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Observador político 2019

Luiz Werneck Vianna - Janeiro 2019
 

Abaixo, todos os artigos sobre conjuntura publicados por este autor em 2019 em O Estado de S. Paulo, salvo indicação em contrário. O leitor deve procurar também os artigos das séries de 2010, 2011, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017 e 2018.

Para um exame de todo o ciclo do petismo no poder, vejam-se os textos a partir de A história absolvida.

Várias destas análises foram reunidas, com outros textos, em A modernização sem o moderno. Análises de conjuntura na era Lula (Brasília/Rio de Janeiro: Fundação Astrojildo Pereira/Ed. Contraponto, 2011), bem como em Diálogos gramscianos sobre o Brasil (Brasília/Rio de Janeiro: Fundação Astrojildo Pereira/Ed. Verbena, 2018).



Sem oposição efetiva, Governo Bolsonaro tem céu de brigadeiro (Política Democrática On-Line, fev. 2019)

“Há processos reais, inamovíveis, irremovíveis que vêm trabalhando na nossa sociedade; e isso, no limite, propicia um avanço continuo da democracia”, avalia o sociólogo Luiz Werneck Vianna em entrevista especial à Revista Política Democrática On-line, de janeiro, ao comentar este início do governo do presidente Jair Bolsonaro e a guinada à direita que está em curso atualmente no país. “A sociedade não vai abdicar facilmente do que conquistou, mas é preciso que transforme isso em motivação política. A revolução democrática avança planetariamente, inclusive entre nós, mas conhece também obstáculos que não são propriamente — ou somente — os que o campo adversário nos arremessa. São, antes, interesses represados que se organizam de forma segmentada, com base em identidades culturais, com perda da ideia de bem comum”, avalia.

Werneck Vianna aponta que, a nosso favor, “está a riquíssima herança que recebemos de um Jorge Amado, um Graciliano Ramos, um Guimarães Rosa, que sempre buscaram novos caminhos, criando as bases da moderna cultura brasileira”. “Já a preocupação do lado de lá é refrear, é conter os processos que vêm atuando até agora como forças da natureza, embora com pouca reflexividade. Afinal, não é difícil descobrir, entre os jovens, centelhas brilhantes. Não há caminho a ensinar para eles; eles têm que aprender por eles mesmos, como nós aprendemos, quando o país, em um certo dia de agosto de 1954, foi dormir de um jeito e, com o suicídio de Vargas, acordou de outro. Eu e muitos da minha geração mudamos com a difusão da sua carta testamento no rádio, um dia inteiro, produzindo um impacto intelectual, moral, político muito grande sobre cada um de nós”, completa Vianna

Sobre a possibilidade de Bolsonaro, e sua nova ordem nacional pontilhada de projetos antagônicos, vierem um dia a fazer uso da força para manter o governo, Werneck Viana diz que cabe à sociedade impedir. “O céu de brigadeiro a que alguns arautos do novo governo têm feito referência só existe em razão de os bloqueios políticos ao novo grupo no poder serem ainda muito frágeis”. Para o sociólogo, “não há oposição efetiva, os movimentos sociais estão destroçados, o sindicalismo também. Então, por mais que a harmonia na atual coalizão governamental seja difícil, e vai ser, os riscos são pequenos para ela”.

Luiz Werneck Vianna é professor-pesquisador na Pontifícia Universidade Católica – PUC-Rio. Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo – USP. Autor de, entre outras obras, A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1997); A judicialização da política e das relações sociais no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1999); e Democracia e os três poderes no Brasil (Belo Horizonte: UFMG, 2002). Sobre seu pensamento, leia a obra Uma sociologia indignada. Diálogos com Luiz Werneck Vianna, organizada por Rubem Barboza Filho e Fernando Perlatto (Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2012). Destacamos também seu novo livro intitulado Diálogos gramscianos sobre o Brasil atual (Fundação Astrojildo Pereira e Verbena Editora, 2018), que é composto de uma coletânea de entrevistas que analisam a conjuntura brasileira nos últimos anos (Maria Alice Rezende de Carvalho, Caetano Araújo e Priscila Mendes).

Que Brasil é esse? Você está otimista?

Um amigo meu comentou, não faz muito tempo, que estranhava meu pessimismo, já que, publicamente, sempre procurei demonstrar uma perspectiva diferente, otimista. Hoje mesmo, pela manhã, dei uma entrevista para uma publicação da Unisinos, do Rio Grande do Sul, e a jornalista concordou com o diagnóstico do meu amigo. Perguntei, então, a ela, se tinha alguma coisa para me dizer que justificasse uma visão mais positiva. Acho que posso fazer essa pergunta também a vocês. Se me apresentarem uma trilha, uma brecha que me permita caminhar em terreno mais propício, poderei voltar a demonstrar algum traço de otimismo. 

Há, é claro, alguns aspectos que apontam para uma perspectiva mais positiva. Falo, por exemplo, das mulheres, da emergência mundial da questão feminina e da importância desse fenômeno, que não tem propriamente um partido, um movimento organizado em torno dele, e que consiste em um processo efetivo e incontornável de mudança. A questão feminina incide sobre o mundo do trabalho, sobre variadas dimensões da vida contemporânea, e isso afeta todo o planeta, inclusive o Oriente mais tradicionalista. Enrico Berlinguer anunciou lá atrás, ainda nos anos 1970, que a emergência da mulher era uma revolução; e o que vimos, de lá para cá, foi a confirmação disso, a ampliação disso, a generalização de novas práticas que não têm um núcleo orgânico, que é um processo societal, uma mudança de época, uma mudança antropológica. Contra essa revolução planetária não adianta lutar, não adianta tentar frear. 

Atento a esse grande sinal de mudança, fui sendo levado a perceber a existência de outros processos também irrefreáveis, que ocorrem agora mesmo e que tendem a produzir uma zona de resistência à tentativa de fazer com que a roda da história rode para trás. Portanto, independentemente da consciência, há uma revolução que transcorre nas
camadas mais fundas das estruturas sociais e que não tem volta. Pode-se até dizer que a consciência está muito retardatária em relação ao avanço desse processo, e que a subversão que esses processos impõem à ordem que conhecemos é de tal monta que já permite reconhecer fortes indícios de mudança de época. 

Como avalia a política ultradireitista de Trump, com ações contra as mulheres, contra os imigrantes, entre outros? 

