PSB se prepara para disputar o governo de Minas

Júlio Delgado fala sobre os primeiros meses da atual administração municipal e sobre ser candidato ao Governo de Minas em 2014

Andréa Moreira
Repórter
25/07/2013
Deputado Federal Júlio Delgado (PSB)

Recém eleito presidente do Partido Socialista Brasileiro (PSB) de Minas Gerais, o deputado federal Júlio Delgado em entrevista ao Portal ACESSA.com, falou sobre os desafios do novo cargo, as perspectivas para as eleições de 2014, sobre as pretensões políticas e ainda sobre as manifestações que aconteceram no Brasil e a administração municipal de Juiz de Fora. Confira:

ACESSA.com - Como surgiu essa indicação para  assumir a presidência do PSB Mineiro?

Júlio Delgado - Primeiro é um processo que a gente vem construindo dentro do partido. Desde quando eu vim para o partido, em 2005, a gente trabalhou muito no sentido de reforçar o PSB não só aqui em Minas, mas nacionalmente. Quando fui para o partido, estava em uma tarefa árdua, pois era o relator do processo de cassação do Zé Dirceu (ex-deputado do PT). O PSB fazia parte da base de governo e o Zé Dirceu era um homem todo poderoso do Governo Lula. Mas tivemos a independência, o reconhecimento deles. Acho que isso nos deu uma posição bastante elevada na Câmara dos Deputados e internamente no partido.

Depois fizemos outros trabalhos, como a valorização do partido, principalmente em 2010 e 2012. Já reeleito pelo PSB, em 2010, ajudamos construir uma realidade diferente que o PSB tinha a nível nacional. Tínhamos feito seis governadores em 2010. E tínhamos a perspectiva de fazer um número considerável de prefeitos. Mas sabíamos que em Minas precisávamos acompanhar este crescimento, e fizemos isso.

Nós tínhamos 11 prefeituras em 2010 e, em 2012 fizemos 35, aumentando em mais de 200% os prefeitos do PSB. Se o número de políticos do PSB em Minas ainda é pequeno, pelo menos demonstramos que tivemos um aumento consistente. Ficou caracterizado que na Zona da Mata e Sul de Minas, onde temos uma atuação mais forte, o PSB cresceu mais. Temos prefeitos em Lima Duarte, Além Paraíba, Liberdade, Matias Barbosa, Descoberto, Pouso Alto, Aiuruoca, etc. Nestas duas regiões do Estado, dos 35 prefeitos eleitos, conseguimos fazer 11. Além de apoios pontuais que demos em outras partes do Estado. Acho que esse trabalho nosso teve um reconhecimento por parte da direção nacional do partido, juntamente com a boa relação que temos com a direção nacional e com o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, que é o presidente do partido. Posso dizer que ele foi o instrumento que elevou e que conseguiu, apesar das pressões que tiveram para a indicação de outros nomes, fazer com que chegássemos a presidência do PSB.

ACESSA.com - Agora que senhor assumiu a presidência do PSB  Minas, quais serão as diretrizes do partido, pensando já nas eleições 2014?

Júlio Delgado - Primeiro é pautar os princípios da nota da executiva nacional, que estipulou algumas metas e princípios partidários. Pretendo defendê-los, não só por estar na presidência agora, mas também pelo compromisso de representar o PSB no grupo de reforma política em que foi criado. Entre as proposições temos o fim das coligações proporcionais; e o fim da reeleição, com mandato de cinco anos. Queremos que algumas destas questões já vigorem nas eleições de 2014. Acho que não conseguiremos acabar com a reeleição, mas pelo menos terminar com o fim das coligações proporcionais já é um caminho. Mas o principal agora é trabalhar com alguma chapa de deputados federais, deputados estaduais e com esse contexto participar ativamente do processo da sucessão do Governo de Minas. Com a convicção de que o PSB vai estar envolvido na discussão da chapa majoritária. Seja no governo, vice-governo, candidatura do Senado, que é uma vaga. Mas estaremos envolvidos nessa discussão, nesse processo aí.

ACESSA.com - Inclusive o nome do senhor poderia ser um para o Governo de Minas?

Júlio Delgado - Eu não falo nome. O nosso nome chegou para assumir a presidência do partido devido ao fruto do nosso trabalho. Não foi um nome pinçado para que isso pudesse ser colocado com esse objetivo. Acho que temos que trabalhar com o foco de participarmos como protagonistas do processo. Se vai ser o nosso nome; o nome do prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda; se vai ser o nome de algum deputado estadual que está em mandato; de algum nome expressivo que esteja por vir ao partido e talvez iremos receber com essa característica de poder disputar até o Governo do Estado.

