Preso em operação, Senival Moura atua com transporte desde 1990 e está no 6º mandato como vereador
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O vereador Senival Moura (PT), preso nesta quinta-feira em São Paulo, cumpre seu sexto mandato na Câmara Municipal em meio a denúncias de ligações com o PCC (Primeiro Comando da Capital).
A Operação Última Parada, realizada pelo Ministério Público e a Polícia Civil, cumpriu três mandados de prisão de ligados à Transunião, que atua no transporte público da capital paulista.
Segundo a investigação, Senival Moura controlava efetivamente a empresa, apesar de não integrar oficialmente a direção.
A Polícia Civil afirma que o petista "instrumentalizou a Transunião para a operacionalização de um sistema financeiro clandestino", voltado ao suporte econômico de indivíduos ligados ao PCC.
A defesa de Senival declarou ter recebido "com profunda indignação" a notícia da prisão do parlamentar e disse que a medida causa "enorme surpresa" porque "foi determinada em um momento extremamente sensível, às vésperas do período eleitoral, circunstância que inevitavelmente desperta questionamentos".
Nascido na cidade de Batalha, em Alagoas, Senival Moura, 61, migrou com a família para São Paulo em 1977. Trabalhou como engraxate e metalúrgico e foi morar no extremo da zona leste da capital.
Desde os anos 1990, ele é ligado ao setor de transporte coletivo. Na época, era um dos operadores de kombis clandestinas que circulavam entre Guaianases e Itaim Paulista, na periferia da zona leste.
Depois da regularização do serviço, durante a gestão da então prefeita Marta Suplicy (PT), Moura e sua família continuaram atuando no setor. Com a melhoria no sistema, ele tornou a região de Guaianases, Lajeado e Itaim Paulista seu reduto eleitoral. Atualmente, a Transunião é responsável por operar linhas do mesmo trajeto.
Ali, Moura mantém escritórios políticos e imóveis. As empresas de seus familiares também estão registradas nos bairros.
Em março de 2020, o assassinato de Adauto Soares Jorge, ex-presidente da Transunião, levou a investigações de pessoas próximas ao vereador e à suspeita de que a empresa estava envolvida com a facção.
Em 2022, uma reportagem da Folha revelou que um delator, identificado pelo codinome "Guilherme" informou à polícia que Senival era "figura central" na trama do assassinato de Adauto Jorge.
Conforme documentos obtidos pela Folha na época, ele afirmou que Senival mantém ligação com o PCC desde o final dos anos 1990 e que montou um esquema de lavagem de dinheiro para a facção em contrapartida ao apoio recebido quando disputou sua primeira eleição, no início dos anos 2000.
Ainda segundo a versão de Guilherme, Senival sempre foi o verdadeiro presidente da Transunião e de suas antecessoras.
A vítima do crime, segundo a polícia, era uma espécie de "testa de ferro" do vereador na direção da empresa. A polícia acredita que ele tenha sido assassinado por integrantes do PCC após descoberta de desvios financeiros na empresa.
De acordo com as investigações, o petista seria o principal beneficiário dos repasses. Ele só não foi morto, segundo autoridades à frente do caso, porque teria se comprometido a devolver os valores desviados.
Segundo a polícia e o Ministério Público, a operação desta quinta-feira começou após o homicídio, com a coleta de provas sobre o uso da empresa, que em 2025 teria obtido R$ 300 milhões do sistema de transportes paulistano para a prática de lavagem de capitais.
Dessa vez, a Justiça decretou o sequestro e bloqueio de R$ 194 milhões de contas bancárias ligadas aos investigados e à companhia, assim como 117 veículos, 21 imóveis e três embarcações.
Para os investigadores, os bens são incompatíveis com seus rendimentos como servidor público e titular de mandato. O salário do vereador em São Paulo é de R$ 26 mil.
Além de Senival, foram presos Jair Ramos de Freitas, o Cachorrão, que seria um diretor informal da empresa de ônibus, e Devanil de Souza Nascimento, o Sapo, homem de confiança do vereador. Os dois são réus acusados do assassinato de Adauto.
A Justiça também determinou o afastamento dos diretores da Transunião e a comunicação à Prefeitura de São Paulo para adoção de providências administrativas, regulatórias e contratuais, incluindo intervenção administrativa. O objetivo é garantir o atendimento aos usuários do transporte coletivo.
Após a divulgação da operação, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) assinou decreto de intervenção na empresa. A medida abrangerá os prédios, equipamentos, veículos, serviços e demais bens móveis e imóveis de propriedade da Transunião.
O Diretório Municipal do PT em São Paulo, presidido pelo vereador Hélio Rodrigues, afirmou, em nota, que "não compactua com qualquer prática ilícita e defendeu que todos os fatos devem ser rigorosamente apurados."
Na nota, assinada pelo advogado Márcio Sayeg, a defesa de Senival Moura diz também que o vereador "reafirma que confia na Justiça e tem absoluta convicção de que, ao longo da investigação, ficará demonstrada a inexistência de qualquer conduta ilícita de sua parte".
"Desde o primeiro momento, sua defesa técnica está adotando todas as providências jurídicas cabíveis para ter acesso integral aos autos, compreender os fundamentos da decisão e apresentar os esclarecimentos necessários, exercendo plenamente o direito constitucional ao contraditório e à ampla defesa", afirma o texto.
Segundo a defesa, "Senival sempre pautou sua trajetória pública pelo compromisso com a população, pela transparência e pelo respeito às instituições democráticas e justamente por isso, afirma a nota, recebe a investigação com serenidade, certo de que a verdade prevalecerá."