O movimento internacional que Trump tenta dirigir não passa de um movimento defensivo, movido pelo sentimento de que um certo mundo está desaparecendo — uma desaparição lenta e contínua, que ocorre em toda parte, inclusive nos EEUU, país mais poderoso do mundo. A política de Trump é uma tentativa de deter esse processo; pois ele está convencido de que é preciso detê-lo. Trata-se de um esforço para sustar o movimento do mundo. Mas as dificuldades do Brexit britânico evidenciam que não é fácil fazer a roda girar para trás, assim como ocorre com o muro do Trump, que põe em risco sua reeleição e até mesmo seu atual mandato, no caso da onda do impeachment ganhar viabilidade.

Não é à toa que a reação fala em marxismo cultural, uma das invenções discursivas com que se tenta paralisar a revolução em curso. Mas é possível devolver as mulheres a seus lugares e papéis antigos? Quem vai devolver nossa consciência ao substrato primitivo? Quem vai nos devolver aos anos 20 do século passado? Porque a tentativa é essa — uma tentativa forte, movida por grandes recursos, embora não tenha capacidade de persuasão, pois, para onde se olhe, todas as grandes frentes da presente mutação nas coisas do mundo, como o meio ambiente, por exemplo, estão amparadas por bibliografia, movimentos sociais, em setores expressivos da opinião pública, esforços sedimentados em diferentes agências por todo o mundo.  Quem vai apagá-las? Quem vai subtrair tais temas das bibliotecas e do mundo da vida? Quem vai esquecer o inventário de análises que o processo de Chernobyl suscitou? 

A ordem cosmopolita, sempre latente como utopia na tradição do pensamento filosófico está, agora, presente no mundo como uma utopia realista a partir de, pelo menos, duas instituições muito poderosas: o Vaticano, de um lado, e a ONU, de outro. Por isso mesmo,
elas são instituições-alvo a serem neutralizadas. Essa é uma era sombria; e não apenas no Brasil. 

A situação brasileira não pode ser vista isoladamente. Ela contém aspectos locais, sem dúvida, uma paisagem social marcada pela desigualdade, atores com tradições
muito sedimentadas, como os militares e os juízes, que não são personagens vinculados ao mundo da produção, mas ao Estado, a sistemas organizacionais, a sistemas culturais que lhes são específicos. A nova ordem nacional que está vindo aí não por acaso escolheu o campo da cultura como lugar privilegiado de suas intervenções, porque é nele que se abrigam os ideais de inovação, de igualdade e liberdade. 

Mas essa nova ordem nacional, que está pontilhada de projetos antagônicos, não levaria a que, para manter o governo, fosse necessário fazer uso da força? Não acabaria levando à utilização de um método forte?

Sim. Acho que esse caminho é plausível. 

O caminho da força?

Sim. Cumpre a nós impedi-lo. O céu de brigadeiro a que alguns arautos do novo governo têm feito referência só existe em razão de os bloqueios políticos ao novo grupo no poder serem ainda muito frágeis. Não há oposição efetiva, os movimentos sociais estão destroçados, o sindicalismo também. Então, por mais que a harmonia na atual coalizão governamental seja difícil, e vai ser, os riscos são pequenos para ela. Hoje, por exemplo, ficamos sabendo pelo noticiário que houve recuo na questão da cessão de parte do território para uma base americana. Era de se presumir que haveria muita dificuldade nisso, porque as Forças Armadas são o que são. Imagino que a reação que levou a tal mudança de posição tenha vindo mais do corpo militar do que de qualquer outro lugar; não foi, certamente, a reação da opinião pública. 

Mas, agora, quem vai segurar a ordenação democrática que conquistamos com a Carta de 88? O Judiciário? Mas o STF se deixou dividir por razões idiossincráticas de muitos dos seus Ministros, perdendo a forte legitimidade com que sempre contou perante a opinião pública — um legado de algumas grandes personalidades que passaram e ainda passam por ele. Creio que parte desse patrimônio tem sido comprometido por algumas controvertidas decisões recentes.  Como manter o equilíbrio precário da nossa política e da nossa sociedade sem um Judiciário coeso e respeitado por todos? 

Minha presunção é de que há processos reais, inamovíveis, irremovíveis que vêm trabalhando na nossa sociedade; e que isso, no limite, propicia um avanço continuo da democracia. É claro que não fomos apenas nós que percebemos isso: o grupo que hoje se encontra no poder percebeu também e decidiu que esse avanço precisava ser interrompido. Quando se deixou de valorizar o centro político, abriu-se a oportunidade para que prosperasse o argumento de que os caminhos da democracia estavam livres porque a sociedade iria rejeitar Bolsonaro, essa figura bizarra na política. Esse argumento, evidentemente, foi para o espaço, porque a sociedade está muito incomodada com as denúncias de corrupção, com a desordem pública, a criminalidade em cidades como
Fortaleza, Rio de Janeiro. Tudo isso assusta.

No Rio, muito mais do que no Ceará, é impressionante o papel das milícias, a disputa de territórios com o Estado, e agora a retórica do novo governador, uma retórica de morte aos criminosos, que só intensifica o clima de guerra social. Portanto, embora esses homens tenham ganhado no voto, seu programa de combater os males sociais com caça, morte, mais violência... isso não anima muito a sociedade e torna difícil a vida dos novos governantes. Se para eles a coisa está difícil, para nós está dificílima, sem estadistas, sem política, sem uma esquerda inovadora, porque o que havia de inovação na minha geração foi neutralizado, posto à margem, restando uma esquerda sem imaginação, incapaz de entender o país, de projetar um caminho novo.

E agora? 

Estamos dependendo das novas gerações, que nós não conseguimos formar. Porque
não há astúcia politiqueira ou eleitoral que nos tire desse pântano. Não há esquerda e, sendo assim, como vamos operar? Vamos nos apegar aos velhos valores, cada um de nós impondo seus próprios limites — “daqui não passo”, “não aceito isso”? Mas como nossa sociedade é muito complexa, muito desigual e culturalmente muito ativa, muito interessante — o que se manifesta na música popular, no carnaval, nas estratégias informais para ganhar a vida —, é esperar e ajudar, no que for possível, para que as gerações que estão vindo encontrem motivação para recuperar o que há de melhor na nossa história, e a levem à frente, pois o que está aí não é capaz de fazer isso. 

O que temos a nosso favor, como um país com uma democracia jovem ainda?