Na verdade, o importante é que a gente possa preparar o partido e fazer um trabalho que garanta primeiro a identidade e a independência que PSB sempre posicionou nos governos em que colaborou. E mais do que isso, é dizer que ao termos a candidatura do governador Eduardo Campos, sabemos que Minas é um Estado fundamental do Brasil e não podemos pensar uma candidatura dessa se não passarmos por Minas Gerais. Teremos que trabalhar no sentido de garantir a ele (Campos) uma candidatura majoritária ou de uma aliança que possa permitir que ele tenha palanque consistente e uma votação que possa ser expressiva em Minas Gerais.

ACESSA.com - Sabemos que o senhor é amigo do senador Aécio Neves (PSDB), candidato a presidente em 2014. E, como já disse, que o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, também é um pré-candidato. Isso pode interferir de algum modo nas eleições de 2014?

Júlio Delgado - Todos sabem da minha amizade com o Aécio. Inclusive ontem (quarta-feira) recebi um telefonema dele e pude confirmar a satisfação do Aécio em me ver presidente do meu partido. O Eduardo Campos sabe da nossa relação e também é amigo do Aécio. E os dois, que são da nossa geração política, que quer fazer uma diferenciação, sabem necessariamente que precisam um do outro. O Aécio precisa do Eduardo para ir para o segundo turno e tentar ganhar as eleições e vice-versa. O Aécio sabe que o Eduardo precisa ter palanque em Minas, e que ele (Aécio) não terá a totalidade dos votos em Minas, como Eduardo sabe que será majoritário em Pernambuco, mas não terá a totalidade dos votos. Isso vai servir para os eleitores que não votam na Dilma tenham uma opção diferenciada nestes dois estados.

Temos em Minas um peculiaridade diferente dos outros estados, que é eu ser do PSB, presidir o PSB e conduzir para que tenhamos um candidato a presidente da República do PSB. Mas sou do Estado do qual tenho relação com o Aécio Neves. Sabemos que Minas é um estado fundamental para este processo eleitoral e também sabemos que o Aécio e o Eduardo neste momento precisam fundamentalmente um do outro para viabilizar seus projetos, respeitando, claro, o desejo de cada um.

ACESSA.com - Caso haja segundo turno para presidente em 2014, e apenas o PSDB ou o PSB vá para o segundo turno. Qual será a posição do seu partido, sabendo que o PSB é aliado nacional do PT, mas também é aliado estadual do PSDB?
O Aécio pensa em passar para o segundo turno e ter o apoio do Eduardo e o Eduardo pensa em passar para o segundo turno e ter o apoio do Aécio. Afinal temos uma posição de coerência muito mais a vontade e de fidelidade ao mesmo propósito, Uma posição que dá a tranquilidade de apoiar o Aécio, caso o Eduardo não vá para o segundo turno.

ACESSA.com - Mudando um pouco de assunto, gostaria que o senhor, como deputado, avaliasse as manifestações que aconteceram e ainda acontecem no Brasil?

Júlio Delgado - Acho que é uma insatisfação plural. Vi uma insatisfação com a classe política, mais forte contra os corruptos. Com desejos de prisão dos corruptos, crime hediondo para quem cometer crime contra a administração pública. Mas também vi pessoas defendendo questões sobre segurança pública, saúde, educação e mobilidade, sendo que esta foi a que iniciou os protestos.

Acredito que foram manifestações mais metropolitanas, de grandes centros que expuseram as suas mazelas. E como culminou com o início da Copa das Confederações as pessoas "antenaram" que estava começando um evento que todo mundo desejou, mas que custou muito caro em detrimento a outras mazelas que a sociedade tem. Imaginar que um estádio em Brasília, que não tem um clube de futebol de grande porte, custar R$ 1,5 milhão; enquanto as pessoas estão morrendo nas filas dos hospitais. E digo isso porque eu vivo em Brasília durante a semana e vejo as pessoas morrerem nas filas dos hospitais por falta de atendimento.

As manifestações pegaram a classe política como um todo: prefeito, governador, deputados, mais a presidente (Dilma Rousseff), porque sabemos que os recursos estão concentrados na mão da União. Em fevereiro deste ano, durante meu discurso como presidente da Câmara, disse o seguinte: "Ou amanhã nós começamos a votar pautas propositivas, nos reaproximar com a sociedade brasileira e trazer para dentro do Parlamento uma sintonia maior entre os seus representados com os representantes, que são os deputados, ou estaremos amanhã tendo que nos justificarmos no campo ético e moral." É o que está acontecendo seis meses depois. Quando fiz aquele discurso não tinha bola de cristal para imaginar que teríamos manifestações, que iríamos passar por uma contestação popular pela nossa inatividade.

