Situação das mulheres
Tratadas aos gritos pelos chefes, assediadas e com tempo controlado até para ir ao banheiro, a situação das mulheres trabalhadoras durante a ditadura militar também não foi nada fácil de ser enfrentada.
Maria Angélica Ferrasoli conta que entrevistou algumas dessas mulheres que começaram a trabalhar com 12 ou 13 anos. Muitas relataram condições ainda mais degradantes no ambiente de trabalho, que chegava até mesmo ao controle de uso do papel higiênico.
Elas precisavam pegar uma chave para usar o banheiro. Se demorassem mais do que 3 ou 4 minutos, já tinha gente batendo na porta. Em outras empresas, o papel higiênico ficava em cima da mesa do chefe. Ela tinha que ir lá e pegar uma cota [de papel]. Então, se acabava o rolinho dali, elas tinham que se virar no banheiro, levar de casa ou fazer o que fosse possível, relatou.
Dopinho do ABC
Em suas pesquisas, os dois jornalistas descobriram também a existência de um braço do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) em São Bernardo do Campo, que era o principal polo metalúrgico do Brasil e que integra a região do Grande ABC.
Segundo os pesquisadores, esse Dopinho do ABC era formado por empresas da região e continha um sistema de vigilância e de controle dos trabalhadores e dos ativistas sindicais. Uma espécie de controle industrial sobre a sociedade civil, contam, no livro.
A gente descobriu a existência de uma filial do DOPS no ABC que ficava a três ou quatro quadras distante da sede do sindicato. Lá, as pessoas eram presas e torturadas. Para lá iam presos os trabalhadores, pessoas ligadas aos movimentos eclesiais de base ou de movimentos de melhoria nos bairros. A gente conta a história, inclusive, de um menor de idade que foi preso e torturado ali, disse Eduardo Reina.
Essas descobertas, reforçam os pesquisadores, demonstram que ainda há muito a ser pesquisado sobre a cooperação das empresas com a ditadura militar brasileira. Principalmente sobre a participação das empresas públicas, o que ainda não aconteceu.
Eu acredito que a ditadura sobreviveria [sem a participação empresarial]. Mas ela sobreviveu de uma forma muito mais escalonada com a participação dessas empresas, diz Ferrasoli.
Acho que o livro contribui bastante para mostrar isso, disse Reina, em entrevista à Agência Brasil.
A história da ditadura no Brasil tem milhares de coisas que precisam ser contadas. Muitas coisas foram enterradas e muita coisa desapareceu. Muitos arquivos militares foram destruídos. Mas a gente precisa ter um outro olhar para toda essa documentação e avançarmos com isso para mostrar todas essas coisas que aconteceram e continuam acontecendo. Se a gente fizer um paralelo, a polícia militar age do mesmo modo hoje como agia na ditadura. Se formos para a periferia, então, os pretos e os pobres são as maiores vítimas dessa ditadura hoje, como eram também na época da ditadura. E isso ninguém contou até hoje, destacou o pesquisador.
Montadoras
A Agência Brasil procurou as cinco montadoras citadas no livro, mas até o momento da publicação elas não se manifestaram sobre o tema.
Em nota enviada aos escritores do livro, a Volkswagen informou que assinou um termo de ajustamento de conduta (TAC) com o Ministério Público e que foi a primeira empresa estrangeira a reavaliar sua história durante o regime militar no Brasil.
Já a Scania disse que repudia qualquer tipo de violação aos direitos humanos e que não guarda mais documentos sobre aquele período.
A Mercedes-Benz escreveu aos autores que não identificou, até o momento, evidências de suporte da empresa com a ditadura militar.
A GM, por sua vez, negou envolvimento com ações repressivas ou de colaboração com a ditadura, e a Ford também não se manifestou aos autores do livro.
O livro Repressão Sociedade Anônima é uma publicação da Editora Alameda.