A nosso favor está a riquíssima herança que recebemos de um Jorge Amado, um Graciliano Ramos, um Guimarães Rosa, que sempre buscaram novos caminhos, criando as bases da moderna cultura brasileira. Já a preocupação do lado de lá é refrear, é conter os processos que vêm atuando até agora como forças da natureza, embora com pouca reflexividade. É preciso trabalhar com esse material bruto. Afinal, não é difícil descobrir, entre os jovens, centelhas brilhantes. Não há caminho a ensinar para eles; eles têm que aprender por eles mesmos, como nós aprendemos, quando o país, em um certo dia de agosto de 1954, foi dormir de um jeito e, com o suicídio de Vargas, acordou de outro. Eu e muitos da minha geração mudamos com a difusão da sua carta testamento no rádio, um dia inteiro, produzindo um impacto intelectual, moral, político muito grande sobre cada um de nós. 

Enfim, não dá para adivinhar o mundo, o mundo é assim mesmo, cheio de imprevistos, e nossa espécie tem sabido introduzir e defender as ideias de paz, de solidariedade, de cooperação, ela tem sabido se proteger... Porém, agora, círculos ferozes decidiram que o mundo, do jeito que está, do jeito que caminha aceleradamente na direção de uma vida com mais liberdade e justiça, não vale a pena e assumem a possibilidade de um grand finale catastrófico. Faz lembrar o filme do Stanley Kubrick, Dr. Fantástico, que leva nosso planeta à destruição por uma hecatombe nuclear. Essa luta encarniçada por hegemonia — EUA, China, com a Rússia presente nisso — bem pode ser o sinal de que iniciamos o ingresso em uma era de confrontos derradeiros, uma luta dos historicamente derrotados contra os avanços da democracia e dos direitos.

Trump e outros ferozes sequazes são capazes de tudo para defender suas posições: por isso vivemos em sociedades de risco, em um tempo de grandes ameaças, não só as naturais, mas também as sociais, as políticas, as bélicas. Aliás, desse ângulo mais acanhado do subcontinente em que vivemos, a questão da Venezuela pode se complicar em termos militares.  E a América Latina, território antes bastante aprazível do ponto de vista da convivência entre Estados nacionais, pode ser contaminada pelo que foi a velha doença europeia de guerras por domínio e por disputas territoriais, que são estimuladas do centro politicamente dominante, com efeitos perversos na nossa parte do mundo. Nunca foi tão necessário, como agora, começar as análises por temas internacionais.

Mas uma parte significativa da cultura democrática, hoje, não está reativa à ideia de humanidade, universalismo e questões afins? 

Sim, a segmentação de identidades e de interesses tem sido a tônica, por ora. Nós conhecemos isso cronicamente, nós experimentamos uma institucionalidade corporativa desde os anos de 1930. E isso sempre colidiu com a vida partidária. Agora, por exemplo, estamos às voltas com a questão da previdência: os partidos terão que lidar com o frenesi das corporações. E quando a questão previdenciária chegar no terreno militar, isso será ainda mais agravado. A vida coorporativa no Brasil é muito poderosa, contamos com a experiência disso. O que faz com que a minha reflexão anterior sobre a perspectiva de avanço da democracia no mundo tenha que ser matizada. A revolução democrática avança planetariamente, inclusive entre nós, mas conhece também obstáculos que não são propriamente — ou somente — os que o campo adversário nos arremessa. São, antes, interesses represados que se organizam de forma segmentada, com base em identidades culturais, com perda da ideia de bem comum. Tal fato imprime, na verdade, certa dose de pessimismo às minhas reflexões. 

Como a oposição deveria se comportar daqui para frente? Ela deveria estar começando a se organizar, mesmo que sem a liderança de um partido?

A oposição está aí, o sentimento de oposição está aí, e um sentimento de que é preciso defender o que já foi conquistado está aí também. A sociedade não vai abdicar facilmente do que conquistou, mas é preciso que transforme isso em motivação política. Vai demorar, eu acho que vai demorar. Ou talvez não, pois sempre existe o inesperado, como o suicídio de Getúlio. Pode ocorrer uma mudança intempestiva. Mas a coisa mais organizada, ordenada, uma reflexão mais apurada, isso eu acho que vai demorar.

No processo de transição para a democracia, os movimentos encabeçados pela ABI, OAB, SBPC, CNBB, etc., foram muito poderosos e ainda estão presentes na sociedade brasileira — um pouco desativados, eu diria, mas poderão retornar...

Sim, eu acho que vão reaparecer, mas temos que dar tempo ao tempo. 

Você acha que essa onda conservadora popular que elegeu o Bolsonaro tem condições de permanecer por muito tempo e se reproduzir, ou você acha que pode haver uma semelhança com o que está havendo nos Estados Unidos, em que dois anos após ter sido eleito, Trump já começa a encontrar resistência por parte de seus eleitores...

A segunda hipótese me parece mais plausível, porque não há uma agenda inclusiva por parte desse governo, e isso deve afetar interesses, culturas, percepções estabelecidas. Enfim, eu acho que a perspectiva do governo também não é muito fácil, porque só fechar, só reprimir, só conter, a sociedade não vai topar. Como no discurso de Bolsonaro no parlatório, emque foi evocado o que há de mais bárbaro, primitivo, rústico na
sociedade brasileira. O mundo popular não se sente atraído, especialmente com o que vai ocorrer, com o que já está ocorrendo no Ceará e vai acontecer no Rio de Janeiro: uma investida bélica em defesa da ordem, do combate à criminalidade, sobre os setores subalternos da sociedade. 

O Moro, que era juiz e agora é ministro, tem a visão limitada do especialista; ele não tem uma formação intelectual abrangente para representar o papel que ele poderia representar. Ele é um juiz de direito, parte de certa elite, mas a visão que ele tem é
muito incompleta. O Ministro Guedes, por sua vez, também não tem domínio do que é o país, ele nunca fez parte da geração de economistas que pensou o Brasil de forma mais abrangente: é um técnico, um homem de visão muito limitada. Mais uma vez pode-se repetir que o Brasil não é um país para principiantes como eles e o próprio presidente da República.

Enfim, para o governo o céu não será de brigadeiro, pois do outro lado há uma
imprensa muito viva, uma linha de resistência forte. Não tenho a menor presunção de descortinar o caminho das pedras, mas me aflige o esforço de descobrir algo dele. Embora sofrendo, o meu sofrimento é imensamente menor do que foi aquele dos pós 1964, quando literalmente o mundo caiu na cabeça da minha geração, que não soube entender o que tinha ocorrido. Levamos meses e meses trocando angustias e aflições, procurando descobrir o que diabos havia ocorrido; e passamos muito tempo para começar a entender, até que nos anos de 1970 — e a bibliografia assinala essa passagem — os estudos sobre o capitalismo autoritário brasileiro nos trouxeram para o jogo. Agora, mais uma vez, deixamos escapar o mundo que nos era muito favorável por não saber melhor interpretá-lo, porque os processos sociais nunca andam sozinhos, eles precisam de uma reflexão que lhes abra caminho, que os discipline, que os eduque e os torne aptos para motivar ações políticas eficazes.

