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    Nome do Colunista Daniela Aragão 5/04/2016

    Entrevista com o escritor e professor Fernando Fiorese

    fotoDaniela Aragão: Como você é um homem da palavra e da imagem, gostaria de saber como apareceram essas duas instâncias em sua vida?

    Fernando Fiorese: Eu acho que a palavra surge para mim na base da oralidade. Eu vim de Pirapitinga, uma cidade pequena, onde as pessoas obviamente não tinham a sua disposição um repertório de livros. Não existia televisão. É uma cidade que hoje possui menos de dez mil habitantes. Minha lembrança mais remota de um meio de comunicação é o rádio, mas ele estava entronizado na sala e se ouvia em momentos muito específicos.

    Tinha a coisa de falar na presença do outro, o contato sempre físico, de tal forma que depois que tive acesso ao telefone, já morando em Juiz de Fora, fui tomado por uma sensação muito exasperante. Falar não vendo a pessoa era muito estranho e demorei um tempo para me habituar com o telefone. Eu ficava suando, era algo desesperador não ver a pessoa.

    Trago em mim a herança dessa palavra falada, do contato físico, a palavra que é quase uma matéria que pode ser tocada. Ouvi as histórias de meus pais, meus avós, meus tios. Eu ficava sentado na beira da calçada conversando e ouvindo os adultos sentados nas cadeiras.

    Daniela Aragão: E a imagem?

    Fernando Fiorese: Em relação à imagem, a lembrança mais remota que tenho é do cinema. Numa comunidade em que o horizonte mental era tão reduzido, o cinema permitia ampliar, visualizar outras paisagens, novos universos. Durante muito tempo, guardei um trecho de uma música associada a uma imagem, era uma mulher que ficava correndo com um cesto com muitas flores do campo. Tinha uma câmera que passeava por aquilo e uma música (cantarola) "na mesa apareceu la violetera". Eu pensava que isto era uma loucura minha, um dia conversando com Adilson Zapa, vim a saber que era de fato a cena de um filme. Então a imagem mais remota que trago comigo se refere ao final de um filme, a câmera com aquele grande plano e uma mulher caminhando, que era a personagem principal.

    Daniela Aragão: Sua memória da cena agregou também a música.

    Fernando Fiorese: A música também me causou impacto, pois o rádio era a única possibilidade de ouvir música, já que em minha casa não existia vitrola. A música vinha da banda, dos bailes e do cinema. O cinema oferecia uma gama de informações muito maior do que minha pequena cidade. Recordo- me de ir ao cinema com frequência, pois além da igreja, ele era a única diversão que existia na cidade. Eu era um garoto e vivi lá até os meus oito, para nove anos.

    Tinha a coisa física, da materialidade do mundo vivida no brincar no quintal, no rio e uma mínima forma de evasão, que me foi possibilitada pelo cinema. O cinema foi meu mais pleno mecanismo de evasão, já que nunca fui muito dado a transcendência religiosa. O cinema era uma espécie de janela para o mundo, o qual eu não me importava se era imaginário ou não.

    Daniela Aragão: E como veio a palavra escrita?

    Fernando Fiorese: Meu pai era professor e acho que minha casa consistia numa das poucas que tinha livros. Os livros não eram propriamente de literatura. Meu pai deu aula de geografia, OSPB, Moral e Cívica. Era interessante, pois tinham aqueles velhos livros de história Borges Hermida, que eram livros de história narrativa. Eles narravam os acontecimentos, diferentemente dos livros de hoje, que mais fazem uma análise histórica do que narram os acontecimentos. Eu lia aquilo achando que era literatura, por isso penso que devo uma parte significativa de minha construção do romance ao mergulho no discurso desses historiadores do século dezenove.

    Daniela Aragão: O real e o ficcional eram uma coisa só.

    Fernando Fiorese: Eu não tinha a menor condição de fazer a distinção entre história e literatura. Havia uma enorme coleção de obras da história universal, cerca de vinte volumes em capa dura e preta. A história universal começava com Adão e Eva. No caso do Brasil, tinha início com o descobrimento e chegava até Dom Pedro I, pois o autor morreu e não atualizaram. Estes livros contavam os grandes feitos dos grandes homens da história, isso era a meu ver uma narrativa, que da mesma forma que o cinema, consistia numa abertura para outras possibilidades de existência, outras paisagens.

