Artigo
Rótulo, pra que te quero...
:::23/03/2006

Há quem prefira ser uma metamorfose ambulante e constante. E, às vezes, é até bom mesmo se livrar de todos os rótulos do mundo para viver e imprimir os instantes e as pessoas pelas avaliações momentâneas que a gente se propõe a deleitar frente a elas. E outra: ficar refém de uma opinião para o resto da vida me parece, no mínimo, cansativo. E, afinal, as mudanças estão aí pra gente absorver vida afora e poder melhorar. Assim como Nietzsche, também não acredito em valores eternos. Viver numa pluralidade é mais instigante, mais dinâmico e mais intenso. Somos obra inacabada. Que bom!

Mas tenho que concordar com Lya Luft com o que ela diz sobre os rótulos. Para ela, eles são precários e, muitas vezes, mais nos confundem do que nos esclarecem. Desconfortáveis, embora importantes e servem para que criemos nossas posições e nossas verdades. É um mal necessário até para moldar nossa personalidade e abraçar um estilo - e se forem vários, melhor ainda.

Se a bonita aí está engessada na idéia de que rótulos só servem para potes de geléia, este artigo não é para você. Vai ficar incomodada e achar tudo uma caretice. Direito seu. Não quero julgar o livro pela capa mas, muitas vezes - oh, Belchior! - as aparências não enganam, não. Pode parecer crueldade minha, mas o tão mal falado juízo de valor tem lá sua importância. É nosso lado subjetivo, nossa relação com as coisas, com as pessoas e com as situações. A gente pode até mudar - é uma delícia ser personagem principal de uma transformação para o bem! - afinal, a gente passa a vida inteira com mil informações. Impossível ficar estagnado frente a elas. Mas saber fazer distinção - e não ter medo de confiar no seu instinto - do que é bom, do que mal, do que é feio é o ponto capital.

Faça um teste: olhe para as coisas que estão ao seu lado por um momento. Depois pense nas últimas pessoas que você encontrou na rua e agora, ligue e televisão e assista um pedacinho do jornal. Sem perceber, vai sair algo parecido com: "Puxa vida, como sou desorganizada com mesa do computador!", "Fulana, minha amiga, é tão do bem...", "Nossa, que podre aquele general ridículo. Fez um ‘cara-crachá’ só para entrar no avião no lugar de dois passageiros!".

Adjetivar não é só apontar defeitos ou qualidades. É também conhecer um pouco de si mesmo. Saber quem é você e no que você acredita. Mesmo que seja para decidir protagonizar a tal metamorfose de se virar a vida de ponta a cabeça ou arriscar voltar atrás, com a esperança de um belo recomeço.

Em tempo: Você pode não saber até nem desconfiar, mas todos nós temos um: a babaca, a careta, a metida, a doida. Se você é daquelas que deixa que diguem, que pensem e que falem, vai tranqüila, porque está no rumo certo. Infeliz daquela que vive presa na opinião do que os outros falam a seu respeito.



A montanha e o segredo
A Montanha de Brokeback é tão linda que enjoa. Mas aqui, o segredo é meu. Me senti mal quando me peguei rindo de situações do filme de Ang Lee, naquelas partes onde os bonitinhos se apaixonam e se aproximam. Fiquei mal depois porque me senti uma pessoa preconceituosa. "O Segredo de Brokeback Mountain" é um filme que conta uma história de amor profundo e tocante entre dois cowboys, em pleno oeste americano. Muito bom para mostrar que amor é amor seja quem for. Nem todo casal gay é cheio de frufrus. Aliás...



... aproveitando o encejo...
Adriana Calcanhoto, nem todos os cariocas são modernos. Daniela Ciccareli, nem todo político é corrupto. Jean Willis, nem todo segundo caderno só se pauta pela indústria cultural. Natalie Barney, nem toda mulher é homossexual. Ana, nem todo mundo que senta no bar com o patrão quer puxar o saco. Algumas coisas são universais. Outras não. E não mesmo. Definitivamente.


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Andréia Barros é jornalista
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