Voltando, então, ao que dizia, não tenho nenhuma presunção de apontar uma saída desse inferno em que estamos metidos. 

O Brasil acima de tudo (3 fev.)

Tempos sombrios os que vivemos, as portas do inferno se abrem diante do nosso olhar descuidado para os perigos a que estamos expostos com uma guerra civil rondando nossa vizinha Venezuela. A dualidade de poder, como registram os clássicos da teoria política, dificilmente suporta situações de equilíbrio e tende a desatar conflitos em que um dos polos envolvidos procura eliminar o seu rival, ou por uma solução de guerra civil, ou induzindo a erosão completa das suas bases de sustentação, favorecendo, no melhor dos casos, a intervenção da política em favor dos setores sociais que se demonstrarem hegemônicos.

O caso venezuelano, em que um grupo opositor ao governo consagrou nas ruas um presidente da República, negando legitimidade ao que está no exercício do poder, conhece a particularidade de que o poder rejeitado de Nicolás Maduro por movimentos sociais e vários partidos políticos em grandes manifestações conta com o apoio de instituições estatais, fundamentalmente do aparato militar, até então coeso na defesa do atual governo. Das duas, uma: ou a oposição — hoje amparada por governos poderosos da região, como, entre outros, o americano, o brasileiro, o argentino, e até de países poderosos europeus, num revival dos tempos coloniais — tem sucesso em abalar de tal forma o governo Maduro que o leve à renúncia; ou, alternativamente, apela ao recurso de uma intervenção armada dos seus aliados internacionais, entre os quais o Brasil, a fim de resolver suas questões internas.

Na hipótese de o governo brasileiro optar pela via tresloucada da intervenção militar, diante de uma cerrada defesa militar da Venezuela do seu governo e seu território, vai para a lata do lixo uma tradição centenária da nossa política externa, inaugurada pelo barão do Rio Branco — não por acaso, nome de avenidas urbanas nas principais capitais do País —, de conduzir as relações internacionais em paz, por meio de soluções negociadas, empenhada historicamente, nas palavras de Rubens Ricupero em seu monumental A diplomacia na construção do Brasil, em ver nosso país “reconhecido como força construtiva de moderação e equilíbrio a serviço da criação de um sistema internacional mais democrático e igualitário, mais equilibrado e pacífico” (Versal, 2017, página 31).

Tradições nacionais enraizadas como as da nossa política externa não se deixam cancelar por atos de vontade, elas conformam a nossa segunda pele, embora estejam em risco sob a condução do atual chanceler, que pretende conduzi-la com o espírito de cruzada do que entende, por questões metafísicas, ser uma luta do bem contra o mal. Não se pode afastar a possibilidade de que nuestra América, este extremo Ocidente, nas palavras do cientista político francês Alain Rouquié, seja arrastada, à falta da presença de paz e de uma política de negociação nos conflitos da região que o Brasil sempre representou, para o Oriente político por políticas desastradas que nos conduzam à guerra.

Nesse caso infeliz, a ressurgência da guerra fria dos anos 1950, já em curso, encontraria seu novo ponto quente na América Latina, como se faz indicar na forte contraposição entre Estados Unidos, Rússia e China e seus aliados sobre a questão da Venezuela.

A entrada em cena de países europeus, como Espanha, Alemanha, Reino Unido, França e Portugal, ao apresentarem um ultimato ao governo de Maduro para que convoque novas eleições presidenciais no prazo de oito dias, sob pena de reconhecerem o governo do seu opositor Juan Guaidó, dramatiza ainda mais o conflito venezuelano, que assim escala definitivamente da dimensão regional para a mundial. Ignorado esse ultimato, uma guerra civil com participação de forças externas pode escapar de cálculos de gabinete para se tornar possível.

Uma vez que ainda estamos no terreno das especulações, digamos que Nicolás Maduro queira emular — e tenha estofo pessoal para tanto — o destino trágico de Salvador Allende, e, se for o caso, defender seu governo de armas na mão, vindo a ser eliminado fisicamente. Sua remoção do governo, distante de uma operação de precisão cirúrgica, pode precipitar uma guerra civil com evidente potencial para se expandir ao longo das suas fronteiras nacionais, entre as quais a brasileira.

Essa possibilidade terrificante, que não é de laboratório, ainda pode ser afastada com o pronto retorno da política externa brasileira ao seu leito historicamente comprovado pela experiência acumulada dos seus estadistas. Se as palavras ainda valem, o fato de a advertência de que devemos ser fiéis às nossas tradições de não intervenção na política dos países vizinhos ter vindo do vice-presidente da República, o general Hamilton Mourão, e não dos próceres da nossa política externa, acende um ponto de luz a ser estimulado.

Quando vista comparativamente no cenário do subcontinente, a formação do nosso Estado e da sua política é a mais robusta confirmação do gênio político dos próceres que estabeleceram seus fundamentos. O caudilhismo, tão presente na política dos nossos vizinhos, não encontrou aqui lugar propício e, sobretudo, realizamos a obra-prima da unidade territorial, ao contrário da balcanização dos países hispano-americanos. Soubemos ainda preservar as instituições políticas comprometidas com os ideais civilizatórios
declarados pela nossa primeira Constituição, sob inspiração do estadista José Bonifácio.

Com essas credenciais fomos reconhecidos como capazes de mediação nos conflitos regionais, com ênfase nas negociações políticas em favor de soluções pacíficas. A presença
afirmativa do Brasil, garante de equilíbrio no subcontinente, não deve e não pode se comprometer por políticas de ocasião que transfiram sua soberania a potências externas a nós, sejam quais forem, em suas disputas geopolíticas e econômicas. Para ficar com palavras da moda, o Brasil acima de tudo.