    Daniela Aragão: Você se recorda do primeiro livro de literatura que leu?

    Fernando Fiorese: Ganhei de meu pai meu primeiro livro de literatura, a primeira edição de O homem nu, de Fernando Sabino. Quando vim para Juiz de Fora, passei a ler muita crônica e meu pai me deu este livro exatamente por ser um romance escrito por um cronista. Aos quatorze anos, tive meu primeiro emprego e com o salário inaugural, fui à livraria com dois amigos para comprar o Reunião, de Drummond. Tenho este livro até hoje e considero a obra matriz de minha biblioteca.

    Daniela Aragão: Seu envolvimento com a escrita foi acontecendo a partir das primeiras leituras?

    Fernando Fiorese: Não fui uma pessoa que começou a escrever muito cedo. A primeira relação que trago propriamente com a escrita se deu por uma situação de salvação. Eu estudava aqui em Juiz de Fora no colégio João XXIII, e como era uma escola que testava naquele momento práticas didáticas e pedagógicas, tínhamos um ensino de português muito diferenciado do habitual na época. Na quinta e sexta série, só trabalhávamos com exercícios estruturais, com o que hoje se chama Português Instrumental.

    Daniela Aragão: O Colégio de Aplicação João XXIII sempre primou pelo desenvolvimento das aptidões de leitura e escrita em detrimento da fixação automatizada da gramática.

    Fernando Fiorese: Com certeza. Tínhamos dois grandes livros chamados de Criatividade, um deles era grande e de capa vinho, foi o primeiro livro no Brasil que trazia crônicas, histórias em quadrinhos, matérias de jornal. Era muito inovador. Ele possuía uma série de espaços, em que tínhamos que fazer redações a partir dos motivos sugeridos. Eu era péssimo e alguns colegas eram tão geniais, que criavam histórias mirabolantes. Havia um outro livro preto também chamado Criatividade, somente com exercícios estruturais. Por exemplo eu sou bonito, espaço tu és ________.

    Daniela Aragão: Daí já se introduzia a gramática neste segundo livro. Estudei no João XXIII também e passei pelo mesmo processo de experimentação com a linguagem, que fugia radicalmente do ensino tradicional da gramática.

    Fernando Fiorese: Incorporávamos a gramática sem nunca ouvir falar sobre o que era sujeito, predicado. Somente na sétima e oitava série é que a gramática aparecia nomeada, de maneira mais explícita. Na metade da sexta série, minha família se mudou para São João Nepomuceno e tive que sair do João XXIII. Na nova escola, os alunos tinham a gramática tradicional desde a quinta série e eu não sabia nada. Havia uma professora muito doce e competente e que foi com a minha cara, talvez porque meu pai desse aula no colégio (risos). Português nesta escola era computado da seguinte maneira, cinquenta por cento referente à parte gramatical e o restante à produção de texto.

    Daniela Aragão: Imagino que você tinha que garantir a maior parte dos pontos na produção de texto.

    Fernando Fiorese: Exatamente, eu tinha que garantir que minha nota de redação alcançasse sempre o máximo de pontos, para que eu ficasse salvo, pois eu era um fracasso nos conhecimentos gramaticais. Um dia a professora mandou que fizéssemos uma redação em torno do tema ansiedade, ou algo parecido. Eu nem sabia o que significava a palavra ansiedade, com quinze para dezesseis anos estava ligado em outras coisas. Peguei então o Manual de Versificação de Olavo Bilac e escrevi um soneto metrificado, rimado. A professora ficou encantada, publicou no jornal A voz de São João e consegui passar (risos). Isso para mim foi o máximo que havia feito na literatura. Só começo a escrever efetivamente no final dos anos setenta, comecinho dos anos oitenta.

    Daniela Aragão: Você fez parte do De lira e Abre Alas não é?

    Fernando Fiorese: Sim. Quando conheci as pessoas que estavam organizando uma mostra de poesia no ICHL, que era do DA do ICHL, achei que deveria colocar uns poemas lá. Eu estava muito influenciado pelos poetas, que naquele momento da poesia marginal, conhecia por encontrar os livros em sebo e tal. Eu era motivado sobretudo por uma literatura de ocasião. Era o lance de escrever porque estávamos sobre a ditadura, porque era preciso contribuir de alguma forma, dizer alguma coisa. Era quase uma obrigação geracional o comprometimento com a causa. De alguma maneira, todo mundo, para o bem ou para o mal, se envolvia com isso. Entre os anos oitenta e os anos noventa, escrevi estes poemas e poucos contos, que foram publicados no Abre Alas: Leia a Cartomante e Exercícios de vertigem e outros poemas.

