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    Juliana Machado Juliana Machado 29/05/2014

    Sofrimento, esporte e diversão? Aqui não

    animaisNo dia 26 de Maio deste ano, a cidade de Juiz de Fora nos deixou orgulhosa mais uma vez. Acredito que a grande maioria dos internautas que acompanham esta coluna também compartilha deste sentimento. Foi aprovado na cidade o Projeto de Lei que proíbe a realização de rodeios em nossa cidade. Um grande passo dado em conjunto por protetores, vereadores e população em geral. Um ato comemorado por muitos dos juiz-foranos e também por moradores de outras regiões do nosso país que entendem a impossibilidade de reconhecer como legítima a prática desta atividade.

    Mas por que ser contra os rodeios? Afinal isso não é apenas um esporte? Não faz parte da cultura? Não é apenas uma diversão? Que mal há nisso?

    Na perspectiva humana, comumente autocentrada, egoísta e superficial, pode até ser interessante e prazeroso observar um animal aos pulos com outro humano tentando domá-lo, em uma arena lotada de pessoas, com muita luz e som alto. Pode ser que entendamos isso como esporte, como divertido, como cultural. Todavia, um olhar que valorize de fato todos os envolvidos neste contexto facilmente irá censurar a prática. Isto porque hoje sabemos que os animais em sua grande maioria são seres sencientes, ou seja, são biologicamente capazes de sentir dor, medo e estresse de maneira bastante similar à nós humanos. Recentemente foi comprovado inclusive que, para além da senciência é fato que esta grande maioria também é capaz de ter consciência, ou seja, a capacidade de organizar mentalmente e processar as informações relacionadas com as sensações vivenciadas. Portanto, se entendermos que estes seres são mais parecidos conosco do que podíamos supor e se fizermos o exercício mínimo da prática de empatia, vamos compreender que não deve ser nada divertido participar de uma atividade em que você sente medo, dor e estresse, é exposto a estímulos aversivos e não pode expressar seus comportamentos naturais.

    Os maus-tratos relacionados com os rodeios incluem situações diretas comprovadas por laudos de faculdades renomadas de medicina veterinária e institutos de criminalística do nosso país. Os aparatos utilizados causam feridas e dor especialmente na região genital. Você acredita mesmo que os animais estão pulando de alegria ou cócegas? Além disto, se formos pensar no comportamento natural e no hábito de vida dos animais utilizados (touros, cavalos), veremos que estes evitam situações de intranquilidade, barulho e multidões; em geral reagem lentamente aos estímulos externos. Em um ambiente natural comportam-se de modo a procurar locais silenciosos e previsíveis, onde possam pastar com segurança, se abrigar quando desejarem e fugir de estímulos que lhes causem medo. Com certeza não é isto que encontramos em uma arena de rodeios. Há luz, som, cheiros, número elevado de pessoas e uma condição em que o animal é obrigado a ficar neste espaço. Sinais fisiológicos dos laudos mencionados – como pupilas dilatadas e taquicardia – comprovam o estresse gerado por estas situações.

    Assim, dado que se trata de uma prática que causa sofrimento a um indivíduo que possui valor moral (mesmo que pouco reconhecido), o fim dos rodeios é uma vitória. Por meio da voz daqueles que se preocupam com o seu bem-estar, cavalos e touros informam que não têm o menor interesse em continuar participando de tais atividades simplesmente para entreter humanos entediados que buscam formas macabras de diversão.


    Juliana Machado é Bióloga, mestre em Ciências Biológicas - Comportamento e Biologia Animal - UFJF/MG. Doutoranda em Bioética, ética aplicada e saúde coletiva - UFRJ/UFF/UERJ e Fiocruz.

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