“O texto constitucional está em risco”. Para onde a balança do novo governo vai pender? (IHU On-Line, jan. 2019)

“O caminho pelo qual nós enveredamos ainda é muito misterioso e não se sabe para onde a balança vai pender”, diz o sociólogo Luiz Werneck Vianna à IHU On-Line ao comentar os primeiros movimentos do governo de Jair Bolsonaro. O discurso de posse do presidente, avalia, “foi ameaçador” e indica a intenção de fazer a “roda girar para trás” na questão dos costumes e das mulheres, mas “em outros temas ele tem a intenção de que a roda gire de uma maneira diversa da que estava girando, e essa maneira é a maneira neoliberal”. O modelo econômico que orienta o governo, pontua, “não é bom nem mau”, mas é preciso “ver o cenário social e político dele. Para fazer tudo isso, quem tem que ser removido? Quem tem que perder? Esse não é um jogo somente de ganhadores. Há ganhadores e perdedores, e os perdedores, por ora, estão do lado de baixo e devem perder muito mais do que já perderam”, pondera.

Entre os passos a serem observados no novo governo, Werneck Vianna chama atenção para qual será a participação e as posições a serem defendidas pelos militares no governo. “Existe um personagem no governo que não está claro como está se comportando ou como irá se comportar, que são os militares, especialmente os do Exército”, menciona. Até onde se sabe, diz, “a corporação continua unida em torno de alguns propósitos gerais, como desenvolvimento, uma ideia de grandeza nacional ainda subsiste, e isso tudo parece indicar uma certa indisposição com essa nova política externa que se preconiza, com a nova economia neoliberal que se preconiza”.

Nos primeiros meses de governo, Werneck Vianna aposta que as políticas econômicas do governo encontrarão “apoio” entre os militares, mas “algumas partes serão mais sensíveis, especialmente no tema da privatização de algumas estatais. Quanto ao tema da abertura da soberania de alguns territórios, acho que essa é uma tese que não passa entre os militares, mas, enfim, a ver”. Mas o que “vai se ver” com certeza no novo governo é a reforma da Previdência. A questão é saber se “esse modelo vigente de captação entre as gerações vai permanecer ou vai ser substituído por um sistema de capitalização”.

O sociólogo frisa também que, “por mais que se diga que não, o texto constitucional está em risco” e “o programa de Bolsonaro incide de forma negativa diretamente sobre vários pontos da Constituição”. Ele explica: “O mais recente deles é o trabalho, porque o novo governo pretende dissolver a Justiça do Trabalho, que está prevista constitucionalmente. Então, um embate dessa questão com o judiciário parece ser inevitável se essa ideia prosperar”.

Luiz Werneck Vianna é professor-pesquisador na Pontifícia Universidade Católica - PUC-Rio. Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo - USP, é autor de, entre outras obras, A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1997); A judicialização da política e das relações sociais no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1999); e Democracia e os três poderes no Brasil (Belo Horizonte: UFMG, 2002). Sobre seu pensamento, leia a obra Uma sociologia indignada. Diálogos com Luiz Werneck Vianna, organizada por Rubem Barboza Filho e Fernando Perlatto (Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2012). Destacamos também seu novo livro intitulado Diálogos gramscianos sobre o Brasil atual (FAP e Verbena Editora, 2018), que é composto de uma coletânea de entrevistas concedidas que analisam a conjuntura brasileira nos últimos anos, entre elas, algumas concedidas e publicadas na página do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

Confira a entrevista, feita por Patrícia Facchin

Qual sua avaliação do discurso de posse do presidente Jair Bolsonaro e da primeira semana do novo governo?

O discurso de posse foi ameaçador. Por mais que se diga que não, o texto constitucional está em risco. Existe um personagem no governo que não está claro como está se comportando ou como irá se comportar, que são os militares, especialmente os do Exército. Havia, até bem pouco tempo atrás, a convicção de que eles estavam comprometidos com a defesa da Carta de 88, inclusive isso era claro em declarações públicas do general Villas Bôas. Mas parece que isso não é tão claro, porque o programa de Bolsonaro incide de forma negativa diretamente sobre vários pontos da Constituição. O mais recente deles é o trabalho, porque o novo governo pretende dissolver aJustiça do Trabalho, que está prevista constitucionalmente. Então, um embate dessa questão com o judiciário parece ser inevitável se essa ideia prosperar.

Um fenômeno local e global

A minha ideia geral sobre esse tema não é apenas local. Trata-se de um processo de alcance muito mais geral, que envolve a Itália, a Hungria, a Polônia, os EUA principalmente, e agora o Brasil, com a importância que tem na América Latina. Há um diagnóstico, por parte da direita emergente, de que se tudo permanecesse como antes, com a ONU, com o tema do meio ambiente, o tema da paz, o mundo do capitalismo iria conhecer dissabores importantes no tempo em que vivemos e no tempo em que ainda viveríamos. Vejo essa movimentação da direita como uma concertação internacional no sentido de devolver ao capital e ao capitalismo liberdade de movimentos, fazendo com que ele remova todos os obstáculos que estão antepostos a ele. Isto ocorreu na Inglaterra com o Brexit, que ainda é um processo inconcluso, mas, de qualquer modo, as reações reacionárias, que se opõem às mudanças que estavam ocorrendo e ainda estão, foram demonstradas nas próprias eleições na Itália, na Hungria, e o preço foi contestado por um processo plebiscitário, isto é, dentro dos canais democráticos. Então, a democracia apresentou e vem apresentando caminhos novos, como a emergência da direita no mundo através da manipulação eleitoral e através da exploração dos perdedores por aqueles setores sociais afetados pela globalização.

Esse mundo todo vem percorrendo um caminho que desconhece, que passa por cima ou que passa ao largo das questões do mundo urbano industrial. Os trabalhadores da indústria e os personagens do século XX, sindicatos, partidos de esquerda, partidos em geral, sofreram um processo de esvaziamento muito grande. Hoje o mundo transcorre mais na área dos serviços e das finanças. A política se tornou necessária para liberar o andamento dessa economia nova, financeirizada, para que ela remova os obstáculos da sua reprodução. A roda da história está girando. Quais são os grandes alvos desse movimento? A ONU, a paz.

Programa do governo

O programa desse governo que aí está é mais um programa de limpeza de terreno dos obstáculos existentes a uma reprodução mais flexível do capitalismo. Está aí a questão indígena e a liberação de terras indígenas para a mineração e o agronegócio.

A grande propriedade agrária está desempenhando um papel central na formação do governo, muito importante na formação do parlamento. Fazer a roda girar para trás é possível, mas é muito difícil. Daí que o mundo de Trump não seja um mundo de céu de brigadeiro, inclusive internamente, mas eles estão se esforçando bastante nessa direção e existe uma consciência nova, uma ação nova, novos protagonistas, que devolvem liberdade de movimento ao capitalismo.