    Daniela Aragão: Embora a década de oitenta seja considerada por muitos como "a década perdida", no âmbito da poesia abriu espaço para o florescimento de muitos poetas, que começaram imbuídos pelo furor da produção marginal, mas que transcenderam a questão episódica e estão aí até hoje criando com alto vigor como você, Yacir Anderson, Edimilson de Almeida, Geraldo Carneiro, Chacal...

    Fernando Fiorese: Acho que a década de oitenta foi para mim uma época de formação, de contato com as pessoas, de diálogo com os poetas e escritores da cidade e de outros lugares, que me ofereceram uma série de informações que eram necessárias naquele período. Somente nos anos noventa escrevo um livro, acho que ele já apresenta uma certa maturidade. Não sei se esta palavra maturidade posso utilizar, mas seria o momento em que encontrei uma forma de dizer adequada ao meu tempo.

    Daniela Aragão: Você é um pesquisador de cinema, já escreveu um livro sobre Buster Keaton. Enquanto escritor você também adentrou na escrita sobre cinema.

    Fernando Fiorese: Acho que boa parte das pessoas que possuem uma relação com o cinema mudo e a comédia em geral, sempre foram mais ligadas ao Charles Chaplin, que é talvez até um diretor icônico. Ele tem uma importância grande no que se refere à crítica ao capitalismo, um cinema que pode ser abordado por uma vertente mais ideológica.

    A obra de Buster Keaton me surpreendeu muito quando tomei contato, pois apresenta uma relação diferente com o universo do capitalismo. Chaplin, ao modo do operariado inglês de onde ele vinha, propõe uma espécie de destruição da máquina, portanto uma utopia meio impossível, não foi possível voltar a uma época pré-revolução industrial.

    Daniela Aragão: Em contraposição a Chaplin, Buster Keaton propôs a incorporação da máquina.

    Fernando Fiorese: Buster Keaton sugere uma outra relação, que se destaca pela afinidade anárquica com a máquina. Ao invés de destruir a máquina, eu pego esta máquina e por maior que ela seja, transformo-a numa aliada do homem para realizar os desejos do homem, e não os desejos do capital. Então Keaton tem um dado anarquista e demolidor que me interessou muito.

    Daniela Aragão: Para se basear na escrita de seu livro sobre Buster Keaton você recorreu a alguma bibliografia nacional?

    Fernando Fiorese: Acontece uma coisa estranha, meu pequeno livro sobre Buster Keaton é o único escrito sobre ele no Brasil. Buster Keaton é muito considerado, principalmente pela crítica mais contemporânea. Deleuze adora Buster Keaton e trabalha muito com ele. Depois de um tempo, você descobre que Buster Keaton e Chaplin eram como dois partidos. Tinham os defensores de Chaplin, que eram Drummond e Vinícius de Moraes. Entre os defensores de Buster Keaton, estava Murilo Mendes. Tanto que o único filme que mostra Murilo Mendes, ele está perto de um piano e há uma foto que exibe uma cena de um filme do Buster Keaton, The Navigator.

    Daniela Aragão: Existiu então uma certa rivalidade cinematográfica ao estilo Emilinha e Marlene.

    Fernando Fiorese: (risos) Becket era do partido de Buster Keaton, Garcia Lorca escreveu um poema dramático para ele. Isso gerava um debate imenso. Contudo, no Brasil, em termos de bibliografia, Chaplin ganhou de goleada de Keaton. Isso se deu talvez, devido ao fato de que a intelectualidade brasileira e a literatura estiveram no século XX muito empenhadas num projeto marcado ideologicamente por ideias próximas ao Chaplin. Ideias de inspiração marxista ou socialista.

    Daniela Aragão: Devido à importância, seu livro sobre Buster Keaton obteve boa distribuição?

