Paula Medeiros Paula Medeiros 11/2/2011


O Discurso do Rei
ilustra sutilmente a humanização da realeza britânica

O Discurso do Rei é um filme cujo pano de fundo é a política, mas seu distanciamento proposital de desdobramentos desse tema é um dos principais fatores que garantem seu sucesso. Seu triunfo se deve à aproximação da realeza aos meros mortais, no que diz respeito aos conflitos, angústias, medos e dúvidas. A coroa britânica é a personificação da autoridade de uns poucos sobre muitos outros e retratá-la do ponto de vista de suas fraquezas é como atingir o calcanhar de Aquiles. E o êxito da história do rei George VI é devido a essa aproximação com o público, dada pela aura de contos de fada que o enredo assume.

Além da simplicidade do retrato da monarquia — sem deixar de, obviamente, ressaltar a natureza inglesa em seus padrões metódicos e severos —, o filme ainda conta com o valor de uma história verídica, fator que valoriza ainda mais o drama instalado. O rei George VI (Colin Firth), cujo nome de nascença é Albert Frederick Arthur George, sofre de uma gagueira aflitiva, que o afeta em todos os patamares de sua vida, principalmente quando tem que se dirigir à nação.

Após tentar diversos métodos, alguns incômodos, outros constrangedores, Bertie (assim chamado pela família), desiste de tentar curar esse mal que tanto o consome. Diante dessa situação, sua esposa Elizabeth (Helena Bonham Carter), busca alternativas para solucionar a persistente gagueira do marido e descobre Lionel Logue (Geoffrey Rush), um terapeuta que apresenta um tratamento, a princípio, controverso. Mesmo diante da recusa de Bertie, Lionel insiste no tratamento. A partir daí, surge uma amizade — à moda inglesa, claro — e, com ela, soluções inesperadas para o herdeiro do trono.

Os primeiros cinco minutos do filme ditam o tom que ele seguirá a partir daí. Comovente, Colin Firth brilha em sua atuação, desde a técnica que desenvolveu para interpretar a gagueira (nada caricatural), ao porte que assume ao encarnar um monarca. Britânico de nascença, o ator convence no papel, inclusive no jeito contido diante da mais dura crise. Do mesmo modo, Helena Bonham Carter se sobressai e finalmente tem a chance de mostrar que também sabe atuar fora do contexto das bizarrices e excentricidades dos últimos cinco, talvez dez, anos da sua carreira. A trilha sonora de Alexandre Desplat é outro elemento fortíssimo de O Discurso do Rei, uma vez que pontua o filme de maneira exata e influencia na ambientação do drama do enredo.

A principal característica de O Discurso do Rei é a forma sutil de conduzir uma trama com tantas adversidades. Bertie é o resultado de uma educação severa e fria, de uma vida predestinada desde seu nascimento até seus últimos passos. Mas para mostrar isso, o escritor David Seidler não buscou soluções melodramáticas ou apelativas. Simplesmente tornou esse fato explícito, o que foi suficiente para o tom intimista almejado pelo diretor, Tom Hooper.

Apesar de tantos prós e poucos contras, o filme não inova em nenhum aspecto. Essa humanização da monarquia já foi retratada anteriormente em películas como A Rainha. E, de fato, o roteiro não permite muitas extravagâncias, principalmente quando a rainha Elizabeth II — filha de George VI — estará na primeira fila de uma sessão exclusiva.

Dito tudo isso, podemos ainda analisá-lo com um filme sobre superação e aceitação. E avaliando O Discurso do Rei dentro desse contexto, podemos considerá-lo como um filme bem executado dentro de seus propósitos e pretensões.

Ficha técnica

O Discurso do Rei / The King's Speech
Reino Unido, 2010, 118 min
Direção: Tom Hooper
Roteiro: David Seidler
Elenco: Helena Bonham Carter, Colin Firth, Guy Pearce, Michael Gambon, Geoffrey Rush, Timothy Spall, Jennifer Ehle, Derek Jacobi, Anthony Andrews, Eve Best, Dominic Applewhite, Max Callum
Trilha Sonora: Alexandre Desplat


Paula Medeiros
é estudante de Comunicação Social com participação em Projetos Cinematográficos.

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