Paulo César Paulo César 26/11/2012

Ben Affleck atua na frente e atrás das câmeras e surpreende com o excelente Argo

Quando o jovem Ben Affleck venceu o Oscar de melhor roteiro ao lado de seu amigo Matt Damon, com o ótimo Gênio Indomável (1997), todos achavam que seria o início de uma ascendente carreira. Entretanto, as mazelas hollywoodianas trataram de colocá-lo em um plano de galã de segunda categoria, que vivia de comédias românticas e casos amorosos malfadados e amados pelos paparazzi. Mas, com o surpreendente Atração Perigosa (2010), um outro Affleck entrou em ação, agora atrás das câmeras. Com o excelente Argo, prova que é ali o seu lugar e, desde já, é dado como certo entre os grandes favoritos ao Oscar em 2013.

A história do filme de Affleck ficou por quase duas décadas em sigilo, mas o ex-presidente americano Bill Clinton tirou o sigilo da operação Argo e deu a quem realmente foi o herói a honraria merecida. A trama conta como o agente Tony Mendez (Bem Affleck), juntamente com o famoso maquiador John Chambers (John Goodman, ótimo) e o produtor já em fim de carreira Lester Siegel (Alan Arkin, perfeito), montaram uma farsa e entraram em processo de produção de um filme de ficção científica que nunca sairia do papel para salvar seis americanos no hostil território iraniano do período da revolução de 1979.

O roteiro do estreante em longas-metragens, Chris Terrio, se inspirou em um artigo publicado na revista Wired, em 2007, e traz uma visão imparcial do contexto histórico do conflito que serve de complemento dramático da missão dramática de Mendez. A forma como conta a história, recheada de situações que fazem qualquer um suar de tão tenso, é peculiar, pois equilibra o que seria um drama intrínseco com tiradas com humor negro afiadíssimo do núcleo Hollywood de Goodman e Arkin. O contexto político não é posto em xeque, pois um pequeno histórico é introduzido no início do longa, praticamente só para dizer: "é tudo culpa nossa". Desta forma, deixaria de ser tendencioso.

O trabalho de Affleck é notável. Tem uma visão contemporânea no modo como dirige, usando muito do recurso de montagem forte e rítmica, assim como David Fincher. Percebe-se na forma como construiu um paralelo entre a farsa com que estavam montando e o terror crescente que se instaurava no Irã, ou seja, o mundo caindo e a indústria cinematográfica vendendo ilusões. Da trilha sonora descontraída à arte bem produzida, que consegue destacar com segurança tempo e espaço, ainda consegue deixar o público com a adrenalina a mil, mesmo sabendo do desfecho da epopeia. Realmente se dá muito melhor na condução que na função de protagonista.

O sucesso do filme deve-se também ao entrosamento do elenco. Affleck consegue dar dignidade a Mendez, mas o trio formado por Arkin, Goodman e Bryan Cranston é o que impulsiona a obra. Cranston, que ganhou notoriedade pelo excelente trabalho na TV, agora prova que também pode ganhar papéis relevantes no cinema. Seu Jack O'Donnel tem de agir mais com o coração do que com a razão, e o ator deixa isso transparecer. Goodman empresta seu dote cômico para caracterizar um mito da maquiagem cinematográfica John Chambers, imortalizado pelo seu trabalho na franquia Planeta dos Macacos, brilhante. Mas não tem como negar que o filme é de Alan Arkin. O veterano ator mais uma vez precisa de pouco tempo para roubar a cena e colocar seu nome na lista de premiações do circuito.

Argo é um dos grandes filmes do ano e elevará o nome de Ben Affleck ao hall dos diretores talentosos do cinema contemporâneo. Faz, a partir de uma história real e surpreendente, um filme à altura. Um trabalho consistente, que não tem medo de tocar em uma ferida aberta até hoje, porém isento de qualquer patriotismo forçado e barato. Agora sim pode-se dizer que está em ascensão.



Paulo César da Silva é estudante de Jornalismo e autodidata em Cinema.
Escreveu e dirigiu um curta-metragem em 2010, Nicotina 2mg.

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