    Fernando Fiorese: Foi um livro publicado de maneira muito restrita, apenas 300 exemplares decorrentes de um prêmio que ganhei e que garantia a publicação. Até já tentei reeditá-lo pela editora da UFJF, mas lá não se interessaram. Acho que é um livro que mereceria uma edição maior, talvez até pelo ineditismo. Possivelmente hoje eu teria que alterar algumas coisas, modificar o foco da bibliografia. Particularmente gosto bastante deste livro. No entanto, atualmente para mim o ensaio, principalmente o artigo acadêmico, estão se tornando cada vez mais distantes do meu eixo de interesse.

    Daniela Aragão: Infelizmente a publicação acadêmica se restringe muito aos leitores da própria academia.

    Fernando Fiorese: Acho que na realidade o tipo de divulgação que você consegue, seja nas revistas acadêmicas, seja nos livros específicos, é muito restrita. A universidade é muito pouco permeável a textos que não sejam muito rigorosos em termos acadêmicos. Textos que consomem muito tempo, para um resultado menor. Às vezes você escreve um tratado inteiro sobre a crônica e terá em torno de quinze leitores. Quando escreve um pequeno texto sobre a crônica na forma de crônica, chega a obter duzentos leitores. O texto menor é muitas vezes mais visível e palpável que um texto de grande porte.

    Daniela Aragão: Como você vê sua atuação na escrita de textos acadêmicos ao longo de sua carreira acadêmica?

    Fernando Fiorese: Não é nenhuma pretensão, mas acho que o que eu poderia ter realizado dentro do ambiente acadêmico já realizei. Se há alguma outra contribuição que eu possa dar, acho que será de menor relevância. Ajudei alguns alunos a se formarem, orientei algumas dissertações e teses, publicadas ou não, mas que apresentam alguma relevância sempre pelo transitório.

    Daniela Aragão: É comum verificarmos em nosso próprio texto acadêmico o quão rápido ele se tornou déjà vu.

    Fernando Fiorese: A minha dissertação de mestrado, que nunca publiquei, hoje está tão desatualizada que eu teria que reescrever tudo. Acho que um texto acadêmico perde rapidamente sua atualidade. A contribuição que eu poderia dar para o universo acadêmico dei, e acho que ela foi prejudicial para a minha literatura. Se eu tivesse tido a oportunidade de me dedicar exclusivamente à literatura, meu texto possivelmente seria melhor. Como sou muito obsessivo, acabei me dedicando profundamente a academia.

    Daniela Aragão: Como você vê hoje a universidade?

    Fernando Fiorese: A universidade hoje é um ambiente estéril, burocrático. Acho que as gerações atuais estão ainda mais preocupadas em cumprir currículo lattes. A pessoa vai publicar na revista em função da pontuação, ou seja, A1, B2, ou o que for considerado mais valoroso em termos de pontuação. Essas pessoas não estão erradas, elas estão jogando conforme as regras do jogo expostas. São muito mais espertas que eu fui.

    Daniela Aragão: Parece-me que as exigências se dão em acordo com o sistema tecnicista, pragmático, imediatista e neoliberal que vivemos.

    Fernando Fiorese: Há que se analisar no entanto, que as regras são impostas pelos coordenadores da graduação. Não são técnicos do MEC, que sentam no vaso sanitário da Capes e ficam imaginando. Essas regras foram feitas pelos próprios programas de pós-graduação, e se eles possuem um grau de esterilidade e de burocracia, isso se deve aos coordenadores. O problema é as pessoas acharem que isso é o suficiente, fazerem o dever de casa e comerem o feijão com arroz.

    Daniela Aragão: Nessa abundância de artigos algo te surpreende?

    Fernando Fiorese: Acho que as regras dão oportunidade de se publicar nulidades. Artigos que não acrescentam nada, isso acontece também em virtude de os editores das revistas encontrarem dificuldade. Se forem selecionar apenas os artigos que apresentam uma relevância, não escolherão quase nada. Não são artigos que irão ficar desatualizados em cinco anos, pois já nascem desatualizados. Dizem o lugar comum.

    Daniela Aragão: Tenho a sensação de que neste frenesi que implica a necessidade de cumprir as prerrogativas do currículo lattes, perde-se um pouco da qualidade substancial. O que poderia resistir como produção não imediatista e efêmera.

