Juliano Nery Juliano Nery 20/12/2012

O sujeito da poltrona ao lado

Viagem de tremQue mineiro é este que nunca andou de trem, meu Deus do céu?! – Não sem uma ponta de vergonha, eu era esse tal mineiro até umas semanas atrás, quando descobri que a querida Nova Era, no quadrilátero ferrífero mineiro, município que me abriga durante a semana, conta com uma estação de trem não somente de carga, mas, principalmente, no meu caso, trecheiro nato, de passageiros. A linha Vitória-Minas, que liga a capital capixaba a Belo Horizonte passa pela Estação Desembargador Drummond, em território novaerense e, portanto, resolvi me aventurar num desses fins de tarde, fazendo o itinerário até a capital mineira, para, então, rumar para Juiz de Fora, onde se encontra o meu lar, doce lar. Certamente, uma ocasião marcante, não fosse o sujeito da poltrona ao lado.

Sim, aquele mesmo inconveniente, que senta na sua poltrona. Aquela que você havia comprado com antecedência, na janela para admirar cada sequência de montanhas, túneis, minério-de-ferro, túneis, vales, cachoeiras e túneis (sim, eu gosto de túneis). Aquele que você prefere deixar ficar na janela, já que, de tão espaçoso e folgado que ele é, acabaria por te deixar preso ou espremido como batata de purê, caso fizesse valer a regra. Daí, você opta pelo corredor para ter espaço, mas ele fecha a cortina da janela, quando o belo pôr-de-sol bate no rosto e te deixa com raiva. A sorte é que se tratava de um trem, que tem outras potencialidades, que não o ônibus de carreira, no qual muitas vezes passei por este tipo de situação.

E, talvez, a principal potencialidade é ter outros vagões e um deles destinado ao restaurante. Como não podia ver a paisagem e o sujeito da poltrona ao lado queria se apoderar de parte da minha poltrona, achei por bem não partir para o enfrentamento, mas, partir para o vagão do restaurante. Lá, sim, a viagem fez sentido, uma vez que além de provar alguns lanches do cardápio, pude, enfim, cultuar a tal sequência de montanhas, túneis, minério-de-ferro, túneis, vales, cachoeiras e túneis, que havia mencionado. Só voltei para a minha poltrona, ao lado do inconveniente sujeito, ao anoitecer, quando com a cortina já descerrada, poderia conferir a chegada a Belo Horizonte. Observe que coloquei "poderia". Explico: o locutor da cabine de comando do trem informou, com aquela voz rouxinólica, típica de Cid Moreira, que com a chegada à capital mineira e os recentes ataques de vandalismo dos moradores lindeiros à ferrovia, que jogam pedras nos vidros das janelas do trem, recomendava-se o fechamento das cortinas. Nem o trem, ícone da mineiridade é respeitado nessa interminável onda de violência. Como pode?

De cortina fechada e coração aberto, cheguei à capital mineira com algumas conclusões provisórias, já que de nada vale ter certeza nesse mundo tão volátil em que vivemos: 1) Andar de trem é uma ótima opção, já que é econômico (a passagem é mais barata que a de ônibus, mesmo na classe executiva), eficiente (gasta o mesmo tempo que o ônibus) e seguro, uma vez que você evita a BR-381, aquela que é conhecida como a Rodovia da Morte; 2) Vá acompanhado de alguém que você goste e/ou ocupe pouco espaço, para não ter que encarar o sujeito desconhecido da poltrona ao lado; 3) Feche, realmente, a cortina ao chegar em Beagá, já que pude ouvir uns barulhos estranhos na lataria do veículo e a segurança sobre os trilhos, que o trem proporciona, pode cair por terra com uma pedrada.

Juliano Nery acredita que Minas Gerais é mais do que um Estado. É um estado de espírito. A estação Desembargador Drummond, no município de Nova Era, pode ser encontrada na latitude 19° 45' 00" S 43° 02' 16" O.



Juliano Nery é jornalista, professor universitário e escritor. Graduado em Comunicação Social e Mestre na linha de pesquisa Sujeitos Sociais, é orgulhoso por ser pai do Gabriel e costuma colocar amor em tudo o que faz.

* Ilustração: Lucí Sallum

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