Juiz de Fora - MG

Não há conexão entre entregar o governo de Minas e ter o apoio nacional do PP

Transição no governo mineiro não foi manobra para obter o apoio para candidatura de Aécio Neves, afirma o deputado Marcus Pestana (PSDB)

Eduardo Maia
Repórter
7/04/2014
Marcus Pestana

Presidente do diretório estadual do PSDB, Marcus Pestana (foto), é hoje uma das principais figuras dentro da articulação política nacional do partido. Nascido em Juiz de Fora, o economista acompanha de perto as mudanças no cenário político estadual e as decisões tomadas rumo à campanha eleitoral de 2014. Abrindo uma série de entrevistas que a ACESSA.com realizará, a fim de traçar um panorama das articulações em 2014, o deputado fala sobre a transição no Governo de Minas, a espera pelo apoio do PMDB no estado e no município e ainda opina sobre questões centrais, como a alta dos índices de violência e os problemas da saúde pública no país.

ACESSA.com - Como foi discutida dentro do partido a transição do governo de Minas para o atual governador Alberto Pinto Coelho?

Essa operação obedece uma lógica de continuidade. Temos um projeto muito sólido sobre a realidade mineira, com um programa de governo que vem sendo implantando nos últimos anos. Nós passamos o governo para o Alberto, velho companheiro, líder do Aécio, presidente da Assembleia. São só nove meses e trata-se de dar um fecho e cumprir as metas que foram traçadas, com o tempero pessoal do novo governador.

ACESSA.com - Repassar o governo ao PP representa uma estratégia de buscar apoio a nível nacional para a candidatura do senador Aécio Neves?

Não há conexão entre entregar o governo de Minas e o apoio nacional do PP. No Brasil se desenvolveu essa lógica do toma lá dá cá. Minas têm autonomia em relação ao quadro nacional. O PP virá ou não por outras razões. Há uma crise, o ciclo do PT se esgotou e uma parte da base que apoia Dilma começa a se sentir abalada. Acho até difícil o PP apoiar formalmente a candidatura do Aécio à presidência, mas é possível o PP ficar neutro como em 2010. Ele tinha uma série de seções regionais que apoiavam ambos os candidatos e liberou o partido, sem apoiar oficialmente uma das candidaturas.

ACESSA.com - A que se dedicará o ex-governador Antônio Anastasia neste momento?

O Anastasia terá agora um pequeno descanso. Ao longo de maio e junho, ele coordenará o programa do candidato Aécio, e depois da Copa mergulhará na campanha, se realmente se confirmarem as expectativas da candidatura ao Senado. É um quadro novo no partido, dos mais brilhantes da administração pública, e ele dará uma contribuição enorme, no futuro, ao povo mineiro. Ele tem um perfil adequado e uma aprovação eleitoral.

ACESSA.com - Como será elaborada a estratégia de tornar o candidato Pimenta da Veiga mais conhecido em Minas? Como é analisada a preferência pelo pré-candidato Fernando Pimentel nas pesquisas?

Será uma disputa em alto nível. Dois ex-ministros, dois ex-prefeitos de Belo Horizonte. Mais uma vez vamos apontar um rumo de continuidade com inovação. Nossa perspectiva política tem alguma diferença em relação a do PT. Temos um grande apoio em Minas Gerais com o governo Aécio. Minas é um estado síntese, teve participação na história brasileira, sempre esteve no centro dos acontecimentos. Teremos um embate, uma disputa do tipo Tiradentes x Joaquim Silvério dos Reis. Vamos mostrar quem está com o projeto de Minas e quem está contra. Vai ter uma polarização muito forte. Isso vai dar um clima na campanha que cria um leito muito favorável para Pimenta da Veiga.

Por outro lado, temos resultados, um governador com mais 60% das intenções de voto para o senado, mais de 20 partidos aliados a esta proposta. Um candidato com boa comunicação, que se afastou, mas é preparado e respeitado. Vamos recuperar esta história. Há muitas conclusões antecipadas na política. Há a frase de um filósofo que diz que "tudo que é sólido se desmancha no ar." Existem muitos casos de alterações no cenário eleitoral. As pessoas ficam impressionadas com as pesquisas iniciais, mas elas medem mais o passado do que o futuro. E isso pode ocorrer em Minas.

ACESSA.com - Como caminha a aliança com o PMDB no estado de Minas Gerais?

Essa é única variável política ainda aberta em Minas para a nossa chapa. Nosso adversário está mais isolado, temos apoio de 20 partidos. Estamos em processo de diálogo, fui a uma reunião com a executiva estadual e apesar do PMDB ter ficado 20 anos na oposição, ele nunca foi inteiro para uma eleição. A base sempre nos apoiou, mas a instituição nunca ficou com a gente. 85% dos delegados estaduais que votarão na convenção do PMDB querem candidatura própria. Os outros 15% se dividem. Fui conversar com o presidente para abrir uma porta para o futuro. A intenção de tê-los como parceiros, fiz o convite e estão divididos, cabe a eles tomar esta decisão. Se vierem, iremos abrir o quadro de distribuição das vagas para deputados. Tem uma grande bancada, uma inserção na televisão, uma tradição. Nos resta aguardar.

ACESSA.com - Em Juiz de Fora, há possibilidade das alianças locais, principalmente o prefeito Bruno, aderir à campanha do PSDB?