    Fernando Fiorese: As Universidades transformaram-se em espaços sem memória. O currículo lattes, por exemplo, descarta a sua história e considera apenas os últimos quatro anos. Fico imaginando o Antônio Cândido. É normal que um pesquisador ao longo dos anos vá se tornando não menos produtivo, porém mais seletivo. Quando você é jovem, publica a porcaria que lhe vem à cabeça, depois com um tempo é que você aprende a selecionar.

    Daniela Aragão: Aprende-se a transitar melhor no deserto da página em branco cortando mais palavras.

    Fernando Fiorese: Quantos livros João Cabral publicou em seus primeiros anos de vida e quantos no final? Ele foi se depurando, se tornando mais exigente. A própria idade faz com que o sujeito seja mais criterioso. Conforme as prerrogativas do lattes, de quatro em quatro anos tudo o que você fez passa a habitar um mundo nulo, e se você não produziu nada nestes quatro anos, está acabado para o mundo. Fico imaginando que em outras épocas nos colocariam no Pelourinho, cinquenta chibatadas porque não produziu nenhum artigo, setenta chibatadas porque você publicou artigo, mas em revista de Qualis baixo.

    Daniela Aragão: Há que se pensar também na insurgência dos modismos, os teóricos que passam a ser permanentemente citados em todos os trabalhos.

    Fernando Fiorese: Sempre fui resistente a esse tipo de coisa. Toda vez que um autor entrava em moda, eu me afastava dele. O problema é que se fala sempre da mesma maneira, partindo-se das mesmas referências. Nos anos sessenta, Darcy Ribeiro escreveu um texto em que ele criticava os professores universitários que aderiam a um pensamento europeu. Deviam ser os foucaultianos, os Barthesianos, os Derridianos. Se tornavam repetidores e diluidores desses caras no Brasil.

    Daniela Aragão: Como se dava a crítica de Darcy Ribeiro?

    Fernando Fiorese: A crítica de Darcy se encaminhava no seguinte sentido, em primeiro lugar existe uma estratégia de poder, pois como somos uma cultura periférica, esses autores estrangeiros comportam um discurso de autoridade. Se falo em meu nome posso ser contestado, mas se repito o que falou Foucault, Lacan, Deleuze, Derrida, Barthes, você tem que se ver com este centro, que é respeitável e respeitado. Isso no jogo de poder no interior das universidades é muito importante.

    Daniela Aragão: Parece-me que repetindo os pensadores legitimados, cria-se um suposto escudo de proteção.

    Fernando Fiorese: É por aí Daniela. Eu compreendo uma pessoa como Dona Cleonice Berardinelli, que é uma estudiosa de Fernando Pessoa, mas é a maior especialista de Fernando Pessoa no mundo. Há os pesquisadores portugueses, e ela não fica devendo a ninguém. Porém acho pífio, considero querer pouco dentro de uma pesquisa acadêmica, ser mais um entre os pesquisadores espalhados pelo mundo que estudam Fernando Pessoa, Proust ou Shakespeare. Se você vai ser especialista de um autor de língua estrangeira, você tem que estar entre os maiores, ou não vale à pena você estar ali.

    Daniela Aragão: Ainda há a questão do domínio da língua, de leituras que se perdem em traduções não muito confiáveis.

    Fernando Fiorese: Acho muito difícil estudar Proust ou Shakeaspeare, sem que você tenha acesso a uma série de espaços e bibliografias, que só se encontram na Inglaterra ou na França. Considero estranho que algumas pessoas fiquem anos se dedicando a estudar um autor estrangeiro, e não se trata de nenhuma xenofobia de minha parte. Acho improdutivo um trabalho que não ofereça uma contribuição diferenciada em relação ao que está sendo dito ao redor do mundo.

    Daniela Aragão: Basta pensar que no caso de Machado de Assis, uma das autoridades no assunto é o inglês John Gledson.

    Fernando Fiorese: Quando estive em Portugal em 2001, os estudantes até brincavam uns com os outros "e aí tá tudo Deleuze?", pois toda a universidade tinha se convertido em Deleuze. Daqui a pouco se converte em Agamben, ou outro. Homenagear um autor não é repeti-lo, é contrapô-lo. Baudrillard dizia, não me matem, pensem contra mim. Freud tem essa força toda, pois há muita gente pensando contra ele. Marx conservou durante muito tempo sua força, devido à quantidade de pensamentos contra ele. Pensar a favor é um modo de matar o sujeito. O sujeito só pode demonstrar sua força, se uma outra força incide no sentido contrário.