Temos que produzir projetos que deem retorno direto para o cidadão. Eu, por exemplo, tenho um projeto que torna crime hediondo todos os crimes contra a administração pública de 2005. Existem 12 projetos na Câmara sobre o fim do voto secreto. Ou seja, não precisamos de mais projetos, pois eles já tramitam há muito tempo. Só não votou porque não quis. Estamos votando agora um projeto de 2010, da deputada Elcione Barbalho (PMDB-PA) sobre a questão de segurança nas casas noturnas. Se tivéssemos votado este projeto em 2010, tragédias como a de Santa Maria (RS) não teriam acontecido. Esses projetos de interesse popular é que tem que ser mais votados do que medidas provisórias.

ACESSA.com - Como juiz-forano, gostaria o senhor também fizesse uma avaliação dos primeiros seis meses de do atual prefeito de Juiz de Fora.

Júlio Delgado - Início de governo é iguala lua de mel. Se falarmos para o marido ou para a esposa que eles estão sendo traídos, eles não acreditam naquele momento. Podem acreditar depois, mas na lua de mel não. Início de governo ouvimos muito que peguei massa falida, peguei problemas da gestão anterior. Mas deveria ter denunciado assim que entrou, esse é o primeiro problema. O segundo problema é o seguinte, se errou tanto, porque manteve tantas pessoas da primeira administração. O discurso do "novo" é que tudo que estava aí seria mudado, tudo que tinha de errado era culpa do ex-prefeito. Só que da equipe do ex-prefeito mais de dez nomes continuaram nesta administração. Acho que essa dubiedade faz com que façamos questionamentos iniciais.

Também acho que a cidade está um tanto quanto tímida. Foi colocado na campanha que fazer os tais quebra-molas no Centro da cidade e recapear a cidade era fazer maquiagem e não projeto estruturante. A verdade é que continuam as maquiagens. O que é estrutural como o piso salarial dos professores; a questão da saúde, que está cada vez mais caótica na cidade; o que é estrutural que é a questão da mobilidade, não tem como mais andar em Juiz de Fora e não vai ser um viaduto ou dois que irão resolver este problema. Isso não está sendo resolvido. Eu assinei a emenda federal para os viadutos daqui de Juiz de Fora. Mas não será um a cada ano que vai resolver o problema de Juiz de Fora. Talvez quando todos estiverem prontos daqui a seis anos, o problema vai estar tão crônico, quanto é hoje.

Acredito que o prefeito teria que ter mais interlocução, como o Custódio e o Tarcísio tinham. Com bagagem em Brasília e Belo Horizonte para buscar recursos para questões estruturantes. Não é fazer o acesso para um aeroporto que não está sendo utilizado. Conseguiu R$ 50 milhões para fazer uma estrada ligando ao aeroporto de Goianá, o qual foi desativado para voos comerciais. O hospital, que foi uma questão questionada que trará problema de gestão depois, está absolutamente paralisado. Então tem que priorizar recursos para as demandas maiores. E para isso tem que ter uma bagagem de conhecimento.

Juiz de Fora não vai trazer nenhuma solução, se não existir um prefeito que tenha o comprometimento de tirar a linha férrea do Centro da cidade. Aí falam que este projeto custa R$ 800 milhões, mas gastaram R$ 70 milhões com a rodovia 440, que está lá no meio do caminho e parada, mais R$ 50 milhões para fazer uma estrada para Goianá. Só aí já seria um sétimo do valor para a retirada da linha férrea do Centro de Juiz de Fora. Isso é estruturante.

É não ter a cidade seccionada por 16 cancelas. Os módulos que passavam em Juiz de Fora anteriormente eram 38 e a MRS já avisou que serão em torno de 50 por dia. É quase que um por hora. Imaginar que a cidade irá parar de hora em hora para a passagem de um segmento, isso é uma aberração para Juiz de Fora. Temos que fazer um trabalho. E se tiver que envolver concessionária, Prefeitura, governos Estadual e Federal, que façamos. Isso é o verdadeiro mutirão político-administrativo que a cidade tem que empreender.

Hoje nosso problema é de mobilidade, pois não temos um sistema de transporte urbano com a passagem única, diminuindo o número de ônibus no Centro. Mas temos que fazer um projeto correto, em que as estações dos bairros funcionem todas conjugadas. Isso é mais importante para a mobilidade de Juiz de Fora do que fazer viaduto.

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