Paula Faria Paula Faria 14/10/2015

Sobre a mudança das regras do jogo de audiência no horário nobre

novelaHá cerca de três anos, na ocasião do último capítulo de "Avenida Brasil", a Rede Globo noticiava em seu principal telejornal que as ruas de várias cidades estavam vazias porque os brasileiros haviam corrido para casa a fim de assistir ao desfecho da saga dos morados do fictício bairro do Divino. Também foi noticiado que a própria Presidente da República teria adiado um compromisso para que não coincidisse com o fim da novela. "Avenida Brasil" entrou para a história da teledramaturgia brasileira como a telenovela que definitivamente colocou o subúrbio em evidência em contraponto aos muitos anos de reinado da chamada "cultura Zona Sul" no horário nobre.

Hoje, a mesma emissora aposta suas fichas em uma nova trama de João Emanuel Carneiro para alavancar a audiência no horário das 21h, após uma sucessão de tramas que não foram muito bem em audiência. Porém, já em sua estreia, "A Regra do Jogo" deu sinais de que provavelmente não cumprirá sua difícil missão: ela registrou a menor audiência para um primeiro capítulo entre todas as tramas exibidas no mesmo horário até o momento. E dia após dia o público tem demonstrado que não está disposto a prender-se ao enredo.

novelaMuitos podem ser os motivos que, conjuntamente, corroboram para o fracasso da Rede Globo justamente no horário que sempre concentrou sua maior fonte de renda. O primeiro deles, que tem sido apontado por vários críticos, é o bom desempenho da teledramaturgia bíblica da Rede Record, em especial de "Os Dez Mandamentos", que tem obtido bons resultados nos minutos em que compete diariamente com "A Regra do Jogo". Por outro lado, temos a já velha história de que os telespectadores agora têm acesso a outras atividades ligadas à internet e à TV por assinatura e isso ocasionaria a perda da audiência para a TV aberta. Há um fundo de verdade, mas se este problema tivesse tanto peso, a Rede Record também estaria sofrendo com a queda de audiência.

Outro motivo bastante convincente é o de que "Babilônia" não entregou o horário a João Emanuel Carneiro com uma perspectiva muito positiva. Gilberto Braga, apesar de ser o autor de grandes sucessos da emissora dos Marinho, não convenceu o público a gostar da mocinha chata vivida por Camila Pitanga, tampouco das vilãs interpretadas pelas aplaudidíssimas Adriana Esteves e Glória Pires. Em "Babilônia" a personagem Inês  (Adriana Esteves), com seus planos de vingança contra Beatriz (Glória Pires), foi muito associada à já inesquecível Carminha, de "Avenida Brasil", mas sem obter nem parte do sucesso e da aceitação da esposa de Jorge Tufão (Murilo Benício).

Se João Emanuel Carneiro planejou repetir em "A Regra do Jogo" o sucesso do núcleo cômico de "Avenida Brasil", utilizando atores como Marcos Caruso e Marcelo Novaes, seus planos também não deram certo. O núcleo que abriga os personagens vividos por estes atores é absolutamente sem graça e sem nexo dentro da trama, que também não conseguiu emplacar bons vilões: Giovanna Antonelli, depois de ter sido uma das poucas "salvações" de "Salve Jorge" (escrita por Glória Perez e exibida entre 2012 e 2013), com a delegada Helô, não agradou os telespectadores ao voltar a atuar ao lado de Alexandre Nero. E este último, uma das grandes promessas da atual novela das 21h, após a ótima atuação como o comendador José Alfredo de "Império" (2014/2015), também não está agradando como o ambíguo Romero Rômulo. Somam-se a tudo isso as dúvidas em torno do personagem de Tony Ramos, o fugitivo Zé Maria.

Enfim, todos sabemos que o povo brasileiro é noveleiro, e não há noveleiro que resista a uma boa trama. Então, "A Regra do Jogo" não está conseguindo segurar o público principalmente por não ter, pelo menos até o momento, emplacado uma trama envolvente. Em outros tempos, a poderosa Rede Globo colocaria sua imbatível teledramaturgia para concorrer diretamente com qualquer ameaça das emissoras concorrentes. Hoje, ela remaneja os capítulos da novela das 21h (que já foi das 20h) para começarem quase às 22h, para evitar a concorrência com "Os Dez Mandamentos", da Rede Record.

novelaEnquanto isso, Walcyr Carrasco ainda colhe os louros de "Verdades Secretas", exibida recentemente por volta das 23h. A novela que já revelava em seu título que iria recorrer aos mais tradicionais recursos da teledramaturgia, como o triângulo amoroso, o suspense e o contato entre diferentes classes sociais, foi um sucesso a ponto de se cogitar uma segunda edição ou continuação da saga de Angel (Camila Queiroz). Com um enredo que parecia a princípio não ter pretensões educativas ou reflexivas, Carrasco mostrou a que veio e fez muita gente ficar acordada até mais tarde para ver o desfecho da tragédia anunciada pelo romance da ninfeta interiorana com o padrasto Alex (Rodrigo Lombardi). O enredo girava em torno das jovens modelos que também atuavam como prostitutas, popularizando a expressão “book rosa”, mas também cedeu espaço para a abordagem de assuntos como o embate entre classes sociais, o alcoolismo, o bullying, o aborto e a dependência química (a propósito, palmas para a interpretação e a caracterização de Grazi Massaafera). Contudo, é claro que seu sucesso se deu principalmente devido ao foco no romance proibido e ao suspense. Talvez esses elementos básicos, vindos do melodrama, sejam a chave para a Rede Globo recuperar a audiência no horário nobre, utilizando uma velha fórmula para a obtenção de um novo sucesso.


Paula Faria é jornalista e mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, além de especialista em TV, Cinema e Mídias Digitais, pela mesma instituição. Também é publicitária pela Faculdade Estácio de Sá e desenvolve pesquisas relacionadas à comunicação, cultura e identidades, mais especificamente sobre ficção seriada televisiva e música popular brasileira

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