A questão feminina não depende da movimentação política, de movimentos feministas e partidários — isso ajuda —, mas é sobretudo o movimento das coisas. O mundo capitalista atual foi obrigado a atrair as mulheres ao mercado de trabalho e, com isso, afetou a família nuclear, o patriarcalismo, inclusive no Oriente esse processo está chegando. Não é possível fazer com que esse movimento da emancipação feminina retroceda. No Brasil, o que se observa como reação àemergência das mulheres no mundo é essa epidemia de feminicídio que vem ocorrendo entre nós. É claro que estou mostrando e acentuando um aspecto microscópico disso, mas isso tem por trás mudanças societais imensas e revolucionárias do ponto de vista antropológico. A família nuclear que o mundo tradicional conheceu não volta mais ao que era; isso foi subvertido por processos sociais inamovíveis. Esse é um tema de fundo, não é um tema lateral, e está presente no combate às chamadas ideologias de gênero, tão forte nos discursos de campanha presidencial de Bolsonaro, e na armação ideológica do discurso anacrônico e primitivo do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

Além do mais, o pentecostalismo cresceu no Brasil, mas o país continua católico, majoritariamente católico. Isso cria travas não na questão da mulher exatamente — não é a isso que estou me referindo. Estou me referindo à matriz que formou a identidade nacional brasileira, que não é uma matriz protestante, mas é uma matriz da catolicidade. Tem uma sofisticação dada por séculos e uma capacidade de resistência muito grande. Não creio que esses traços da identidade pela catolicidade no Brasil sejam facilmente radicáveis por essas novas ideologias de fundo pentecostal, como a ideologia da prosperidade e coisas do gênero. Não vejo como isso possa avançar a ponto de jogar a velha matriz que presidiu a formação da nossa identidade. Então, esse é outro ponto que tende a suavizar e amenizar essa ira da Reforma Protestante — não quero me referir ao protestantismo de modo pejorativo, mas a esse impulso de reforma que está nos pentecostais que querem que nos costumes, na sociabilidade, o mundo volte atrás, isso num momento em que Cuba, por exemplo, alivia o seu texto constitucional da repressão ao homossexualismo. Esse é um tema que também não volta atrás. De outra parte, o nível de independência, de liberdade com que o Brasil viveu as últimas décadas levou o país a ter novos personagens, novos temas, e não vai se fazer essa roda girar para trás. Então, esse é um lado do governo, digamos que o lado obscuro do governo.

O lado mais racional, digamos, admitindo de forma generosa a racionalidade disso, estava na necessidade de que o mundo da economia brasileira, especialmente das suas elites, vem ao seu encontro com a ideologia neoliberal. O neoliberalismo implica a remoção das conquistas sociais que foram acumuladas nas últimas décadas. O neoliberalismo precisa de uma movimentação livre de capitais, cujos custos sociais não importam. Os melhores dirão que, com a riqueza que o neoliberalismo trará, todos vão se beneficiar. Isso não se viu em parte alguma e é de uma improbabilidade quase absoluta. O que vai se ver é uma intensificação da exploração, do domínio. Sabe-se lá se vai encontrar resistências ou não.

Que problemas o senhor identifica na visão econômica do novo governo?

É o de que terão de remover os direitos que estão aí: legislação do trabalho, Justiça do Trabalho, abrir a terra para a exploração mineral e agropecuária. Apostar no mercado com a crença de que, a longo prazo, isso vai trazer benefícios a todos.

Seria melhor continuar com o capitalismo de Estado que prevaleceu até então?

Não. De jeito nenhum.

O que seria uma outra via?

Uma via liberal, e não neoliberal. A economia com o governo Bolsonaro vai apenas selecionar regiões privilegiadas para a sua intervenção. Esse é um ponto. Outro ponto são os militares.

Por que o senhor está com receio da participação dos militares no governo?

Eles sempre foram refratários à privatização e sempre tiveram um papel favorável à intervenção do Estado, às estatais, a Petrobras, a Eletrobras. Como eles irão se comportar diante disso ainda é um segredo, um mistério. Tem de se presumir que haverá alguma dificuldade ou algum ruído em algumas dimensões. É um governo com opções arriscadas, que se importa em produzir mudanças que se refletem em outros segmentos do próprio governo. Por exemplo, vamos franquear parte do nosso território a bases militares americanas, como preconizam tantos, como o ministro das Relações Exteriores? Os militares concordarão com isso? Acerca da questão de transferir a embaixada em Israel para Jerusalém, como ficaria isso para o setor agropecuário que depende tanto das exportações para o mundo árabe? Tudo isso não dá para antecipar.

Os militares de hoje têm uma visão diferente do nacionalismo se comparado aos militares do passado?

É uma coisa a ver. O mundo militar é um mundo muito complexo e tem uma geração mais jovem. Está saindo uma pesquisa produzida pelo meu departamento na PUC-Rio, coordenada por Eduardo Raposo e Maria Alice Rezende de Carvalho, a qual foi feita num convênio com segmentos da corporação militar e patrocinado pela Capes. Por essa pesquisa, os elementos de continuidade aparecem muito fortes, a corporação continua unida em torno de alguns propósitos gerais, como desenvolvimento, uma ideia de grandeza nacional ainda subsiste, e isso tudo parece indicar uma certa indisposição com essa nova política externa que se preconiza, com a nova economia neoliberal que se preconiza. O caminho pelo qual nós enveredamos ainda é muito misterioso e não se sabe para onde a balança vai pender. Ela não vai poder ficar sem indicar lados perdedores e vencedores por muito tempo, porque as questões são muito pesadas e importantes. Abrir o território nacional para uma presença militar estrangeira é uma questão que vai mexer profundamente com as Forças Armadas e a sociedade inteira. A questão da transferência da embaixada em Israel vai mexer com um segmento, mas um segmento muito importante, que é o do agronegócio, e por aí vai. Outros temas, como o dos costumes, mexem com a sociedade toda.

O carnaval vem aí e ele não vai se passar que nem missas campais pentecostais; vai ser o carnaval de sempre, da sensualidade desenfreada, da liberação de sempre, e talvez ele também se comporte de forma a caracterizar o que está se passando fora dele, fora do mundo do carnaval. Blocos, escolas de samba vão refletir, como sempre refletiram, sobre temas do cotidiano, e vai ser interessante de ver. Nesse sentido, também por aí, não vai se conseguir fazer a roda girar para trás.

O novo governo tem a intenção de fazer a roda girar para trás, ou tem a intenção de fazer a roda girar para frente, mas ainda assim irá fazer a roda girar para trás?

