Certa vez, houve uma profecia que dizia que o amor de muitas pessoas se esfriaria. Isso muito se resumiu ao fim dos tempos, para uma grande massa da população que segue um discurso religioso. O fato é que, sendo um presságio ou não, a frieza humana é um desvirtuamento que perdura desde sempre. E é exatamente sobre essa apatia do indivíduo, que o filme britânico indicado a Cinco Oscar, entre eles, melhor filme e melhor filme internacional, pretende retratar.

Uma família vive em um paraíso visual, numa casa linda, com um jardim belíssimo que é cultivado pela Matriarca. Próximo da residência, um belo lago onde todos costumam se refrescar durante os dias, quando não preferem se divertir em sua linda piscina com um escorrego. Esse lar, tão sublime, tem seu muro fazendo uma divisa dos campos de concentração de Auschwitz.

O novo filme de Jonathan Glazer é um experimento aterrorizante sobre a trivialidade da desumanização. E é importante frisar isso justamente porque, esse filme não possui um estilo comum de se contar uma narrativa tão explorada no cinema: o Holocausto.

Talvez por essa razão, que esta obra é necessária, uma vez que, enquanto nos acostumamos a ver tanta violência exposta, perseguições, contra o povo judeu, aqui, a direção busca enjaular esses eventos na nossa mente, criando um ambiente em primeiro plano acolhedor, funcionando como uma espécie de atmosfera quase utópica desse marco histórico atroz. A narrativa elucida uma história trivial de um casal que vive uma vida plena e de ascensão pessoal, que funciona perfeitamente como uma espécie de cortina para a realidade cruel e devastadora que está estabelecida além do véu.

Enquanto se come uma omelete, é possível identificar entre as mastigadas, um ranger de dentes. Entre uma gargalhada, o eco sutil de um gemido. Entre o som dos cantos de um pássaro, o choro pueril. Talvez aqui, o filme se revele desinteressante para um público que espera uma carga dramática exteriorizada, mas que é importante destacar: não deixa de subsistir à trivialidade e o cotidiano que aquela família vivencia diariamente dentro de seu “casulo”.

Do contrário, a banalização do horror desse triste episódio histórico, provoca o público a refletir a mesma complacência praticada pelas pessoas que estão em sua zona segura e de conforto, para os tempos atuais, onde essa frieza humana se estende em diversos problemas de estruturação, violência e extermínio. É a indiferença servindo um banquete na mesa de quem é privilegiado, e a estupidez de quem se vale das migalhas dessa benevolência, agindo com a mesma apatia social.

Por esse motivo, a trama se constrói sem se preocupar com desfechos, ou com desenvolvimento de personagens de modo sequencial, visto que, enquanto os dias de uma vida comum são acompanhados pelo espectador, os elementos secundários, visto entre uma nuvem e outra, é que desdobram o verdadeiro enredo que se quer narrar. E para quem se permite prestar atenção aos detalhes, certamente sairá com um nó apertadíssimo na garganta, ao entender a mensagem visceral que essa obra magnífica quer transmitir.

Zona de Interesse é um filme que convida o espectador à mediocrização do mal, a banalização da vida alheia e a desumanização diante de eventos catastróficos que se tornam cotidianos. Uma obra provocativa em sua nuance, reflexiva em sua construção narrativa e psicologicamente aterrorizante em seu desenvolvimento, que nos dá um tiro no estômago e uma explosão na consciência, que merece ser vista com atenção.

Nota 9.4

Divulgação - Zona de Interesse

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Clayton Inacio da Silva

Séries e Filmes

É advogado empresarial e crítico de cinema. No campo jurídico, atua na esfera administrativa, cível e consumerista, além de elaboração e análise de contratos públicos e privados. Como crítico, analisa e comenta filmes de todos os gêneros, que são lançados no cinema e em plataforma de streaming, além de análises de séries, minisséries, animações e documentários, dando ao público uma pequena dimensão sobre a relevância de cada obra com foco em despertar o interesse pela arte e incentivando à cultura.

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