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    Livro reúne 44 crônicas que refletem fatos jornalísticosDeus sabe de tudo e não é dedo duro é uma coletânea de textos publicados em um jornal do interior de Minas. Este é o segundo livro do jornalista Juliano Nery

    Clecius Campos
    Repórter
    12/8/2010

    Deus sabe de tudo e não é dedo duro e outras histórias é uma coletânea com 44 crônicas publicadas ao longo de dois anos no Jornal Vale do Aço, da cidade de Ipatinga. São textos escritos pelo jornalista Juliano Nery que faz uma reflexão sobre fatos em voga na mídia, com um eco "mais humano". "É uma visão para além dos jornais. A proposta é superar a escrita jornalística, que tem aspecto mais direto, de apenas passar a informação, e possibilitar ao leitor uma outra leitura reflexiva."

    As crônicas foram selecionadas a partir de um volume de mais de cem textos publicados. Nery escolheu aquelas em que acredita ter feito reflexões mais interessantes. "Não são necessariamente temas atuais, já que foram publicados nos últimos dois anos. Alguns estão defasados na temática, mas valem pelo exercício de repercutir o assunto. Os fatos são apenas pontos de partida para as reflexões. É isso que faz com que meus textos não embrulhem bananas no futuro. A reflexão os torna mais perenes."

    Entre as crônicas preferidas, estão a que dá título ao livro e O risco de viver (publicada abaixo). "Trata do fato de a gente perder o conforto e a segurança do que temos em troca de cometer riscos." Nery aponta ainda desdobramentos do vídeo que mostrou o inglês pouco fluente do antigo técnico da seleção de futebol da África do Sul, Joel Santana, e o sumiço do cantor Belchior, noticiado em agosto de 2009. "A mídia disse que Belchior estava desaparecido há pouco mais de um ano. Na verdade, ele está sumido há mais de 30, desde que parou de se apresentar no Chacrinha."

    O público-alvo são leitores de jornais. "São as pessoas que acompanharam os acontecimentos e querem ler um pouco mais. É uma leitura fácil e agradável, com termos nada complicados. A intenção é que o leitor termine o livro com a disposição de poder discutir sobre os assuntos do momento, com uma nova visão."

    Produção independente

    O livro é uma produção independente e tem 88 páginas. O design da capa é de Amaro Baptista, com ilustração de Ricardo Coimbra. A publicação foi subsidiada por parceiros e por parte dos recursos obtidos com a venda de seu primeiro livro, Diálogos Possíveis, publicado por meio da Lei de Incentivo à Cultura Murilo Mendes. "O que prova que o incentivo cultural ajuda também indiretamente."

    A obra está sendo lançada nesta quinta-feira, 12 de agosto, em cerimônia no Museu de Arte Murilo Mendes (MAMM), iniciada às 19h. No local, os exemplares estão sendo vendidos a R$ 10 mais um livro usado, que será doado à Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage (Funalfa). No lançamento do último livro, Nery conseguiu doar 150 livros à entidade ligada à Prefeitura.

    Projetos futuros

    Nery tem outros projetos futuros a serem realizados. O mais próximo é um romance já escrito, que depende apenas de verba para lançamento. "Provavelmente usarei recursos da venda do Deus sabe de tudo." Um livro de poesias também está a caminho, assim como uma obra infantil.

    O risco de viver

    Imagine o Silvio Santos à frente da bancada, com aquele sorriso aberto que só ele sabe fazer, principalmente, quando expõe uma pessoa ao desespero, perguntando a você: “Quer parar com R$ 500 mil ou vai tentar a pergunta de R$ 1 milhão?”. As mãos ficam suadas, o coração bate forte e o corpo treme, não é?! - Mas, ainda assim, encontraremos forças de algum lugar para superarmos o medo e a angústia e, finalmente, dizer, “Silvio, vou tentar R$ 1 milhão”. E é aí que vem o abismo, a diferença entre sair do jogo com R$ 1 milhão ou com o prêmio de consolação de R$ 300,00. O problema é que a diferença entre a glória e o fracasso é um desvio, por vezes, muito pequeno.

    Pode ser uma escolha errada entre quatro alternativas, como no Show do Milhão. Pode ser uma pequena audácia, um delito, uma falta de cuidado. Na verdade, um risco. O grande risco de viver. Tudo bem, que o mundo só se desenvolve para quem ousa, para quem corre riscos, para quem desbrava. O que pretendo colocar em xeque aqui, não é isso. Pretendo pensar nos riscos já avaliados e catalogados, tal qual um técnico de segurança e sinalizar com placas, cerquites e equipamentos de proteção individual, aquilo que poderia ser evitado. Aquilo que deveria substituir a experiência individual.

    Sim, eu sei que muitos preferem pagar para ver. Preferem ir para a piscina em dia de chuva e esperar o raio cair, porque acreditam que ele não vai acertar lá dentro. Afinal de contas, seria muita falta de sorte... O mesmo acontece quando enfiamos 200 km/h na estrada. Com a gente, nunca vai acontecer. E nem doença venérea, quando transamos sem camisinha. E muito menos sermos flagrados roubando dinheiro público, tratando mal os colegas de trabalho... Cobramos punição divina e do mundo dos homens, quando somos os ofendidos, as vítimas, os lesados. Mas, da mesma forma, acreditamos piamente na impunidade e na imunidade, quando estamos errados e andando fora da linha. Quando partimos para o risco.

    E ele acontece, viu. Estão aí os índices de acidentes dos feriados, os atendimentos realizados nos hospitais de pronto-socorro, que não deixam mentir. A maior parte dos acidentes/incidentes poderia ter sido evitado se alguém cedesse: a pessoa humana. Não podemos justificar mortes e outros desfechos trágicos com desculpas relacionadas a prazos, cronogramas, dinheiro, tempo ou acúmulo de funções e de atividades. Mais vale estar vivo para fornecer desculpas, do que deixar um ser humano sumir prematuramente, por conta de ideais bem pouco nobres.

    Quanto a mim, prefiro parar com os R$ 500 mil e frustrar o sorriso do Silvio. Ele paga em barras de ouro que, segundo ele, valem mais do que dinheiro. É melhor valorizar as conquistas planejadas e seguras do que avaliar somente o tempo perdido, o dinheiro que deixamos de ganhar e outras coisas invisíveis. Aquelas que nos fazem perder a cabeça, literalmente. Aquelas que nos arriscam e que nos fazem perder, irreversivelmente.

    Crônica retirada do livro Deus sabe de tudo e não é dedo duro, de Juliano Nery

    

    Os textos são revisados por Thaísa Hosken

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