    Daniela Aragão: E você estando dentro da instituição parece não ter nenhum pudor em explicitar suas ideias.

    Fernando Fiorese: (risos) Acho que esses oito, nove anos que me restam para aposentar, são uma espécie de despedida. Se eu estivesse saindo com o mesmo espírito de quando entrei na universidade, com vinte e cinco anos, estaria falando sem o menor pudor sobre todos os problemas que vejo ligados as instituições. As pessoas falam mal das estruturas, mas cumprem, se ajustam, respeitam e se locupletam delas. Não estou me isentando do contexto.

    Demorei muito para compreender, eu achava que as pessoas individualmente tinham algum poder. Na verdade é um projeto coletivo. Na faculdade de Comunicação, espaço em que fui diretor, nunca sentou-se para discutir um projeto da faculdade, embora este projeto exista. Está sendo feito, as pessoas participam. Se for por tal caminho, é porque a maioria contribuiu.

    Daniela Aragão: Fale sobre seu livro "Um chão de presas fáceis".

    Fernando Fiorese: Quando publiquei meu primeiro livro de contos, uma professora chamada Francine Rancière fez uma crítica em que apontava uma série de pontos positivos e negativos. Dentre as negatividades, ela falou que alguns contos eram o resultado da escrita do professor. Ela estava criticando uma situação muito comum hoje, grande parte dos poetas e escritores acabam encontrando o seu ganha pão na cátedra das faculdades de letras. Isso muitas vezes leva a construção de uma escrita feita para especialistas. O livro pode ser até elogiado, pois é compreendido num nicho.

    Daniela Aragão: Penso que você não gostaria de estar circunscrito a um nicho receptivo.

    Fernando Fiorese: Eu queria que meu livro fosse compreendido por mais pessoas. Não abri mão de uma escrita elaborada, ainda que travestida de narrativas históricas. Existe uma elaboração, um trabalho de texto. Eu queria muito que as histórias tivessem uma proximidade com a oralidade.

    Daniela Aragão: Há uma marca forte de oralidade que é notável no transcorrer de toda a obra e me remete em algumas passagens a Guimarães Rosa.

    Fernando Fiorese: Com certeza. É difícil realizar isso numa literatura como a nossa, particularmente em Minas Gerais, sem escapar do padrão Guimarães Rosa. É algo complicado. Até na divulgação do livro utilizei algumas frases do Riobaldo, o problema que este personagem tem com a grande cidade. Várias vezes ele fala que tem raiva da grande cidade, por não ter nascido nela, isso aparece umas três ou quatro vezes em Grande Sertão. De alguma maneira, nos anos cinquenta, no momento em que Guimarães estava escrevendo, a questão da grande cidade já era importante na narrativa.

    Daniela Aragão: Há um diálogo com Guimarães Rosa então?

    Fernando Fiorese: Era preciso que eu desse uma resposta a isso em meu romance. Como eu estaria escrevendo um romance rural nos anos cinquenta? O momento da industrialização, dos cinquenta anos em cinco. Que relação este homem do Brasil profundo mantém com a grande cidade? Uma relação de medo, de ódio, de desejo. Ele fala que gostaria de conhecer uma grande cidade.

    Daniela Aragão: A estrutura fragmentária inevitavelmente revela o caráter cinematográfico de sua obra. O que de certa forma parece contribuir também para a agilidade da narrativa e o trânsito dos personagens.

    Fernando Fiorese: Eu usei esses pequenos fragmentos, pois gostaria de deixar bem marcado que estou escrevendo nesta visão. As cidades são pequenas, porém não são cidades rurais. Essas pessoas não habitam uma mentalidade rural, portanto a linguagem das pessoas não é a de Grande Sertão Veredas, que obviamente é uma criação de Guimarães Rosa. As pessoas do norte de Minas não falam daquela maneira. Procurei me aproximar de uma linguagem que imita registros orais feitos por sociólogos. Os sociólogos quando fazem pesquisa de campo reproduzem a forma da fala das pessoas.

    Daniela Aragão: Há muitos falares em Um chão de presas fáceis.

    Fernando Fiorese: O cara do Jequitinhonha fala diferente do da zona da mata, eu precisava encontrar não uma reprodução literal, mas algumas marcas. Por exemplo, nós falamos "eu vou na casa da minha mãe", no Jequitinhonha eles falam "Eu vou na casa de mãe". Eu precisava trabalhar alguns marcadores, que me oferecessem essa marcação de oralidade.

