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    Daniela Aragão Daniela Aragão 29/10/2013

    Entrevista com o grupo Triunvirato

    trioA entrevista deste mês será com o Triunvirato. Eles acabaram de lançar um CD muito bonito. Conheço o Sylvio faz bastante tempo, trabalhamos juntos na Orquestra de Jazz da Pró-Música, o Pedro e o Claudimar já ouvi tocando.

    Daniela Aragão: Gostaria de saber como se deu a formação desse grupo?

    Pedro Crivelari: Como o Sylvio é maestro e regente da Orquestra Pró-Música, eu baterista e o Claudimar baixista, sentimos sempre a necessidade de fazer a coisa ao inverso. Fazemos com um trio coisas que tocamos também com a orquestra. Sempre tivemos essa necessidade de fazer com o formato de trio. É sempre boa a dinâmica da orquestra, mas há a necessidade do maestro também de tocar o piano com os músicos. Resolvemos elaborar essa formação de trio, até porque o maestro tem várias composições maravilhosas e seria uma oportunidade de fazermos um registro delas. Começar um trabalho com esse registro. Assim que montamos o trio, tivemos uma produtora que é a Loló. Imediatamente ela aprovou um CD nosso na Lei Murilo Mendes com as músicas do maestro e mais três composições de amigos que são o Paschoal Meirelles, André Neiva e Aécio Flávio.

    Daniela Aragão: Então o grupo se deu a partir das composições do Sylvio?

    Sylvio Gomes: A par da necessidade de tocar juntos, pois eu praticamente só regia. É uma necessidade nossa também de atender a demanda de lugares menores, pois a orquestra demanda um deslocamento maior. Essa forma é mais intimista, mais coloquial e é mais uma maneira de divulgar a música instrumental.

    Daniela Aragão: Estou vendo aqui no encarte algumas palavras de Aécio Flávio, que é um músico que traz uma longa história. O trabalho de vocês é de muita qualidade e que logicamente sai do âmbito só de Juiz de Fora.

    Sylvio Gomes: Já temos um convite para tocar no exterior, a data ainda não está confirmada, mas o local já esta determinado. Estamos esperando viabilizar o Triunvirato instrumental de Juiz de Fora para o mundo.

    Daniela Aragão: O Claudimar toca violão, guitarra e contrabaixo. Você alterna esses instrumentos?

    Claudimar Maia: Não, no trio só toco contrabaixo. É um Power trio, então já vem o piano, que conduz a harmonia, a bateria, e o baixo que faz as nuances. O baixo acaba virando às vezes uma guitarra, pois acabo colocando acordes, faço muitos improvisos. A gente se preocupa em tocar o nosso próprio som, mas sempre lembrando dos ritmos brasileiros, não estamos tocando jazz, estamos tocando baião, samba, uma salsa misturada com um pouco de mambo e tem hora que parece que tem uma valsinha. Como somos três músicos de uma orquestra de jazz, uma big band, sempre no meio da nossa música rola uma fusion, uma fusão, e vira um jazz no meio. Tem uma música do Paschoal Meirelles em que ele usa sintetizador com voz e o Pedrinho faz uma maneira bem jazzística, saindo de um compasso ternário e entrando num quaternário, uma coisa muito doida e fica lindo.

    Daniela Aragão: Não é um jazz diríamos ortodoxo, pois há uma preocupação com essa brasilidade, com a manutenção desses ritmos nossos, brasileiros.

    Pedro Crivelari: A gente tem o hábito no Brasil de chamar qualquer música instrumental de jazz, o nosso é música instrumental, ponto. Achamos uma música boa, então vamos tocar na nossa forma instrumental. Seja popular, erudito, música. Não temos comprometimento com estilo, nosso comprometimento é com a música de um modo geral.

    Daniela Aragão: O Sylvio que traz essa longa jornada musical, como vê hoje o espaço, ou melhor, o mercado para a música instrumental?

