Juliano Nery Juliano Nery 5/3/2013

Uma improvável torcida

IlustraçãoSou vascaíno e mineiro. Já fui mais vascaíno do que mineiro. Atualmente, mais mineiro do que vascaíno. Nesta história, no entanto, pouco importa a ordem de grandeza em relação à dimensão do carinho, já que o enredo acabou misturando as duas coisas. E, antes de mais nada, não me venha com aquela conversa de que mineiro tem que torcer para times do Estado, porque isso não cola.

Pergunte a qualquer mineiro das fronteiras de baixo e você colecionará como resposta à questão "qual é o seu time?" toda sorte de agremiações paulistas e cariocas. E a minha equipe favorita é o Vasco da Gama. E foi em junho de 2011 que aconteceu a tal narrativa, que envolve a nossa capital, Belo Horizonte, e a pequena São Brás do Suaçuí, que fica também na região metropolitana.

Por aquele tempo, eu morava no Rio de Janeiro e o meu time andava longe dos títulos há alguns anos. Talvez, a minha mudança para a capital carioca e o fato de ser pé quente fez com que a equipe de São Januário voltasse a disputar títulos. Pretensões à parte, naquela noite fria de junho, o Vasco foi até o Sul do país e conseguiu arrematar a taça de campeão da Copa do Brasil daquele ano, após uma partida extremamente disputada com o Coritiba, do Paraná. Era o fim daquele ciclo de derrotas dos últimos anos. Poderia, então, brincar com a cara de todos os outros torcedores da Cidade Maravilhosa, não fosse um detalhe: estava em Belo Horizonte, no dia da final.

E, como um louco, gritei sozinho dentro do quarto no décimo quinto andar do hotel na avenida Afonso Pena, em frente ao Parque Municipal. Mas, confesso que ficou meio sem graça, já que não haviam torcedores para que eu pudesse manifestar minha alegria de ser vascaíno, após tantos anos de sofrimento. E passei a noite tentando ligar para alguns colegas flamenguistas que, categoricamente, optaram por não atender às minhas chamadas, já entendendo as galhofas que iriam ouvir.

Fiquei um pouco frustrado com tudo aquilo. Sem ter com quem azucrinar, fui dormir e, já na manhã seguinte, pude manifestar minha alegria de ser campeão. Enquanto a capital mineira sequer se lembrava do jogo da última noite, não me esqueci que o motorista que me acompanhava, o Amarildo, era flamenguista fanático e de Barbacena (ou seria de Barbacena fanático e flamenguista?). Acabou pagando o pato, o coitado, que teve que me suportar até São Brás do Suaçuí, onde teria que realizar alguns avisos sobre uma intervenção da companhia em que trabalhava na localidade.

Chegando à cidade e à primeira das casas que iria visitar, algo improvável aconteceu. Trajando uma blusa da Torcida Organizada Império Alviverde e com a logomarca do Coritiba, um rapaz cabisbaixo me atendeu. Era torcedor do time derrotado pelo meu Vasco na noite anterior. Olhei para o rapaz, que depois me disse que era do Sul e estava realizando um trabalho na região, e não aguentei. Ele quase não acreditou e tive que tirar o manto sagrado da minha bolsa para que ele acreditasse, que havia um mineiro vascaíno.

"Tenho que te fazer um aviso do meu trabalho, mas quero te pedir desculpas por ontem. Sou vascaíno."

Juliano Nery acredita que Minas Gerais é mais que um Estado. É um estado de espírito. São Brás do Suaçui pode ser encontrada na latitude 20° 37' 30" S e longitude 43° 56' 56" O


Juliano Nery é jornalista, professor universitário e escritor. Graduado em Comunicação Social e Mestre na linha de pesquisa Sujeitos Sociais, é orgulhoso por ser pai do Gabriel e costuma colocar amor em tudo o que faz.


* Ilustração: Lucí Sallum

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