Catadoras de mangaba resistem à especulação imobiliária em Aracaju
Por Pedro Rafael Vilela - Enviado especial*
Catadoras de mangaba resistem à especulação imobiliária em AracajuAgência Brasil
Um dos principais ícones culturais e ambientais de Sergipe, a mangaba se tornou, nos últimos anos, símbolo de resistência nas comunidades extrativistas que dependem da proteção de seus territórios para garantir o sustento de dezenas de famílias e um modo de vida totalmente integrado à natureza. Em Aracaju, algumas das últimas remanescentes de mangabeiras concentram-se na região sul da cidade, o epicentro da zona de expansão urbana, e seguem sofrendo forte pressão imobiliária que ameaça especialmente a autonomia econômica e social de mulheres que vivem da coleta, a chamada "cata", e do manejo do fruto.
"A gente está rodeado de uma selva de pedra. Eu me sinto guardando um tesouro da humanidade", desabafa a presidente da Associação das Catadoras e Catadores de Mangaba Padre Luiz Lemper (ACCMPLL), Maria Eliene Santos.
A entidade é a principal organização política e comunitária das famílias extrativistas da capital sergipana e ajuda a orientar a produção, a preservar os conhecimentos tradicionais e a fazer a interlocução com o Poder Público. Esse trabalho rendeu à associação o primeiro lugar na categoria Povos e Comunidades Tradicionais do Prêmio Guardiãs da Sociobiodiversidade, concedido pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), no ano passado.
Ao todo, foram destinados R$ 45 mil à associação, que investiu na realização de oficinas e estudos para fortalecer o beneficiamento da mangaba e o turismo de base comunitária na região, com apoio de instituições como a Universidade Federal do Sergipe (UFS) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
O território das catadoras de mangaba em Aracaju compreende duas áreas protegidas contíguas, separadas por uma avenida: a Reserva Extrativista (Resex) Mangabeiras Missionário Uilson de Sá e uma área da União concedida à comunidade por meio de um Termo de Autorização de Uso Sustentável. Embora submetidas a diferentes regimes de gestão, as duas áreas formam um único território cultural tradicional, onde as famílias, a maioria formada por pessoas negras, mantêm o extrativismo da mangaba há mais de oito décadas.
A reportagem da Agência Brasil visitou a Resex Uilson de Sá no início de junho, durante a 5ª Festa da Colheita, evento que marcou o lançamento do Plano de Manejo Popular da reserva. O documento, elaborado coletivamente pelas famílias catadoras de mangaba, com apoio da associação, busca registrar a memória histórica, estimular a conservação da reserva, fazer uma cartografia ecológica e subsidiar a gestão participativa do território.
"O plano de manejo foi uma maneira que a gente encontrou, junto com a comunidade, de reorganizar todo mundo em torno da continuidade da luta em defesa do território. A gente ficou com medo de a prefeitura de Aracaju aparecer com um plano pronto e impor regras que não tinham nada a ver com a comunidade", explica Leandro Sacramento Santos, conhecido como Pel, da Associação Raízes, que presta assessoria a comunidades tradicionais em Sergipe.
Uma das controvérsias com a prefeitura, por exemplo, é sobre transformar a Resex em um parque urbano aberto, o que, segundo as catadoras, poderia descaracterizar completamente a finalidade da unidade de conservação, criada para proteger o modo de vida e o uso sustentável do território por famílias extrativistas.
"Quando o Estado vier construir o plano de manejo, a comunidade já sabe o que quer", aponta Raquel Fernandes, analista da Embrapa Tabuleiros Costeiros, sobre a iniciativa popular.
Trauma coletivo
O próprio processo que levou à criação da reserva foi marcado por uma série de violações de direitos que quase extinguiu a atividade extrativista em Aracaju. O agravamento dos conflitos começou quando o avanço da expansão urbana da capital sergipana, a partir dos anos 2010, passou a ocupar parte do território tradicional das catadoras de mangaba, com a implantação de empreendimentos de habitação e a supressão de áreas de coleta.
Sobre a preocupação com segurança e novas invasões no território das mangabeiras, a prefeitura informou não existir denúncia formal nos canais oficiais do município, mas que a fiscalização é contínua.
"A gestão realiza fiscalizações ambientais por meio da Sema [Secretaria Municipal do Meio Ambiente] e a Guarda Municipal intensificou as rondas. A Secretaria Municipal da Família e Assistência Social (Semfas) realiza um levantamento das famílias que possuem cavalos no residencial de frente à Resex para que seja realizada a construção de uma baia comunitária, com a finalidade de reduzir animais amarrados nas grades da Resex que espantam os polinizadores com mau cheiro e desordem. A Prefeitura foi responsável pelo cercamento da área da Resex, oferece a estrutura da Secretaria da Mulher para escuta ativa das mulheres, além do apoio contínuo na guarda", observou.
Ainda na nota à reportagem, a prefeitura de Aracaju defendeu que a autonomia das catadoras sobre o território está sendo respeitada e ponderou que a prosperidade da reserva depende das ações para construir uma unidade de beneficiamento do fruto e o funcionamento regular do conselho gestor da área.
*A equipe da Agência Brasil viajou a Sergipe, entre os dias 5 e 7 de junho de 2026, a convite no Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).