Juliano Nery Juliano Nery 26/7/2013

Os brutos também amam

alfredoEnquanto tratava de obter um acesso para o maquinário da companhia ali pelos lados de Alfredo Vasconcelos na querida Zona da Mata de Minas Gerais, um bicho mal-encarado roubou minha atenção durante o estabelecimento de acordo com o fazendeiro local. Era um boi de pelo marrom e branco, com grandes chifres e um topete caramelo, meio acaju e de cara um tanto rabugenta. A primeira vez que ele se fez presente naquela manhã ensolarada foi quando raspou os cascos no chão e deu uma estrebuchada com a boca, como que fizesse um 'humpf' tedioso de um velho babão, já que escorria aquele cordão de saliva pelo curral afora.

Não teria ficado tão ocupado com a presença do animal, não fosse o fato de estar conversando com o fazendeiro dentro do próprio curral em que o bicho se encontrava. E o pior: à medida em que o meu temor pela presença do bovino aumentava, mais ele se aproximava, matreiro e vagoroso, mas, continuamente.

Interrompi a conversa com o dono do gado, temerário.

"Esse bicho se aproximando... não é perigoso?"

O fazendeiro começou a rir.

"Tudo na vida é perigoso, meu filho. Ta com medo do bicho? Esses homens frouxos da cidade..."

Fiquei irritado.

"Ele estava raspando os cascos no chão. Vai que é bravo!"

"Meu filho, não se engane! Quando o Radar quer pegar alguém, ele não dá pista. Traiçoeiro que só...", comentou o fazendeiro, causando confusão em minha mente, já que não sabia se o boi poderia atacar ou não.

O pecuarista aproveitou o meu interesse pelo que o animal poderia me causar para apresentar o cartel do "Radar". Chegara à propriedade, ainda novo. Filho de um bom reprodutor, não fugiu a regra. Detinha a melhor matriz da propriedade e cada gota de seu sêmen valia uma pequena fortuna. Bom de briga, já havia machucado muita gente na fazenda.

"Se ele não valesse tanto, já havia até me desfeito desse encrenqueiro...", lamentou o velho vaqueiro, fazendo-me lembrar da lamentação de bons pais de família, em relação aos filhos playboys de cidade grande, que arrumam briga e que depois não seguram a onda quando dá cagada.

O pequeno relato rendeu mais proximidade. Eu já estava no campo visual do Radar, tendo somente o fazendeiro nos separando um do outro. Foi quando o animal finalmente resolveu investir e foi pra cima do fazendeiro.

Pra quem achava que ele ia fincar o chifre no homem, Radar apenas abaixou a cabeça e encostou na barriga do seu dono.

"Ele só quer carinho...", disse o homem, fazendo cafuné na cabeça do bicho.

Quanto alívio, quanta decepção. Já não se fazem mais bois bravos como antigamente ou será que parafraseando o título daquele velho faroeste americano, os brutos também amam?

Juliano Nery acredita que Minas Gerais é mais que um Estado. É um estado de espírito. Alfredo Vasconcelos pode ser encontrada na latitude 21° 08' 42" S e longitude 43° 46' 37" O


Juliano Nery é jornalista, professor universitário e escritor. Graduado em Comunicação Social e Mestre na linha de pesquisa Sujeitos Sociais, é orgulhoso por ser pai do Gabriel e costuma colocar amor em tudo o que faz.

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