Em algumas questões, para trás, como na dos costumes, das mulheres, por exemplo. Em outros temas ele tem a intenção de que a roda gire de uma maneira diversa da que estava girando, e essa maneira é a maneira neoliberal. Não à toa o Chile de Pinochet é um paradigma do que está aí. Uma coisa que vai se ver é a reforma da Previdência. Esse modelo vigente de captação entre as gerações vai permanecer ou vai ser substituído por um sistema de capitalização?

O ministro Paulo Guedes disse em seu discurso de posse que o projeto econômico de sua equipe é sustentado em cima de três pilares: a reforma da Previdência, a privatização acelerada e a redução ou unificação de impostos. Como o senhor avalia esse conjunto de propostas?

O modelo em si não é bom nem mau. Tem que ver o cenário social e político dele. Para fazer tudo isso, quem tem que ser removido? Quem tem que perder? Esse não é um jogo somente de ganhadores. Há ganhadores e perdedores, e os perdedores, por ora, estão do lado de baixo e devem perder muito mais do que já perderam.

Os militares irão apoiar esse modelo ou tendem a divergir?

No começo, em linhas gerais, vai haver apoio. Algumas partes serão mais sensíveis, especialmente no tema da privatização de algumas estatais. Quanto ao tema da abertura da soberania de alguns territórios, acho que essa é uma tese que não passa entre os militares, mas, enfim, a ver. O mundo gira, os atores mudam, os cenários mudam. Aqui mesmo estamos vendo uma mudança muito grande de cenário.

Cosmopolitismo como ideia-força

Algumas ideias se tornaram ideias-força. Por exemplo, o cosmopolitismo se tornou uma ideia-força. Arrebatadora? Não, tanto é que as resistências estão aí. Essa globalização não tem mais como frear, tem que ver quem está ganhando com ela e quem está se sentindo ameaçado por ela. A situação da China é real: a China é uma potência emergente no mundo, que está disputando a hegemonia com os EUA. China e Rússia estão se aproximando agora. Se se aproximarem de verdade, veja a mudança no tabuleiro. O que está por trás da ameaça de Trump? A ameaça pela perda da hegemonia. É um processo mundial de luta pela hegemonia. O Brasil vai tomar parte nisso? Parece que vai tomar partido de um lado contra o outro. Isso interessa a quem pensa em um país de grandeza e afirmação? Acho que não. Haverá ruídos por aí. Enfim, fomos envolvidos por uma trama infernal que está se dando no plano mundial por hegemonia, onde somos dependentes da China e deveremos ser mais.

Nesse cenário, vamos tomar partido contra a China? Isso é uma coisa que não passaria pela cabeça de um estadista como Vargas, que procurava trabalhar com as oportunidades que apareciam, jogando com os conflitos mundiais de forma tal que aproveitasse o Brasil, como foi o caso da industrialização com o financiamento americano. Vamos nos deixar arrebatar por apenas um dos polos do conflito nessa luta terrível pela hegemonia, que pode terminar em guerra? A guerra comercial já está aí. EUA, Rússia e China não param de aprimorar seu armamento, suas formas de defesa e agressão: mísseis balísticos para cá, mísseis balísticos para lá. Essa situação nos traz de volta aos anos 30, que é um período terrível, que parecia que tínhamos deslocado, com esse papa, esse Vaticano, com o tema do meio ambiente, o tema da paz, o tema da cooperação, da solidariedade. Esses eram temas emergentes até ontem, que estão sendo deslocados por essa gramática de guerra que está ocorrendo no mundo. Tem uma bibliografia muito importante sobre o risco.

Sempre que se fala nela, lembro do alemão Ulrich Beck, que fez uma demonstração, um inventário de uma reflexão muito poderosa sobre a sociedade de risco, que é hoje a nossa. Não é que sejamos catastrofistas, mas sem reflexão, sem consciência, sem denúncia, o mundo da catástrofe se avizinha, progride, ganha terreno. A ecologia é um tema ineliminável do mundo contemporâneo e, não obstante isso, no Brasil e nos EUA de Trump, erradicaram essa questão como se fosse uma questão ideológica.

Então, há toda uma bibliografia em ciências sociais que vive agora a ameaça de ir para a lata do lixo. A sociologia do risco está sumindo do mapa. Reflexões das melhores consciências que o mundo desenvolveu nos últimos anos estão sendo jogadas na lata do lixo. Um país como a Inglaterra, civilizado, sofisticadíssimo, votou no Brexit por uma motivação rústica, primitiva. É ameaçador. Os EUA, com as suas tradições libertárias dos federalistas, têm na presidência da República um homem como o Trump. É ameaçador.

O que explica o apoio de parte da população desses países à emergência da direita?

Isso vem com a ideologia do populismo, com as perdas que setores da classe média e mesmo setores dos trabalhadores vêm sentindo com as mudanças estruturais que estão ocorrendo na economia e que jogam algumas profissões no lixo da história, com mudanças que não são inclusivas, como a industrialização foi. Quem chegava à cidade vindo do mundo rústico do campo, conseguia emprego nas fábricas. E agora? O mundo industrial encolheu e os requerimentos educacionais para entrar no mundo da informática são altos e deixam gerações de fora. Não adianta ter informação, boa formação em outras dimensões, se não tiver formação do mundo informacional. Eu, por exemplo, estaria condenado à fome e à miséria dada a minha má formação no mundo digital. O populismo de direita avança em cima desse ressentimento, com ameaças trazidas pelos grandes grupos migratórios contemporâneos.

Temos que pensar no mundo a partir da globalização e não com esse populismo nacionalistaque só leva à intensificação dos conflitos e, no limite, à guerra. Só que a guerra agora pode ser final.

O retorno ao nacionalismo é uma reação às consequências da globalização?

Este é o conflito da cena contemporânea: o local e o universal. Isso demanda estadista, intervenções sofisticadas, e não intervenções rústicas, como muros, como fechamento autárquico dos países. A Hungria não tem força de trabalho e fecha as portas à imigração. É todo o continente: a África Subsaariana e outros territórios africanos estão mudando em busca de oportunidades de vida e mudando de continente, marchando para Washington. Isso é algo sem paralelo. As pessoas levam seus filhos, inclusive de colo, nessa epopeia que é atravessar o continente para pedir acolhimento, o qual eles sabem que não terão. Reclamam por abertura do mundo, por uma ordem mais aberta, reivindicam o cosmopolitismo. Aí a presença do papa é uma presença beatífica, porque ele representa esses ideais de cooperação, de paz, embora sem força.

