Paulo César Paulo César 10/12/2012

Lições de vida e amor na divertida aventura Moonrise Kingdom

Quando assistimos a um filme de Wes Anderson, percebemos como o cinema nos permite ter uma visão de um determinado assunto, das mais diversas e inusitadas maneiras possíveis. Em Moonrise Kingdom, acompanhamos, de forma sutil, real e ao mesmo tempo fantástica, uma discussão incisiva sobre o amor verdadeiro sob a ótica e atitudes de dois adolescentes, que, no entanto, ataca os adultos com as questões complexas do mundo, como autoconfiança e relacionamentos.

Quando o pequeno Sam (Jared Gilman) decide escapar do acampamento de verão comandado pelo chefe Ward (Edward Norton), para se encontrar com Suzy (Kara Hayward) e juntos tentarem fugir da vida que acreditam não fazer parte. O menino perdeu os pais ainda criança e não consegue se adaptar à família adotiva, e a mocinha vive às turras com seus pais, os advogados Sr. e Sra Bishop (Bill Murray e Frances McDormand), por causa de seu comportamento intempestivo. Entretanto, todos formam uma verdadeira esquadra para encontrá-los e, quando isso ocorre, vão perceber que este acontecimento tem muito mais a ensinar do que estarrecer.

O diretor Wes Anderson se juntou a Roman Coppola e construiu mais uma de suas belas visões peculiares sobre comportamento, porém, sempre com suas características pungentes exalando. Famílias nada convencionais (ou convencionais demais para o padrão americano), personagens singulares e situações tragicômicas a todo o momento. Tudo isso em prol de lançar ao público alguns questionamentos que cabem a cada um, no seu íntimo, responder. A relação entre o casal adolescente, que descobre junto uma forma de suprir a necessidade de suporte afetivo por meio do amor inocente que desenvolvem, é uma das mais fortes cenas do cinema ultimamente, pois transfere o léxico reflexivo para as atitudes dos adultos.

Anderson coloca os dois protagonistas mirins em situações íntimas, que escandalizariam se não tivesse usado com muita delicadeza sua mão. Não há nada de promíscuo ou apelativo, é apenas a descoberta do amor. A forma como delineia o perfil dos personagens no início do filme, sem que nenhuma palavra seja dita é brilhante, pois o espectador entende a situação geral logo de cara, sem perda de conexão diegética. Desde a solidão e frustração de um amor não correspondido do Capitão Sharp (Bruce Willis), ao déficit de autoestima do chefe Ward, tudo é posto em discussão a partir da aventura amorosa dos púberes, e o mais importante, o público não se torna uma espécie de júri, já que o diretor não força a barra para os personagens se autoexaminem abertamente. As mudanças são sutis.

Há de se reverenciar o trabalho do elenco. Assim como em seu ótimo Os Excêntricos, Tennenbauns depende muito da inspiração dos atores, pois é uma linha tênue entre o drama e a comédia, que só ele entre outros raros consegue construir, e não pode ser ultrapassado. Os protagonistas Jared Gilman e Kara Hayward tiveram os papéis mais difíceis, pois seus personagens eram os dois com mais coragem de tomar atitudes, e nas cenas de cunho intimista não podiam deixar que o constrangimento excedesse o normal da situação, e, apesar da inexperiência, tiveram êxito. Dentre os figurões, destaque para a caracterização de Edward Norton como o inseguro chefe Ward, em um papel diferente do que costuma interpretar provou ser um ator deperdiçado em filmes medianos.

A intenção de Wes Anderson, aparentemente, pode ser de fazer um filme sobre o aprendizado juvenil, entretanto, aos poucos vamos percebendo que seu olhar voltou-se para a população adulta, aquela que perdeu a noção de como é viver feliz e fazer o que tem vontade. De tão real que beira a surrealidade, o diretor consegue nos mostrar que ser feliz vale muito mais do que ser convencional ao olhos dos outros, e o tal Moonrise Kingdom que Sam e Suzy construíram com seus sonhos deveria ser o lugar que jamais deveria ser deixado de lado, sem ser substituído por preocupações corriqueiras. Uma verdadeira aula de como viver a vida.

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Paulo César da Silva é estudante de Jornalismo e autodidata em Cinema.
Escreveu e dirigiu um curta-metragem em 2010, Nicotina 2mg.

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