Memérias negras de Juiz de Fora são documentadas em livro

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Memórias negras de Juiz de Fora são documentadas em livro A psicóloga Gilmara Mariosa acredita que sua obra resgata a importância do negro na história do município, principalmente na época de sua fundação

Clecius Campos
Repórter
14/5/2009

No mês em que Juiz de Fora comemora seu aniversário de 159 anos, a cidade ganha um registro único sobre as memórias e representações sociais das práticas religiosas de matriz africana. O tema, pouco desenvolvido, é abordado de forma diferente pela psicóloga e escritora, Gilmara Santos Mariosa, no livro Negras Memórias da Princesa de Minas. O estudo do pensamento coletivo sobre os cultos afro-brasileiros em Juiz de Fora e a sua fundamentação em entrevistas realizadas numa comunidade negra da cidade marcam o ineditismo da obra.

Na opinião de Gilmara, a data de lançamento da obra, nesta sexta-feira, dia 15 de maio, não podia ser mais oportuna. "O aniversário de Juiz de Fora sempre recorda a participação de alemães, italianos, sírio-libaneses e outros imigrantes na construção da cidade. A presença dos negros, especialmente na época de fundação da cidade, foi de extrema importância na formação do município e precisa ser resgatada."

A obra é a edição de sua dissertação de mestrado em Psicologia Social pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), defendida em 2007. A psicóloga fez um estudo sobre a memória social, referente à religiosidade, e sobre a forma como os negros encaram os cultos de raiz africana. Durante a pesquisa, Gilmara ouviu 60 moradores do bairro Dom Bosco, escolhido por seu grande contingente de população negra. "Além disso, há indícios, sem comprovação documental, de que o bairro teria sido sede de um quilombo. O que se sabe exatamente é que a região foi construída por ex-escravos no período pós-abolição."

A cidade mais negra do Brasil

Segundo a psicóloga, por volta de 1850, quando Juiz de Fora foi desmembrada de Barbacena e elevada à categoria de município, cerca de 60% de sua população era negra. "Já que Minas Gerais era a maior província escravocrata do país e Juiz de Fora, a maior cidade mineira escravista, podemos dizer que naquela época, a Princesa de Minas era o principal município em termos de escravidão do Brasil."

Já naquela época, a população afrodescendente fazia diferença na história da cidade. Durante suas pesquisas, Gilmara descobriu que o primeiro padre de Juiz de Fora (Padre Tiago) era negro. Ele teria sido o responsável pela fundação da irmandade de Nossa Senhora do Rosário, também formada exclusivamente por fiéis de matriz africana. "Este grupo de pessoas é que fundou a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, no bairro Granbery."

No período pós-abolição, com início em 1888, a população negra de todo o país apresenta um grande crescimento. Em Juiz de Fora, ocorre o boom dos períodos migratórios, com a chegada das populações alemãs, italianas e sírio-libanesas, que começam a trabalhar pelo desenvolvimento da cidade. "Desse período em diante, os registros da história da população negra em Juiz de Fora desaparecem. Pouco se pode investigar sobre sua cultura, em especial a religiosa, que é foco da minha pesquisa."

A pesquisa

Foi baseada nos relatos orais dos moradores do bairro Dom Bosco que Gilmara fundamentou sua pesquisa, considerada inédita pela metodologia. Além de conversar com pesquisadores da área e examinar inúmeros documentos a respeito das religiões africanas, ela foi buscar dos próprios negros as respostas para seus questionamentos. "Eu queria saber o que os negros sabiam da religião de seus antepassados e como eles a encaravam. O ineditismo do estudo está na fonte, já que não busquei as informações nos templos, com praticantes das religiões, e sim nas ruas, com gente comum."

Gilmara descobriu que, durante o período de escravidão, os negros foram psicologicamente agredidos. Naquela época, além da opressão que sofreram, vários aspectos de sua pedrsonalidade foram descaracterizados. "Inclusive nomes e crenças foram mudados. Esse ato de tirania era uma forma de fragilizá-los, facilitando a escravidão." Desta forma, pouco da tradição original teria sido preservado nos dias de hoje. "Obviamente há uma memória, porém ela apresenta-se difusa, diluída. O sincretismo religioso atrapalhou bastante a assimilação desses valores, especialmente pela população negra."

Outra descoberta de Gilmara é que, mesmo entre a população negra, o preconceito em relação às religiões de matriz africana é muito forte. "É difícil até para os praticantes assumirem uma religiosidade que, na maioria das vezes, é relacionada à negatividade ou ao demoníaco. Este negro que é adepto dos cultos afro-brasileiros sofre duas discriminações."

A ideia do livro, segundo Gilmara, é possibilitar a reflexão sobre a representação social das práticas religiosas de matriz africana, tentando desmitificar a relação entre tais cultos e o mal. "As pessoas precisam saber que existem ritos positivos, ligados ao bem, nessas religiões. E acima de tudo, a população deve respeitar tais manifestações."

O livro

Negras Memórias da Princesa de Minas foi editado pela Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage (Funalfa). O projeto foi aprovado pela Lei de Incentivo à Cultura Murilo Mendes. Foram impressos mil exemplares, sendo que 300 serão doados para bibliotecas e escolas da cidade, como contrapartida. Gilmara vai ainda ministrar oficinas de literatura sobre seu livro a comunidades carentes ao longo do ano, começando pelo Dom Bosco.

O lançamento do livro, marcado para as 18h30, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, vem acompanhado por uma exposição do artista plástico Maury Paulino, que ilustrou a obra com quadros representando orixás e figuras conhecidas na cidade, como a líder negra Cirene Candanda. Haverá ainda show de MPB com Maury Paulino.

A obra está à venda no CCBM ou com a própria autora. O preço é R$ 25*.

*Valor informado em maio de 2009

Os textos são revisados por Madalena Fernandes