Enfim, esse inventário de conquistas está sob ameaça, inclusive no Brasil. Penso que o mundo da reflexão, da consciência, o mundo dos trabalhadores tem que exercer um sistema de defesa contra esses avanços ameaçadores que criamos da Segunda Guerra para cá. Por onde isso vai, não me pergunte, porque não sei. Só sei que vai haver muito conflito, porque são muitos interesses contrariados.

Qual sua expectativa para o novo governo?

A minha expectativa é a de que será um cenário de competição, de muito conflito. E espero que vivamos isso de uma forma civilizada, sobretudo se conseguirmos garantir a Constituição que nos rege que, a essa altura, mais do que nunca, é o melhor instrumento de defesa da civilização brasileira

As ondas grandes e a oposição (6 jan.)

Não será a primeira vez, mas a terceira, que nos deixamos enredar na trama sinistra do que vem por aí. E, pior, sempre por nossos erros, pela desconsideração do País real, conservador a tal ponto que permitiu que sua quasímoda estrutura fundiária, herdada do período colonial, não só encontrasse sobrevivência, mas se convertesse, com a emergência do agronegócio, num dos esteios do processo de modernização burguesa ainda em curso, caso clássico de passagem para o capitalismo pela via prussiana de desenvolvimento capitalista e seus efeitos antidemocráticos, tema bem estudado por grandes autores como Barrington Moore e Charles Tilly, entre tantos outros. Estão aí a sua robusta bancada parlamentar e sua presença em postos estratégicos do novo governo.

As anteriores, de 1937 a 1945 e de 1964 a 1985, foram longevas, e em ambas a preservação da estrutura agrária cumpriu papel relevante: sob o regime de Vargas excluiu-se o trabalhador do campo da legislação social, reservada apenas aos trabalhadores urbanos; e no regime militar, por meio de uma generosa abertura de créditos para proprietários selecionados politicamente e de uma política de colonização que lhes concedessem acesso a mercados, convertendo-os em capitalistas modernos, história bem descrita e analisada em tese de doutoramento por Rafael Assunção de Abreu em A boa sociedade: história sobre o processo de colonização no norte de Mato Grosso durante a ditadura militar (Iuperj, 2015).

O legislador constituinte teve consciência da necessidade de democratizar a estrutura fundiária do País, mas seus esforços foram barrados por intensa mobilização das nossas elites junkers, que se arregimentaram, até mesmo em grupos armados, na União Democrática Ruralista (UDR), obstando uma via de reforma. Uma de suas principais lideranças de então, Ronaldo Caiado, antes senador, foi agora eleito governador de Goiás. A democratização do País teria de conviver com esse pesado lastro que lhe vinha do período colonial, e se os grandes proprietários de terra encontravam oportunidades de converter seus antigos papéis tradicionais em modernos no emergente capitalismo brasileiro, a massa dos trabalhadores da terra seria condenada à situação de retirante sem eira nem beira, mão de obra barata para as indústrias e os serviços dos centros urbanos, dependentes em sua sobrevivência dos ciclos expansivos da economia.

A herança da escravidão e a da estrutura a agrária colonial estão, como notório, na raiz da abissal desigualdade social brasileira, diagnosticada desde o Império por grandes intelectuais liberais, como Tavares Bastos, André Rebouças e Joaquim Nabuco. Na esteira dos movimentos sociais que se mobilizaram em torno do processo constituinte, o tema da igualdade encontrou vocalização e sustentação nos partidos de perfil social-democrata que então se organizaram, o PSDB e o PT, mais neste do que naquele, embora ainda sem o vigor necessário para enfrentar o tamanho do desafio que tinham pela frente.

Ademais, o PT, o mais vocacionado para interpelar os movimentos sociais, se na prática seguia o roteiro de uma política social-democrata, era refratário a assumir identidade desse tipo. Aos poucos, como se viu, sua política eleitoral se desalinhou do centro político e de suas inspirações originais de autonomia da vida associativa diante do Estado, reeditando em boa parte as políticas prevalecentes na era Vargas. Cooptadas pelos aparelhos estatais, as organizações sociais dos seres subalternos perderam vigor e capacidade de mobilização e, ao menos por ora, encontram-se sem capacidade de reação.

A agenda do novo governo, de confessada profissão de fé no neoliberalismo de modelo chileno de Pinochet, encaminha-se sem rebuços para a remoção do que há de inspiração em nossas instituições, principalmente na Carta de 88, da social-democracia europeia, tendo pela frente um deserto de vida sindical e associativa, e um Supremo Tribunal Federal esvaziado do carisma que a sociedade sempre reconheceu nele pelos conflitos fratricidas que corroem sua legitimidade, pela ação de alguns dos seus integrantes. A profecia de que para silenciá-lo basta um cabo e um soldado, antes anedótica, já conta com possibilidades de se autocumprir.

Diante desse cenário, embora a composição dos quadros governamentais revele opções erráticas que prometem ser fontes de problemas futuros, além das óbvias dificuldades para um governo que pretende realizar reformas dependentes de uma sólida base congressual com que não conta, o horizonte que agora se entrevê é de céu de brigadeiro para o início do seu mandato. No mais, as forças sociais e políticas que já se opõem a ele, esfaceladas e desarvoradas como se encontram, não devem, ao menos de imediato, significar obstáculos efetivos para a realização dos seus propósitos, e com todas as devidas vênias, não será um centro radical, esse espécime que não se vê desde a Revolução Francesa sob o consulado de Napoleão Bonaparte, que fará as vezes de uma oposição robusta.

Uma imagem trazida dos atletas do surf que praticam sua modalidade em ondas grandes talvez seja inspiradora para a oposição. Ondas grandes em geral vêm em série, um desequilíbrio do atleta que nelas se aventura pode ser-lhe fatal, em caldos sucessivos que não lhe permitam a respiração, mantendo-o preso ao remoinho das águas que o impeçam de voltar à superfície. Em cuidado com esses riscos, seus praticantes fazem exercícios de apneia, com que se preparam para o pior em suas evoluções.

Isso que aí está, aqui e alhures, é, sem dúvida, uma Praia de Nazaré com suas medonhas ondas grandes. Não se vai enfrentá-las sem treinamento adequado e sem lideranças de tirocínio comprovado, senão o caldo é certo, como o do AI-5, de infausta memória, há 50 anos. As lideranças se farão no caminho. E o caminho, adverte o poeta, se faz ao andar.





Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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