    Daniela Aragão: Há histórias reais?

    Fernando Fiorese: Algumas histórias são absolutamente reais, como a do menino que salta pipa. Eu ouvi aquilo de um fotógrafo muito famoso numa entrevista. Meu universo é de caminhoneiros de beira de estrada. Algumas são histórias de minha infância.

    Daniela Aragão: As inspirações são vastas e trazem ao leitor uma impressão de que foram extraídas de vivências reais.

    Fernando Fiorese: Fiquei assistindo a muitos documentários de Eduardo Coutinho e de Marcos Prado. Há um documentário sobre os carvoeiros em que o personagem parte da Bahia e vai até Goiás, acompanhando a produção de carvão. É um filme de denúncia em relação à exploração do trabalho infantil e o desmatamento. Vi muitos documentários realizados pelo pessoal que circula em torno do Zé Padilha, que traz algo próximo a ele. Tem muito o lance de não precisar contar uma história inteira, poder distribuir fragmentos, em que uma história complementa a outra. Como eu não tinha propriamente um romance pronto, precisava que essas histórias oferecessem ao leitor pequenos quadros.

    Daniela Aragão: Sobrou material para uma continuidade num segundo volume?

    Fernando Fiorese: O livro acabou sendo uma espécie de depósito de muitas histórias, algumas em que pretendo ainda desenvolver. Santana dos Arreados é uma cidade a qual pretendo escrever uma história, num formato mais contemporâneo, contendo uma reflexão mais analítica.

    Daniela Aragão: Quanto tempo demandou a escrita deste livro?

    Fernando Fiorese: Quatro anos.

    Daniela Aragão: Você tem uma rotina para escrever?

    Fernando Fiorese: Isso é um problema sério, pois acho que no caso da poesia, não há necessidade de um método, acho que ela acontece meio num surto. Você escreve o poema, depois começa a trabalhá-lo. Ele foi ou não foi, não tem escapatória. Não dá pra consertar. No caso da prosa a coisa é diferente, é um somatório, não é só um lance de dados. É uma partida inteira de xadrez.

    Daniela Aragão: Muitos criadores disseram que tinham métodos, Tom Jobim no final da vida disse que compunha sempre pelas manhãs.

    Fernando Fiorese: É preciso ter método, ainda não desenvolvi um. Fico me lembrando de José Saramago, que em seus diários fala que acorda todo dia às oito horas da manhã, senta e escreve. Ele escreve uma página do romance pronta e revisada por dia, tirando os domingos. De forma que ao final do ano ele tem um livro de trezentas e poucas páginas. Para isso, seria preciso que eu vivesse exclusivamente da literatura, e tenho diversas outras atividades para realizar, já que possuo um emprego que me sustenta.

    Daniela Aragão: O que é a literatura para a sua vida?

    Fernando Fiorese: Eu costumo dizer que vim de uma realidade, de uma família de pessoas muito humildes, tanto meu pai quanto minha mãe estudaram muito pouco. Meu pai só foi estudar depois de muito adulto. Acho que como muitos de minha geração, da minha família e de minha cidade, eu estava destinado à indigência intelectual. Quando digo indigência intelectual, me refiro ao exercício do pensar, a atividade da imaginação, nada ligado a grau de escolaridade, ou algo desse nível. A possibilidade de estar diante do mundo, observá-lo e pensar a respeito. Isso qualquer pessoa é capaz de fazer, a não ser quando as circunstâncias te impedem. As circunstâncias de onde eu vim eram todas impeditivas. O que me salvou desta indigência foi a literatura, a poesia. Provavelmente existam outras formas de se sair desta indigência, mas sempre aconselho aos meus alunos a poesia, esta que talvez seja a forma mais barata. Um livro de poemas é lançado por trinta reais e amanhã está no sebo a três.


    Daniela Aragão é Doutora em Literatura Brasileira pela Puc-Rio e cantora. Desenvolve pesquisas sobre cantores e compositores da música popular brasileira, com artigos publicados em jornais como Suplemento Minas de Belo Horizonte e AcheiUSA. Gravou, em 2005, o CD Daniela Aragão face A Sueli Costa face A Cacaso.

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