Paula Medeiros Paula Medeiros 26/3/2011


O Retrato de Dorian Gray passa longe de sua sensualidade original e aposta em elementos da cultura pop

O conteúdo de O Retrato de Dorian Gray, romance de Oscar Wilde do final do século 19, é uma grande metáfora sobre a miséria e a degradação do espírito humano. Abordado sob uma ótica fantástica, todas as marcas de uma vida sem limites são estampadas no quadro representativo de Dorian, sendo ele mesmo poupado das cicatrizes de seus próprios atos. Tendo essa premissa, toda uma discussão existencialista, no que diz respeito a questões morais, é levantada, trazendo à tona a putrefação de uma sociedade antiquada e conservadora.

A nova adaptação de Dorian Gray deixa de lado todo o sentido figurativo do romance e dá lugar a uma ilustração muito literal das situações, irrelevando, completamente, o charme e o mistério da obra original. Os efeitos de animação que pairam sobre o quadro são capazes de eliminar todo e qualquer pavor que ele deveria causar. As expressões de horror de quem o vislumbra são capazes de transcrever muito melhor seu conteúdo do que os efeitos especiais de mau gosto e os sussurros exagerados desnecessariamente usados.

Assim como o terror é eliminado por sustos baratos, a sensualidade é banalizada em O Retrato de Dorian Gray. Talvez pela escolha do ator, Ben Barnes, que foi incapaz de incorporar um jovem de tamanha complexidade e espírito desafiador como Dorian. Em diversos momentos, a inexpressividade de Barnes faz o personagem agonizar diante dos questionamentos intensos de sua própria condição. Faltaram malícia e carisma ao jovem que troca sua alma pela juventude eterna.

Aliás, o próprio Colin Firth aparece numa atuação estranha. No início, durante os anos de ouro de Lorde Wotton, o ator conseguiu imprimir impulsividade e dubiedade ao mentor amoral de Dorian. Mas ao longo do filme, sua interpretação perde força, chegando ao final quase em branco.

A falta de poesia nos diálogos e, principalmente, a ausência das descrições incomparáveis existentes no original, adulteraram completamente a intensidade do romance. A leviandade de algumas escolhas minimizou a principal questão do livro, que é o questionamento dos limites da alma humana. As indagações foram deixadas em segundo plano e, claramente, podemos deduzir que essa adaptação nada mais é do que uma tentativa de aproximação com o público adolescente, uma vez que é imensamente perceptível a utilização de elementos de filmes juvenis pop, como Crepúsculo e Harry Potter. Talvez a escolha de Barnes, que atuou em dois filmes da franquia Crônicas de Nárnia, tenha seguido esse critério.

Dentre tantas adaptações de O Retrato de Dorian Gray para o cinema, essa surge como uma das mais fracas. Primeiro, por deixar de lado o conteúdo da história. Segundo, por tentar impor à obra, um dos maiores clássicos da literatura mundial, uma impressão que não lhe pertence. No saldo total, sobram agora duas alternativas: nos conformar com a impossibilidade de transpor para o cinema a profundidade inerente ao romance ou, então, esperar um novo remake.

O Retrato de Dorian Gray / Dorian Gray

Reino Unido, 2009 - 112 minutos
Suspense
Direção: Oliver Parker
Roteiro: Toby Finlay, Oscar Wilde (romance)
Elenco: Ben Barnes, Ben Chaplin, Colin Firth, Fiona Shaw, Rebecca Hall


Paula Medeiros
é estudante de Comunicação Social com participação em Projetos Cinematográficos.

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