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    Daniela Aragão Daniela Aragão 23/09/2013

    Entrevista com o músico Salim Lamha

    Daniela Aragão: Como começou a música em sua vida?

    Salim Lamha: Começou dentro de casa, meu pai sempre trabalhou com música, não exclusivamente, mas era um músico muito respeitado. Nossa família é de Bicas e fomos educados nesse meio. Minha mãe era de Juiz de Fora e quando se casou com ele foi morar lá. Ela era cantora, cantou em algumas orquestras em Juiz de Fora. Meu pai manteve várias orquestras em Bicas como a Copacabana e Sambamba. Tocou com grandes músicos como Noratim do Trombone, que era lá de Bicas e foi parar na orquestra da Globo. Ele era amigo do Waldir Calmon, pianista, e tem um detalhe interessante, pois o Waldir Calmon tinha uma orquestra com um quinteto que ele levava em Bicas, só que era uma coisa comercial . Ele pegava um ônibus, lotava de instrumentos, ligava para o pessoal de Juiz de Fora, de Leopoldina, de Rio Novo, o Ponto 5 do Sylvio Gomes lá de Muriaé, o pessoal da família Itaboray de São João Nepomuceno e eles se reuniam em Bicas, pois Bicas era estratégico, era perto de todos. Eu fico imaginando como era isso, ia de cidade em cidade e chegava de noite todo mundo queria dar uma canja, e ele com o quinteto dele, não vinha com a orquestra, mas era uma coisa comercial. Meu pai comprou muitos instrumentos do Calmon e com isso tiveram uma grande amizade, não só pelo lado comercial, mas musical. Então a gente convivia com isso desde muito cedo, meu pai tinha uma expressão assim "Nós vamos fazer uma chacrinha", ou seja, ele reunia os amigos toda noite na nossa casa e éramos muito crianças ainda. Me lembro que ele sempre foi muito humilde, muito simples, o quarto onde dormia eu e meu irmão era a sala da casa, tinha uma cama de um lado e uma cama de outro e quando a gente dormia via aquele monte de bunda encostando na gente, todo mundo meio apertado naquele pequeno espaço fumando, bebendo e bateria, vibrafone, baixo acústico, sopros. A gente acordava no outro dia e estava tudo ali, esses instrumentos eram os nossos brinquedos. Então tudo começou por aí, dentro de casa, fomos tomando gosto pela coisa. Quando já estávamos com uns 11, 12 anos, na época de ginásio, fomos mostrando ainda mais interesse, mas meu pai nunca incentivou a estudar música. Minha irmã Suzana hoje é uma grande musicista, eu e meu irmão Ricardo começamos mais cedo, ele logo se enveredou pelo lado da luteria, ele é um grande luthier, já esteve na Alemanha tocando, fabricando instrumentos. Logo aos 12, 13 anos, eu ouvindo Santanna, Yes, Bossa Nova, samba, meu pai falou "-Isso não vai dar certo". Ele queria que a gente estudasse, pela própria experiência dele de vida que não foi muito favorável, ele queria que a gente se formasse e não incentivava música. Continuamos estudando, fazendo o que ele queria, mas os amigos dele eram músicos, nós fazendo amigos com a música, foi tornado inevitável mesmo. Com 14 anos eu já estava tocando em conjunto de baile em Bicas.

    Daniela Aragão: Diante de tantos instrumentos ao seu redor dentro do próprio ambiente doméstico, qual foi o que te chamou mais atenção?

    Salim Lamha: Acredite se quiser, na época o bandolim. Cheguei a comprar um Bandolim e tocava. Quando descobri a guitarra foi fatal. E logo em seguida eu conheci a viola de dez cordas, que toco até hoje e tenho composições muito legais nesse instrumento. Eu chamo de viola de ponteio, não sei qual o nome correto que usa-se para a viola solada, minhas músicas na viola são instrumentais . Então desde essa época é a guitarra e a viola. Aprendi cavaquinho e com isso já naquela salada musical ouvindo Santana, Bossa Nova, rock progressivo, o jazz foi uma consequência inevitável e hoje eu trabalho dentro desse universo. O jazz, a música regional, a bossa nova, o samba, que adoro e tive uma experiência muito forte com o cavaquinho. Passei por várias escolas de samba em Bicas, na época lá havia uma efervescência musical muito grande com o Rosa de Ouro. Até que chegou um tempo em que os compositores e músicos tornaram-se muito amigos e acabou a coisa da competição. Acho que se perdeu um pouquinho aquele tempero que tinha da rivalidade de você estar concorrendo, existia o lance da premiação. Não tinha aquela coisa de um ir no terreno do outro e estar invadindo, você era respeitado.

