Juliano Nery Juliano Nery 14/10/2013

Veloz e furioso

ilustraçãoEra uma manhã nublada em Carandaí. Seguia para a comunidade Pedra do Sino para uma diligência na companhia, quando fizemos a ultrapassagem. O acesso vicinal de condição precária não permitia as mais altas velocidades e nem arrojo nas manobras, o que nos rendia uma velocidade de uns 20 km/h. O suficiente para encontrar, em duas rodas, um pequeno infante, que vinha tocando sua bicicleta cross, esbanjando perícia e pressa nas pedaladas, com sua canelinha fina, tal qual graveto de árvore, mas com incrível agilidade.

Não encontramos grande dificuldade para deixá-lo pra trás. Não que o menino não tivesse relutado. Ele ainda olhou para o vidro do carona, onde eu estava sentado, mordendo os lábios, como se aquilo pudesse melhorar o seu desempenho e pudesse superar o veículo automotor. Ainda comentei com o motorista sobre o fato, achando interessante tanto esforço e de como o espírito competitivo é capaz de imbuir o ser humano.

O assunto parecia encerrado, quando alguns metros à frente, após uma redução brusca da velocidade para passar por umas poças d'água e não atirar barro em algumas paredes de casas próximas, apareceu novamente o menino. Surgindo do nada e com uma admirável petulância, ele não havia desistido da disputa e jogou a bicicleta para a esquerda, passou sem cerimônia por nosso carro, dando uma olhadela para trás e retomando o seu curso na via. Só não deu seta, provavelmente, porque não contava com o dispositivo. Comecei a ver graça na história.

Passada a lama no acesso, aceleramos um pouco mais e passamos pelo menino que, já em franca disputa, não titubeou em tentar nos acompanhar. Levantou-se do banco da bicicleta para pegar mais galeio e, dessa forma, andar mais depressa. Vi que com o aumento da nossa velocidade, começamos a jogar um pouco de poeira para trás. Estrada vicinal é assim: quando não tem poça d'água, poeira tem. Pedi para o motorista diminuir um pouco o ritmo, afinal, o nosso pequeno "oponente" estava logo atrás e não seria justo prejudicá-lo. O menino, no entanto, aproveitou o embalo e não tomou conhecimento. Novamente, nos ultrapassou. E agora, já sorria com o feito de nos passar por duas vezes.

Fiquei entretido com tanto empenho do moleque e à medida que nos aproximávamos dele, mais ele pedalava com as canelas finas para não ser novamente ultrapassado. Ciente do tamanho do esforço, pedi para o motorista manter a velocidade mais baixa. Primeiro para evitar a questão da poeira e até de acidentes, já que a via era estreita; segundo, porque já estávamos chegando ao nosso destino e; por fim, porque era muito interessante ver o quão significava aquela disputa para o pequeno.

Desta forma, chegamos, enfim, ao ponto onde faríamos a diligência. O carro parou pela última vez. O menino olhou pra trás, desanimado com o fim da competição. Com uma cara frustrada freou a bicicleta e com um certo ar de desprezo e empáfia. Mostrou-nos a língua e foi embora. Veloz e furioso.

Juliano Nery acredita que Minas Gerais é mais que um Estado. É um estado de espírito. Carandaí pode ser encontrada na latitude 20° 57' 14" S e longitude 43° 48' 21" O


Juliano Nery é jornalista, professor universitário e escritor. Graduado em Comunicação Social e Mestre na linha de pesquisa Sujeitos Sociais, é orgulhoso por ser pai do Gabriel e costuma colocar amor em tudo o que faz.

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