Matéria-prima

Nome do Colunista Carolina Fellet 22/05/2017

Um homem, provavelmente no quilômetro 70 da vida, se pesando na balança da farmácia. A ação tão trivial subitamente me tirou da latitude e longitude onde sempre estive. É que fiquei embasbacada com aquela matéria-prima humana. De onde vinham a ossatura, os olhos, a dentição, a musculatura, o sangue, os órgãos pulsando daquele grisalho?

Todo o orgânico aterrissa na Terra sem registro de procedência. Fico imaginando uma colônia com globos oculares, bocas, unhas, veias, cílios até se apossarem dos corpos. E depois penso nas tecnologias da fauna – relincho de cavalo, esguicho de tromba de elefante, balé de flamingo, braveza de tigre – amalocadas em uma dimensão longínqua, sem serventia imediata.

A gênese da vida acontece fora das nossas grandezas, dos nossos mapas. É tudo clandestino: o vermelho se incorporando às pétalas, o leão no topo da cadeia e, por isso, temido e solitário, as uvas rebentando em cachos, a altitude variando a beleza dos céus, as aves com plano de voo perfeito.

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Fora tudo que é perecível, ainda há o imaterial que nos acomete: a inteligência para levantar aviões, afundar submarinos, organizar o trânsito, projetar arranha-céus, ensinar as leis de Newton, reproduzir uma composição de Tchaikovsky, namorar, amar, entristecer, regozijar.

Depois do episódio da balança, vi, numa manhã, cerca de 50 pessoas correndo em sincronia acidental na calçada da UFJF e senti igual espanto. Que mecanismo invisível mantinha aqueles físicos eretos, pulsantes, em dia com a vida? Cada um deles carrega o próprio folclore, tem uma inclinação por alguma ciência, já amou e desamou, triunfou e fracassou, foi assaltado pela tristeza e pela alegria.

Ali, uma pergunta que me acompanha desde pequena se acendeu: a vida vem dos alpes ou das profundezas, do movimento ou da inércia? Dia desses, um astrofísico disse que nossa substância ancestral é o pó de estrela. Nunca senti tanto a presença do sagrado em mim. Viver é estado de prece.


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