    Daniela Aragão: Você traz um longo percurso por Juiz de Fora e regiões próximas tocando com vários músicos. Muitas cantoras trabalharam com você, além de músicos de vertentes variadas. Você é um músico que não se segmentou em um único gênero.

    Salim Lamha: Com 15 anos fui convidado para tocar num grupo no Rio de Janeiro chamado "The Pops", que eram "Os Populares". Tinha o César, que era considerado um dos maiores guitarristas na época. Era como o The Fevers, César me deu muita dica de guitarra e viola, ele era um grande violeiro. Em seguida morei em Campo Grande e passei um ano e meio tocando com eles, ficávamos enclausurados numa fazenda, música o dia inteiro. Quando eu não estava ensaiando, estava tocando e isso me deu muita base. Logo em seguida um grupo aqui de Juiz de Fora me chamou, o "Som Holiday" que era um grupo de baile, época do Soma. Cai nas graças do grupo e foi super legal, pois eles gostaram do meu estilo de tocar, eu já deslanchava com o instrumento, não tinha muita dificuldade para tirar as músicas, os solos. Nesse mesmo grupo tinha uma formação de metais, em que a parte dos arranjos era feita pelo maestro Apolinário, que foi do décimo BI. Ele tinha na época, parece-me que ainda tem na atualidade a Cassino Royale, muito famosa. Ele falava "oh roqueiro quero te levar para a orquestra" e ressaltava que os meus acordes eram jazzísticos, a mão boa e tal. Então ele me levou e comecei a tocar na orquestra, que para mim significou um grande salto. A orquestra te educa, pois você toca com muito mais pessoas do que quando você faz um grupo de baile tocando com meia dúzia de pessoas. Minha primeira educação na leitura jazzística começou ali. Fiz o link do samba, jazz e bossa nova, que é tudo de bom em termos de tempero musical.

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    Daniela Aragão: Fale um pouco sobre sua passagem pelo Vitrô, que foi um bar que agregou grandes talentos principalmente da música instrumental em Juiz de Fora.

    Salim Lamha: Eu comecei tocando as minhas músicas, fazendo som instrumental foi no Vitrô. Ali foi um espaço em que conheci muitos músicos, o Duty, que era o dono na época ao lado da Mirinha Alvarenga, foi me abrindo contatos ali também. De repente tive que me mudar de Bicas para cá e aos 18 anos entrei na rede ferroviária. Eu trabalhava na rede e me mantinha como músico. Daí me casei e minha esposa Andréia me influenciou muito para que nos mudássemos definitivamente para Juiz de Fora. E naquela época as coisas eram cercadas de certo medo, estávamos numa ditadura militar e não se podia se expressar muito porque o pau comia solto mesmo. Eu tinha as minhas reservas no falar, no cantar, porque embora eu tivesse as minhas ideologias em relação ao que acontecia de melhor na época: Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil. Esse pessoal todo que fez essa revolução maravilhosa na música, eu era um pouco assustado, um pouco medroso. Cheguei a querer falar lá por volta dos meu dezesseis, dezessete anos, ah eu também sei, também quero falar isso e tal, mas fui chamado para depor na delegacia umas três, quatro vezes e aquilo me assustou um pouco. Eu não queria me envolver naquilo, pois as minhas coisas me levaram a outras. O casamento cedo, trabalho cedo, filhos, então eu tinha que cuidar disso.

    Daniela Aragão: Mesmo assim a música não parou nunca?

    Salim Lamha: Nunca. Sempre muito forte, presente em tudo. Até mesmo dentro da ferrovia, nas festas que aconteciam por lá eu era chamado para tocar. O leque foi se abrindo, vários barzinhos de Juiz de Fora, vários amigos, várias residências, vários clubes. E com isso não posso dizer que tenho somente amigos, pois costumamos ser mal interpretados. Principalmente isso se dá pelo fato do processo de dislexia que eu passo. As pessoas confundem, às vezes acham que sou antipático, às vezes tento explicar que nunca aprendi matemática, nunca aprendi física e as pessoas ficam me olhando. Não entendem como eu posso tocar à minha maneira se música é matemática.

    Daniela Aragão: Você é um músico essencialmente intuitivo, auditivo.

    Salim Lamha: Exatamente. A única influência que meu pai exerceu foi quando percebeu que estávamos tocando coisas que exigiam do músico de fato, aí ele passou a orientar. Mesmo assim sem falar em teoria musical. Falava assim "Salim, Ricardo, Suzana dá esse acorde, essa nota". Ele dava uma pincelada pelas beiradas. Essa minha vinda para Juiz de Fora foi crucial, pois foi a partir daí que tudo aconteceu. Hoje até os contatos que tenho fora do país, amigos músicos suecos, alemães, franceses, na Europa de um modo geral, Portugal, Espanha me conheceram aqui em Juiz de Fora.

