LIBERE SUA CRIATIVIDADE

Escrito pelo Professor Eduardo Romero,
do Departamento de Engenharia de Produção
da UFMG, a partir do livro Psicology
Today, de Robert Epstein -
Editora Sussex Publish - NY, USA.

VOCÊ É CRIATIVO? Se é como a maioria das pessoas, provavelmente acha que não. Durante toda a vida, nos dizem que a criatividade é coisa rara e misteriosa, que somente os artistas são criativos, que é uma função do "cérebro direito", seja lá o que for isso. Mas depois de quase 20 anos de pesquisas em laboratório, cheguei à conclusão de que a criatividade está ao alcance de qualquer um - sem exceção. Nos últimos anos, tenho aplicado com sucesso algumas lições do laboratório a situações da vida real, com crianças e professores, pais e executivos de companhias.

Para liberar o seu potencial criativo, domine essas estratégias. Pode ser que seja só isso que está entre você e algumas das pessoas mais criativas da história.

Captação. As novas idéias são fugidias, como coelhos correndo pela sua consciência . Se você não as agarrar depressa, em geral desaparecem para sempre. As pessoas que levam a sério a exploração de sua capacidade criadora aprenderam meios de prestar atenção nas idéias e conservá-las . Essas pessoas têm a habilidade da "captação".

Salvador Dali, o grande surrealista, captava idéias do estado fértil do meio sono chamado hipnagógico. Ele ficava sentado numa poltrona com uma chave na mão, por cima de um prato colocado no chão. Quando adormecia, o ruído da chave batendo no prato o despertava. Imediatamente, ele desenhava as imagens bizarras que estava vendo.

Todos nós temos incríveis experiências perceptivas momentos antes de adormecermos profundamente. Dali apenas inventou um meio de agarrar algumas delas. Os pintores trazem sempre consigo seus blocos de desenho. Os inventores e escritores levam blocos de notas ou computadores portáteis, ou tomam notas em guardanapos e papéis de balas.

Eis um exercício simples que criei para convencer as pessoas de seu potencial de criatividade. Eu chamo a isso "capturando um devaneio".

Feche os olhos. Deixe que sua mente vagueie livremente por uns minutos. Relaxe e permita que seus pensamentos fluam sem dirigi-los. Você saiu do quarto? Deixou a terra? Vagou até as estrelas? Se tiver bastante tempo e nenhuma distração, todo mundo vê, ouve ou experimenta coisas impossíveis de experimentar na realidade.

Já dirigi esse exercício por toda parte, inclusive no Japão, onde, talvez por motivos culturais, poucas pessoas se dizem criativas. Mas depois de alguns minutos, as platéias japonesas relatam sonhos tão ricos quanto os de Salvador Dali. Um homem disse: "Voei ao topo do prédio ao lado e vi este prédio se desmoronando enquanto comia um sanduíche." (A IBM ocupava o prédio ao lado. Estaria ele em busca de um emprego melhor?)

Captar é mais fácil em certos ambientes e em certas ocasiões. Para algumas pessoas, há três condições para a criatividade que são especialmente férteis: cama, banho e ônibus - especialmente se você tiver sempre material à mão para escrever nesses lugares. Outros precisam sentar-se junto de um poço ou uma cabana solitária no mato.

Desafio. Um meio de acelerar o fluxo de novas idéias é colocar-se em situações difíceis, em que você provavelmente fracassará. O espantoso é que o fracasso pode ser um manancial de criatividade - se for bem manejado! Tipicamente, quando não conseguimos fazer alguma coisa, nos sentimos frustrados e - o mais importante para a criatividade - começamos a experimentar outros procedimentos. Muitas idéias competem vigorosamente, intensificando muito o processo criativo.

Digamos que você comece a girar uma maçaneta que sempre girou com facilidade. Ela não se mexe. Você torce com mais força. Aí você a puxa para cima ou empurra para baixo. Talvez a sacuda. Depois, pode ser que você empurre a porta com o ombro ou lhe dê um pontapé. Poderá até gritar por auxílio. Esses esforços - colhidos de procedimentos estabelecidos - provavelmente levarão a novas soluções. Em resumo, a criatividade não é mística: é uma extensão do que você já sabe.

Enormes problemas - desafios abertos, que não têm solução - também podem ser usados para acelerar a produção da criatividade. Nós queremos realmente nos colocar em situações frustrantes? Um enfático "sim"! Se você estiver se sentindo bloqueado, está na companhia dos maiores poetas, compositores e inventores de todos os tempos. É bem provável que esteja à beira de uma nova idéia.

Com filhos, amigos ou colegas, procure passar 15 minutos por semana resolvendo o seguinte:

Torne-se um milionário, em uma semana. Arranje um jeito de nunca mais ter de fazer uma tarefa doméstica. Elimine o envelhecimento, um atraso de vida. Você não encontrará soluções, claro, mas esses desafios insolúveis vão estimular uma porção de idéias novas e interessantes.

Ampliação. Quanto mais conhecimentos você tiver e quanto mais diversos forem esses conhecimentos, maior o seu potencial para uma produção criativa. Nos anos 40, o engenheiro suíço George de Mestral estava voltando de um bosque quando ficou aborrecido ao ver uns carrapichos agarrados a suas calças. Sob um microscópio, viu pequenos "ganchos" nos carrapichos, que tinham agarrado alças de fibras da fazenda. Usando suas experiências em muitos setores, De Mestral começou a tentar criar "ganchos e alças" artificiais. O produto final - velcro - combinou anos de treinamento como engenheiro à sua curiosidade sobre a botânica.

Inúmeros progressos foram possibilitados porque seus criadores tinham experiência em vários setores. Se você quiser intensificar a sua própria criatividade, aprenda sobre assuntos de que não sabe coisa alguma e nem quer saber. Se você normalmente só lê romances policiais, pegue um livro de História. Se em geral chega em casa e liga a TV para assistir a uma partida de futebol, em vez disso mude para um programa educativo. No carro, procure as estações de rádio que você não conheça.

Ambiente. Por fim, você pode intensificar a sua criatividade cercando-se de diversos estímulos e - o que é ainda mais importante - mudando esses estímulos regularmente.

Coloque objetos fora do comum na sua mesa de manhã - um boné, um alicate e uma vela, por exemplo - ou apenas rearrume algumas coisas em seu quarto. Estímulos variados e que estão sempre mudando ajudam a promover idéias sempre dinâmicas e diversas.

A maneira de você reagir aos outros é também uma forma de "ambiente" criativo. Os debates livres em reuniões, por exemplo, funcionam até certo ponto porque expõem os participantes da equipe a estímulos múltiplos. Mas também inibem a criatividade porque expõem os indivíduos à desaprovação.

Nas minhas pesquisas, descobri que um grupo "móvel" - que se mova de sessões particulares a reuniões em grupo - gera tipicamente o dobro de idéias do que o grupo dos debates simples. Por quê? Porque a criatividade é sempre um processo individual. Com novos poderes criativos, todos seremos capazes de resolver melhor os pequenos problemas que nos afligem no dia-a-dia. A resultante explosão de idéias e realizações poderia fazer as do Renascimento parecerem um passeio numa bicicleta parada.

Colaboração: CAMPE - Consultoria a Médias e
Pequenas Empresas da Faculdade de Economia
e Administração da UFJF.
E-mail: campe@fea.ufjf.br

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