional para Recuperação da Caatinga que prevê medidas de preservação e recuperação, também instituída em junho a ampliação dos parques foi importante para salvar o Fuleco, disse o gerente de Conservação da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário, o agrônomo Emerson Antonio de Oliveira.
Segundo ele, aquela área é única e concentra, além do tatu-bola, outras espécies ameaçadas, como onças e pássaros.
A área da Serra das Confusões, que está próxima à Serra da Capivara, é uma das regiões mais importantes do ponto de vista biológico no Brasil, porque é uma região de contato entre a Caatinga, o Cerrado e floresta densa, há ali um enclave de Mata Atlântica, explicou. Ou seja, são três diferentes ecossistemas com uma riqueza de biodiversidade.
Serra das Confusões, no Piauí. Foto: Emerson Oliveira/Divulgação
Os municípios e os estados também podem colaborar protegendo as áreas onde vivem os tatus. Mas não basta criar um parque ou reserva natural, é preciso criar condições para a unidade funcionar, garantindo investimentos e orientando a gestão.
O biólogo Felipe Melo, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), foi um dos especialistas que lutaram para a criação do Refúgio de Vida Silvestre Tatu-Bola, em 2015, a maior unidade de conservação pernambucana, de 110 mil hectares. Pouco depois, no entanto, a área sofreu pressões, por demora na elaboração de um plano de manejo, documento que norteia quais as prioridades para a gestão da unidade.
Melo, que é coordenador do Laboratório de Ecologia Aplicada da UFPE, denuncia que a unidade só existe no papel.
O plano de manejo, por exemplo, se construído de maneira correta, com participação popular, poderia resolver a maior parte dos conflitos com moradores e agricultores na região, afirma.
O pesquisador explicou que atividades tradicionais da reserva, de agricultura familiar, são compatíveis com a preservação do tatu no refúgio silvestre e reforçou que desapropriações não foram previstas na área.
O decreto de criação da RVS Tatu-bola determinava que o plano de manejo e a instalação de um comitê gestor deveriam ser feitos em um ano, o que não ocorreu 11 anos depois. O governo e a Secretaria de Meio Ambiente de Pernambuco, procurados por e-mail e telefone para esclarecer a razão do atraso, não responderam à Agência Brasil.
Nova estratégia
Para garantir a sobrevivência do mamífero, está próximo de ser lançado o Plano de Ação Nacional para Conservação do Tamanduá-Bandeira, Tatu-Canastra e o Tatu-Bola, chamado de PAN Tatá. O trabalho é liderado pelo ICMBio e conta com órgãos ambientais, cientistas e organizações da sociedade civil.
O objetivo é diminuir as principais ameaças a cada espécie do PAN nos próximos cinco anos, por meio de ações como mapeamento genético e o combate ao atropelamento e à caça.
Também é prioridade a mobilização de comunidades rurais. O projeto prevê conscientizar agropecuaristas sobre os impactos de agrotóxicos, ataques de cães e doenças e evitar conflitos com apicultores, no caso do tatu-canastra.
No planejamento do ICMBio, foram delimitadas as áreas mais importantes para conservação da espécie com a intenção de incentivar os governos a atuarem juntos. A maior parte delas fica no Piauí, onde o governo federal ampliou as unidades de conservação.
As áreas foram escolhidas por vários motivos, como por termos vários registros da espécie e mais unidades mais bem conservadas, explicou a coordenadora do PAN, a analista ambiental do ICMBio Renata Bocorny de Azevedo.
A priorização, segundo ela, colabora para orientar os órgãos municipais e estaduais, indicando onde os esforços ambientais são mais necessários.
Na Bahia, também são áreas estratégicas para salvar o Tolypeutes tricinctus o Parque Nacional Boqueirão da Onça e os Parques Estaduais de Canudos, Sumidouro e Morro do Chapéu, acrescentou Flávia Miranda, que é também membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN). Depois, na sequência, listados como mais áreas chave para proteger o tatu-bola estão o Tocantins e Pernambuco.
Donos de propriedade rurais também podem contribuir para a formação de corredores ecológicos, que ajudam o tatu-bola a circular, transformando fazendas e sítios em Reservas Particulares do Patrimônio Natural, recomenda a especialista em conservação.
"Engenheiro de ecossistema"
O mascote de 2014 tem comportamento noturno, passa o tempo na vegetação seca da caatinga e só sai para se alimentar.
Ele come formigas, cupins, larvas e pequenos insetos, colaborando para o controle de pragas. Na natureza, tem ainda o papel de movimentar nutrientes da terra, regenerar e servir de alimento para animais maiores, como onças.
Os tatus, em geral, na caatinga, são o que a gente chama de engenheiros de ecossistema, disse o professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Felipe Melo.
Ele explicou que o hábito do animal, de cavar e fazer tocas, revolve sedimentos e contribui para a qualidade do solo.
Onde o tatu vai, ele regenera.
Exclusivamente brasileiro, ele ainda tem uma característica única: para se proteger, ele se enrola completamente, formando uma bola de 30 centímetros, mais ou menos o tamanho de um coco, totalmente coberto por sua carapaça. Esse mecanismo de defesa é quase impenetrável e permite que o Tolypeutes tricinctus se proteja de predadores. Porém, deixa o tatu vulnerável aos humanos, que podem simplesmente apanhá-lo no chão.