    Daniela Aragão: Essa sua versatilidade que de certa maneira advém desse legado que você traz desde a infância te traz essa amplitude musical, você não se fechou num único gênero e nem tanto perdeu sua identidade expressiva no tocar. Você faz percursos pelo jazz, samba de raiz, música popular brasileira.

    Salim Lamha: Hoje eu trabalho com o "Instrumental nota jazz", que é uma formação que tenho desde o princípio dos anos oitenta com meu pai e meu irmão Ricardo. Esse grupo seguiu com várias formações de amigos músicos, ou músicos amigos. Muitos músicos passaram pelo Instrumental nota jazz que vira e mexe dá uma reciclada. A formação atual é com Mário Mendes no trompete, Adalberto Silva no baixo e faço guitarra e violão. Tocamos música brasileira, Standards, músicas autorais, trilhas de cinema. Não temos um rótulo, o nosso rótulo é o instrumental. E tudo dentro dessa salada que eu especifiquei pra você, acho que música não tem fim, a gente sai desse plano e ela continua.

    Daniela Aragão: E o seu trabalho no bar Sabor das Arábias, que você manteve durante sete anos?

    Salim Lamha: Vale lembrar que mesmo antes do Sabor das Arábias trabalhei com várias cantoras como Raquel Silvestre, Tânia Bicalho, Cristiane Visentin, Mirinha Alvarenga, Alzira Bianco, Gisa Stenner e Ana Terra. Depois realizei vários trabalhos com a orquestra de jazz da Pró Música, e por lá nós também trabalhamos juntos. O bar veio para sedimentar essas experiências musicais. Os músicos iam tocar lá no meu bar, desde as cantoras, cantores, guitarristas, baixistas, pianistas, bateristas, todos queriam tocar lá.

    Daniela Aragão: Recordo-me que você criou um domingo dedicado ao samba de raiz.

    Salim Lamha: A Sandra Portela tocou muito tempo, o Mamão, o Carioca, Flavinho da Juventude, isso tudo o bar sedimentou para mim. Eu não planejei, isso veio acontecendo paulatinamente.

    Daniela Aragão: E ali foram vivenciados momentos únicos que não se repetem, parcerias inusitadas. Você fez algum registro em áudio ou vídeo?

    Salim Lamha: Algumas coisas uns amigos suecos que ficaram muito apaixonados pela música brasileira editaram em vídeo. Aqui em Juiz de Fora, gravaram alguns CDs reunindo Berval Moraes, acompanhando Sandra Portela com Dudu Costa cantando, com Fabiano Castro de piano. Eles faziam uma miscelânea de músicos, com o pessoal do choro. Tenho isso gravado. Por exemplo, a Collim Ramar que é uma grande trombonista de jazz, quando vem ao Brasil procura é Ivan Lins, Djavan. Ela chegava aqui no Brasil, e quando acabava o show com a sua banda dizia que queria ir ao Bar do Salim, ela chegava lá e queria tocar, não queria cachê e gostava de conhecer os músicos com quem eu tocava. Tinha todo um carinho.

    Daniela Aragão: Você participou de vários discos, mas ainda não fez um disco seu propriamente, autoral digamos. Tem vontade de fazer?

    Salim Lamha: Tenho vontade e tenho material. Estou participando de alguns discos como o da Silvia Andrade que está fazendo um cd, o "Três, dois único" que me pediu para entrar com a viola, são situações completamente diferentes. Um me pede para tocar guitarra, outro violão, outro cavaquinho. Um universo muito rico. Já participei de alguns discos do Joãozinho da Percussão, que é um grande amigo. Me lembro quando ele bateu na porta da minha casa e me perguntou se eu era o Salim, daí começamos a conversar. Ouvimos na ocasião o registro numa fita de um show que fiz com a Rosana Brito, Big Charles, Cesinha e Gil Lima. A partir dali começamos a fazer shows. Essa amizade toda, essas pessoas, isso tudo veio brotando como uma árvore que agregou.

    Daniela Aragão: É uma satisfação conversar com um música da sua categoria, obrigada e muito sucesso para você.


    Daniela Aragão é Doutora em Literatura Brasileira pela Puc-Rio e cantora. Desenvolve pesquisas sobre cantores e compositores da música popular brasileira, com artigos publicados em jornais como Suplemento Minas de Belo Horizonte e AcheiUSA. Gravou, em 2005, o CD Daniela Aragão face A Sueli Costa face A Cacaso.

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