    Sylvio Gomes: Melhorou. Claro que não é o ideal. Acho que enquanto a nossa cultura, a nossa arte e principalmente a nossa música depender de ser representada e referendada por jogador de futebol no exterior, estamos perdidos. Outro dia eu estava vendo na televisão passar uma procissão pelas ruas da Espanha, vinha Jesus no andor e o pessoal cantando aquela música "ai se eu te pego". O cara que carregava o Jesus sambando e rebolando e quase fazendo Jesus cair do alto. Estamos perdidos.

    Daniela Aragão: Um carnaval. O que me surpreende em Juiz de Fora é a qualidade dos músicos.

    Sylvio Gomes: Juiz de Fora é uma cidade muito musical e essa foi uma das razões que me fez vir para cá. Logo nos primeiros dias que estive aqui para dar um curso de harmonia funcional e vi um pintor de parede assoviar Laura do Gershwin, pensei, essa é a cidade que quero morar.

    Daniela Aragão: De fato impressiona o potencial musical da cidade, o que se lamenta no entanto é a falta de espaço.

    triunriato

    Sylvio Gomes: Não acho que seja propriamente uma questão de espaço, espaços tem, o que não tem é um tratamento adequado para esses espaços e uma preocupação em dar ao artista local o mesmo tratamento que oferecem ao artista de fora. Aos artistas de fora tudo, aos locais as batatas.

    Pedro Crivellari: Em geral os espaços que são reservados para se fazer música não podem ser os determinantes do aumento ou redução da cultura musical, eles não podem moldar o tipo de gênero. Se ficarmos dependendo dos locais para que a demanda se adeque, não teremos mais música. Os artistas não se deixam moldar pelas casas. O Herbie Hancock disse numa entrevista que o jazz hoje não sumiu, mas que voltou para o gueto de onde veio. Acho que no Brasil ele não voltou para o gueto, já não é mais um público específico, tem todas as idades, pessoas que gostam de rock e de música instrumental. Acho que não nos moldamos pelo local, acho que falta muito em Juiz de Fora é o profissionalismo artístico. Não basta só tocar bem, você tem que estar muito bem localizado, exigir recursos adequados para que você não passe raiva em situações desagradáveis. Você tem que ter o peito de dizer não vou tocar, vou embora, pois o que foi combinado não foi obedecido. São certas coisas que formam o músico em Juiz de Fora como profissional, todo mundo que resolveu fazer dessa forma está ganhando espaços que não foram abertos para nós. Tocamos no museu, em praça pública, estamos divulgando o CD. Eu acho que a quantidade de casas não resolve, mas o profissionalismo do músico que tenha uma proposta conceitual.

    Daniela Aragão: Cada um de vocês segue com trabalhos individuais também.

    Claudimar Maia: Tenho o trabalho na orquestra de jazz, um outro com uma banda de baile e um trabalho com você também. Dou aulas, fiz um curso de harmonia com o Sylvio Gomes, que me permitiu amadurecer meu processo e passar para outros alunos. Nós somos três professores e três amigos acima de tudo. Dependemos um do outro como um time, temos um maestro, um baterista excelente que articula muito bem nossos trabalhos, e eu que toco dois instrumentos como baixo e guitarra. Aqui no grupo aprendi a não limitar a identidade musical, quando toco baixo sou baixista, quando toco guitarra sou guitarrista. Nós três somos pessoas que além do profissionalismo em comum, somos amigos. Às vezes um está com problema o outro ajuda.

    Pedro Crivellari: Sou da orquestra de jazz, do grupo Triunvirato e trabalho com algumas bandas que possuem uma proposta mais autoral no repertório.

    Sylvio Gomes: Estou trabalhando com a orquestra, um trabalho que já faço há 21 anos. Faremos um show comemorativo com a participação do Cristovão Bastos.

    Daniela Aragão: Desejo a vocês muito sucesso com esse belo trabalho.


    Daniela Aragão é Doutora em Literatura Brasileira pela Puc-Rio e cantora. Desenvolve pesquisas sobre cantores e compositores da música popular brasileira, com artigos publicados em jornais como Suplemento Minas de Belo Horizonte e AcheiUSA. Gravou, em 2005, o CD Daniela Aragão face A Sueli Costa face A Cacaso.

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