Temos uma forte parceria com o prefeito Bruno e estamos na administração. É uma nova liderança, que tem profunda identidade com o nosso modo de ver a política. Ele tem seus compromissos partidários e tem o tempo de fazer suas opções. É muito constrangedor para o prefeito Bruno apoiar o PT, que faz uma intensa oposição hoje na Câmara Municipal. Não podemos desconhecer este histórico. Mas nós temos que respeitar. O ambiente da aliança tem que ser bom para todo mundo e começa pelo respeito aos prazos, ao processo de decisão interna, não queremos atropelar.

ACESSA.com - Como está sendo construído o quadro de chapas de deputados em Juiz de Fora? Há possibilidade de Custódio Mattos se candidatar a uma vaga na Assembleia Legislativa?

O Custódio está como secretário de desenvolvimento econômico da prefeitura de Belo Horizonte e assume agora a secretaria-geral do Governo de Minas a convite do governador Alberto Pinto Coelho. Portanto, ele não  participará. Juiz de Fora tem que ficar atenta, porque temos hoje três deputados federais e podemos chegar a quatro. O problema é que Juiz de Fora tem dispersado muito seus votos. É possível fazer quatro deputados federais e cinco estaduais. Depois que o Bruno foi para a Prefeitura, ficamos sem representação na assembleia. O Lafayette Andrada tem uma representação aqui, mas é vinculado a Barbacena. Temos nomes fortes como o ex-secretário da saúde, Antônio Jorge (PPS), e o Isauro Calais, ativo defensor dos interesses da cidade. 

ACESSA.com - Partindo para os problemas enfrentados pelo Estado hoje, como o senhor analisa os atuais índices de violência?

A violência é um problema mundial. O crack tirou a barreira econômica. Antes, a cocaína ficava só na elite. É uma droga barata, muito agressiva à saúde humana e ao convívio social. A gente fica assustado com as brigas de gangue no centro da cidade, mas temos que observar que os indicadores em Juiz de Fora ainda são muito melhores do que Uberlândia e na região metropolitana.

O Governo Federal tem que participar mais ativamente. O financiamento é quase todo nas costas dos governos estaduais, sendo que o dinheiro está concentrado em Brasília. Há que se ter um elenco de medidas articuladas. Não é uma questão tópica em Juiz de Fora. Falta uma política nacional, enrijecendo a penalidade para crimes hediondos e a questão do menor infrator também presente. É preciso separar o pequeno ladrão, não levá-lo para a escola do crime, não entupir o sistema penitenciário. Temos que criar uma forma inteligente de punir. Também é preciso integrar as forças policiais, com mais inteligência. Detectar preventivamente o crime através das tecnologias modernas. É um problema complexo, as linhas de trabalho não estão definidas.

ACESSA.com - E a questão da saúde pública? Como o senhor avalia o cenário que é apresenta um dos principais problemas hoje?

Há claramente um déficit. Fui secretário da saúde e promovemos transformações profundas no sistema. Há um elenco de questões a serem resolvidas, mas a raiz de tudo é o subfinanciamento. No Brasil investimos cerca de 380 dólares por habitante/ano. Países como Portugal investem cerca de 1500 dólares. Há evidências que o dinheiro é curto, menor que as necessidades da população e deriva na dificuldade de contratar profissionais, de manter os locais, da distribuição de medicamentos, filas. Tudo tem raiz na gestão e no dinheiro. É preciso que a sociedade brasileira tome uma decisão, investir mais na saúde.

Eu não tenho uma visão catastrófica do SUS. As coisas avançaram. Em Juiz de Fora, o Hospital Maternidade Terezinha de Jesus estava para fechar e formamos quase 3 mil leitos. Na Santa Casa, investimos mais de R$ 30 milhões na modernização. O João Penido virou um hospital modelo. Criamos a UPA de Santa Luzia e UPA São Pedro. Fizemos a Acispes que dá assistência a 24 cidades da região, com padrão de qualidade que deve ser conhecido pela população. Houve avanços, mas ainda há problemas.

ACESSA.com - O senhor é grande crítico do programa Mais Médicos. Por quê?

Um problema crônico que temos é a falta de médicos. Todos somos a favor de mais médicos, na periferia e nas cidades do interior. Mas o remédio adotado foi "demonizador". Nós perdemos a solidariedade dos 400 mil médicos brasileiros que foram jogados aos leões. Não há um plano de carreira, não há perspectiva profissional e não há condições de trabalho. Só vai haver solução definitiva quando houver carreira.

Dirigi o PSDB para um acordo, não obstruímos, priorizamos os médicos brasileiros. Nada contra os cubanos, mas tudo contra as relações semi-escravistas. Eles ganham R$ 900 e o resto para vai para Cuba, parte para a família deles, parte para o governo cubano e parte para a Organização Panamericana (Opas). O Mais Médicos é um tapa buracos que não se sustenta. Fizemos um acordo para que a partir de 2017 tivesse concurso público, Revalida, aprovamos a minha emenda na Câmara dos Deputados por unanimidade, foi aprovado no Senado e a presidente Dilma, desrespeitando um acordo, vetou.

Agora eu apresentei um projeto de lei para que haja no médio prazo uma solução definitiva, porque os cubanos não vão ficar aqui para sempre. O governo fez isso com intenção eleitoreira, vai ser carro chefe das campanhas da presidente e do ministro Padilha. Precisamos caminhar para soluções mais estruturadas, definitivas e tenho tentado colocar o meu trabalho a serviço do sistema público brasileiro.

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