Entidades acusam prefeitura de privilegiar evangélicos em novo parque na zona leste de SP
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em Cidade Tiradentes, na zona leste de São Paulo, moradores cobram explicações sobre a construção do parque Monte de Oração. O projeto está sendo executado pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente na área de proteção ambiental Mata do Iguatemi, que há décadas é utilizada por evangélicos para atividades religiosas.
O espaço no bairro Fazenda do Carmo terá cerca de 36 mil m² e contará com equipamentos de infraestrutura e segurança, incluindo banheiros, iluminação e guarita. Segundo a secretaria municipal, as obras serão realizadas em três etapas. O custo estimado em R$ 10,7 milhões será financiado com recursos de compensação ambiental e da prefeitura.
Em março, o prefeito Ricardo Nunes (MDB), ao lado do então secretário municipal Rodrigo Ashiuchi (PL) e do subprefeito de Cidade Tiradentes, Lucas Sorrillo (MDB), assinou a ordem de início das obras. Durante a reunião, eles também apresentaram a proposta a pastores da região, o que levou moradores a questionarem a restrição do diálogo a um único grupo religioso.
O presidente da ONG Ilê Axé Omo Odé, Pai Jair de Odé, conta que só soube do projeto pelas redes sociais. Pai de santo da região, ele critica a subprefeitura pela falta de diálogo com líderes de outras religiões e defende que, por se tratar de um espaço público, o parque deve ser acessível a toda a comunidade. "Do jeito que está sendo divulgado, é um espaço evangélico. Se vai ser um parque com estrutura, com banheiro, com grade, com segurança, teria que ser para todos", afirma.
Segundo Tamires Oliveira, chefe de gabinete da pasta, o diálogo com os evangélicos ocorreu porque eles utilizam o espaço há mais de 50 anos. Ela afirma ainda que o parque será de uso aberto a toda a população e que o projeto respeita a diversidade religiosa. "Nós não estamos fazendo nada exclusivo para ninguém. [A reunião] Foi com eles [evangélicos] por conta de serem os maiores interessados. Mas para nós não tem problema nenhum se outras pessoas também vierem nos procurar", declara.
Ainda assim, a Associação Movimento Brasil Laico protocolou em maio uma representação junto ao Ministério Público pedindo uma investigação. A associação acusa a prefeitura de violar os princípios da isonomia e da laicidade do Estado previstos na Constituição ao supostamente privilegiar apenas um segmento religioso.
"Há uma violação pela questão de que vai favorecer um segmento específico e de que está sendo investido recurso público. Se o município quer fazer alguma coisa que favoreça uma religião, ele precisaria fazer para favorecer todas, porque o Estado laico e o princípio da isonomia partem dessa ideia de que não se pode favorecer um segmento em detrimento de outros", afirma Leandro Patrício, diretor-presidente da entidade.
Associação pede a apuração da legalidade constitucional da criação do parque e da regularidade dos processos licitatórios e repasses de recursos públicos para as obras.
Enquanto isso, moradores veem outras religiões, como as de matriz africana, terem menos espaço na comunidade. "Cidade de Tiradentes é um local em que a maioria das pessoas é negra. Então nós temos que trabalhar também a nossa ancestralidade. Não que não possa ter o parque, mas teria que pensar em um espaço para outras religiões", afirma Pai Jair de Odé.
A gestora cultural Bia Sankofa, moradora do entorno, conta que praticantes de religiões de matriz africana ainda enfrentam dificuldades para conquistar reconhecimento e visibilidade na região. Por ser praticante do candomblé, ela afirma que não pretende frequentar o espaço após a inauguração, pois teme ser vítima de intolerância religiosa.
O pastor Alexandre Deanini, da Igreja Batista Betel, de Cidade Tiradentes, defende o uso do futuro parque por integrantes de religiões de matriz africana. "Eu não vejo nenhum problema. Se amanhã tiver um umbandista lá dentro, ele tem o direito de estar, e ninguém, eu tenho certeza, vai dizer: 'sai daqui'", afirma.
Para promover uma convivência harmoniosa no parque Monte de Oração, Tamires Oliveira afirma que a secretaria do Verde atuará no enfrentamento contra casos de discriminação.