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    Livro aborda a história do trabalhismo em JF e as relações entre trabalhadores e demais classes na cidadeObra mostra como a sociedade passou a reconhecer os trabalhadores como responsáveis pelo esplendor da Manchester Mineira, de 1877 a 1920

    Clecius Campos
    Repórter
    26/11/2010

    Reprodução da capa do livroDo historiador Luís Eduardo de Oliveira, o livro Os trabalhadores e a cidade: a formação do proletariado de Juiz de Fora e suas lutas por direitos (1877-1920) aborda a história do trabalhismo em Juiz de Fora e as relações que os trabalhadores foram estabelecendo, ao longo dos anos, com as demais classes sociais da cidade. O recorte histórico parece distante, mas o texto — uma adaptação da tese de doutorado defendida no final de 2008 por Oliveira, na Universidade Federal Fluminense (UFF) — ajuda a responder questões como o porquê de a luta sindical na cidade sempre passar pela esfera pública.

    A resposta está nas relações construídas pelos trabalhadores juizforanos — englobando os das indústrias têxtil e metalúrgica, das prestações de serviços e do comércio — que garantiram contatos com as demais classes, incluindo o poder público. "Ao longo dos anos, as reivindicações dos trabalhadores vão ficando constantes e comuns. Então, essa classe vai criando uma unidade de interesses e uma consciência de classes, de forma que passam a fazer parte de uma mesma categoria, formando associações, formulando e dando publicidade as suas reivindicações", conta Oliveira.

    Na medida em que as elites e a imprensa percebem essa movimentação, os trabalhadores começam a ser ouvidos e tais discussões acabam também chegando ao poder público. "O recorte estudado no livro aponta que as reivindicações eram a diminuição da jornada de trabalho para oito horas, fim do trabalho infantil e basicamente aumento salarial. Naquela época, homens, crianças e mulheres trabalhavam 14 horas por dias. Algumas jornadas eram estendidas das 6h às 22h, em condições mais precárias." Segundo Oliveira, por volta dos anos 10 e 20, a grande reivindicação era não só a redução, mas a regulamentação das relações de trabalho, o que, necessariamente, passaria pela esfera pública. "Isso justifica as relações que os trabalhadores juizforanos tem com a Câmara Municipal, por exemplo. Naquela época, não havia Prefeitura, só a Câmara. Seguindo essa tradição, as classes trabalhistas daqui sempre tiveram muito contato com o poder público, colocando o Estado como fundamental, nas relações de classe."

    Além das lutas sindicais, que ajudaram a formatar a cultura política da cidade — segundo Oliveira, Juiz de Fora é um município com tradição trabalhista — o livro mostra como a classe conseguiu romper os preconceitos que sofria. "Os trabalhadores eram vistos de forma muito preconceituosa. Eles habitavam os cortiços nas ruas centrais da cidade e às vezes eram até considerados perigosos. As residências simples do morro atrás da Catedral Metropolitana, conhecido na época como Morro do Santo Antônio, e bairros como o Poço Rico eram alvos de constantes reclamações na imprensa, que pedia a retirada dos trabalhadores do local. Gradativamente, por meio da luta de classes, eles conseguem mostrar que eram os verdadeiros responsáveis pelo esplendor econômico da Manchester Mineira. Juiz de Fora era a cidade mais desenvolvida de Minas Gerais." A partir de então, a imprensa passa a ser mais simpática com as reivindicações.

    O livro de Oliveira termina com uma grande vitória dos trabalhadores, culminada com uma greve geral histórica ocorrida na cidade em 1920. "Foi nessa greve que eles conseguem reduzir a jornada de trabalho e a exploração do trabalho feminino e infantil. Daí para frente, os trabalhadores passam a ser reconhecidos pelos governantes, que usam o populismo para regulamentar algumas reivindicações, como é o caso de Vargas nos anos 30."

    O processo de pesquisa

    Para escrever a tese e depois formatar o livro, Oliveira precisou estudar um recorte histórico maior que o expresso nas páginas de Os trabalhadores e a cidade. Ele estudou o movimento sindical em Juiz de Fora de 1840 a 1960, para que pudesse estabelecer correlações entre as diferentes realidades. "Percebi a necessidade de estabelecer vínculos culturais entre os trabalhadores de 1950 e 1960, com aqueles que viviam sem o amparo de leis." Durante a pesquisa do doutorado, teve acesso a uma série de documentos, ainda preservados em Juiz de Fora, que fundamentaram a tese.

    "Consegui material nos arquivos históricos da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e da Prefeitura, no Setor de Memória da Biblioteca Municipal Murilo Mendes, no Instituto Histórico e Geográfico, na Câmara Municipal — onde consegui documentos da época do império e do início da república — e no acervo de Dormevilly Nóbrega." Oliveira consultou ainda edições dos Jornais do Comércio e O Farol, além de periódicos cariocas e paulistanos que faziam menção à Juiz de Fora e da memória de militantes.

    "Tenho muito material pesquisado e digitalizado do período que vai da década de 1920 aos anos 60. Já foram alvo de publicações e outros estudos durante o mestrado, mas ainda há possibilidade de ser feito um novo vínculo, talvez para um segundo livro. É muita história para ser explorada." Oliveira é pesquisador da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), onde explora a história dos trabalhadores fluminenses nas décadas de 1950 e 1960. "Esse estudo aborda a história do direito do trabalho, principalmente a lei do 13º salário e o descanso remunerado. Pode também virar um livro."

    Os trabalhadores e a cidade é editado pela Funalfa — o projeto foi agraciado pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura —, em parceria com a Editora da Fundação Getúlio Vargas (FGV). A tese ganhou o Prêmio Pronex/UFF Culturas Políticas (Faperj/CNPq) em 2009.

    Os textos são revisados por Thaísa Hosken

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