'Formigas humanas' carregam as gigantes alegorias no Festival de Parintins (AM)

Por KARINA PINHEIRO

PARINTINS, AM (FOLHAPRESS) - Quando o bumbódromo se ilumina e as alegorias de Caprichoso e Garantido entram em cena, o público vê um espetáculo grandioso no Festival de Parintins, no Amazonas. Nos bastidores, porém, centenas de trabalhadores anônimos tornam possível a apresentação ao conduzir estruturas de até 22 metros de altura e dezenas de toneladas entre os galpões e a arena.

O festival chega neste sábado (27) à sua segunda noite.

No Caprichoso (o boi preto com a estrela azul), eles são chamados de paikicés. No Garantido (o boi branco com o coração vermelho), os kaçauerês.

Apesar da rivalidade entre os grupos, eles desempenham a mesma missão: transportar, orientar e estabilizar as alegorias que dão vida às narrativas amazônicas apresentadas na festa.

A operação reúne cerca de 500 pessoas. No Caprichoso, aproximadamente 250 trabalhadores movimentam entre 120 e 130 módulos cenográficos por um percurso de cerca de 400 metros.

No Garantido, cerca de 200 kaçauerês percorrem aproximadamente 2,5 quilômetros para levar até 15 alegorias por noite a concentração do bumbódromo.

Mais do que força física, o trabalho exige coordenação, disciplina e planejamento. Cada estrutura precisa chegar à arena no tempo exato e em perfeitas condições para a apresentação.

O presidente do Garantido, Fred Góes, define os kaçauerês como a base da logística que antecede o espetáculo.

"Esse é o momento que antecede o festival, quando trazemos nossa galera para sentir aquilo que o boi vai apresentar nas três noites. Por trás disso existe uma logística que não seria possível sem o lado humano. E esse lado humano são os kaçauerês."

Segundo Góes, as alegorias podem alcançar 30 metros de boca de cena e 22 metros de altura, exigindo controle permanente do deslocamento. "É um processo delicado, que exige cuidado para garantir segurança e precisão. Kaçauerê, na origem tupi, remete a guerreiro. E é exatamente isso que eles são."

Entre eles também estão jovens que cresceram acompanhando o festival. Aos 24 anos, a estudante Ananda Azevedo participa pela primeira vez da coordenação da equipe que conduz as alegorias do Garantido.

"É emocionante porque a gente vê o trabalho desde o começo e agora olha essa grandeza aqui", diz. Torcedora do boi vermelho desde criança, ela afirma que participar da operação é viver o festival por outro ângulo. "Para nós, é uma vitória chegar aqui desse jeito."

No Caprichoso, a identidade dos trabalhadores foi consolidada em 2008, quando os antigos empurradores de alegorias passaram a ser chamados de paikicés, nome inspirado nos antigos guerreiros munduruku.

"Precisávamos dar uma denominação a esses guerreiros. São eles que carregam, literalmente nos braços, as alegorias", afirma Zandonaide Bastos, diretor de logística e concentração do boi.

Segundo ele, a operação funciona como uma estrutura militar. Coordenadores comandam equipes de cerca de 40 integrantes, responsáveis por diferentes módulos.

"Cada equipe funciona como um batalhão. Existe planejamento, divisão de tarefas, sincronização e muita responsabilidade."

Os preparativos começam meses antes do festival e incluem montagem, testes estruturais e ensaios operacionais.

Durante as operações, os trabalhadores enfrentam calor intenso, chuvas e jornadas prolongadas. Para reduzir riscos, recebem equipamentos de proteção, alimentação, hidratação e suporte logístico.

Apesar do desgaste físico, Bastos afirma que o principal combustível continua sendo o vínculo afetivo com o boi. "Minha família é tradicionalmente ligada ao Caprichoso e tudo o que fazemos é movido pelo amor, pelo sentimento de responsabilidade e, principalmente, pela segurança."

A entrada das alegorias no bumbódromo é o resultado de uma operação iniciada semanas antes das apresentações e executada por centenas de trabalhadores.

Organizados em equipes, paikicés e kaçauerês transformam planejamento logístico e trabalho coletivo em parte fundamental do festival. Embora permaneçam nos bastidores, são eles que garantem que o espetáculo chegue à arena dentro do tempo previsto e nas condições exigidas para a competição.