SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Desde que chegou aos cinemas como um fenômeno de público, "Medida Provisória" não só marcou a estreia de Lázaro Ramos como cineasta, mas expandiu o interesse do público por "Namíbia, Não!", peça de Aldri Anunciação que deu origem ao filme e voltou a rodar o Brasil em 2022 após a pandemia de Covid-19..

Encenada originalmente em 2011, a peça acumulou prêmios e indicações na última década e ganhou o status de um dos principais textos da dramaturgia nacional ao retratar um futuro distópico em que uma medida provisória do governo prevê que todos os cidadãos "de melanina acentuada" deverão ser enviados de volta à África como meio de reparação histórica.

O que deveria ser uma ação de resgate se torna rapidamente um cenário de perseguição acentuando discussões como o racismo velado e estrutural da sociedade brasileira que, embora em pauta, ainda se mantém restrita às mesmas bolhas que sempre discutiram o assunto. Ao menos é a leitura que faz Ícaro Silva, que compõe o elenco da nova temporada.

"A sociedade brasileira como um todo ainda não discute o racismo porque ainda não escuta de fato", diz. "Antes de haver um debate muito franco e direto sobre racialização, sobre construção histórica, sobre genocídio preto, indígena, antes de ver esse debate acontecer é preciso que a sociedade escute, e aí é a imagem do estado, da iniciativa privada, dos indivíduos, de todo mundo."

Autor e parte do elenco, Aldri Anunciação buscou Ícaro Silva graças a seu posicionamento nas redes sociais e as discussões que promove sobre a figura de um ator preto e ativista na grande mídia.

"Ele tem um cuidado na escolha de seus personagens que, para mim, configura um ator político. Os textos que ele escolhe dizer, performar, sempre são textos que dialogam com o momento", afirma.

No ar como o vilão Leonardo da novela "Cara e Coragem", Silva aceitou o convite mesmo sem ter visto o espetáculo antes por considerar que a peça trabalha como um veículo para tirar a discussão racial da zona de conforto dentro da branquitude.

"Existe um certo desinteresse pelo assunto, como se ele fosse um assunto de preto, e é um assunto de todos nós porque nos atrasa enquanto sociedade, nos atrasa em vários aspectos", acredita.

A montagem, que cumpriu curta temporada gratuita no Teatro Cacilda Becker no último fim de semana, e estreia nesta quarta-feira (23) no Teatro Sérgio Cardoso, está em turnê desde julho, num movimento que Anunciação acredita ter sido intensificado pelo filme.

Em cartaz há uma década, "Namíbia, Não!" se tornou livro exigido em vestibulares de artes cênicas, ganhou um Prêmio Jabuti e, na visão do autor, adiantou discussões como colorismo e o surgimento do movimento Black Lives Matter.

"A peça foi escrita em 2008, não se discutiam várias questões, como o racismo que o negro retinto sofre e que o que é menos retinto não sofre. Nós trazemos assuntos que não se desenvolviam e algumas análises, como o papel do Obama como um presidente preto, ou essa frase de socorro da negritude de não conseguir respirar."

O autor se refere a casos que aconteceram depois, como o dos americanos Eric Garner, em 2014, e George Floyd, em 2020, respectivamente nos Estados Unidos, que foram impedidos de respirar por ações violentas da polícia norte-americana.

"Coisas das artes -a gente se conecta com coisas que vão acontecer. De alguma forma, os assuntos que são apresentados nos surpreendem porque aventar discussões sociais e movimentos", diz Anunciação, que ainda terá outras duas peças adaptadas para os cinemas -"Embarque Imediato", estrelada por Rocco e Antônio Pitanga no teatro, e "Campo de Batalha".

NAMÍBIA, NÃO!

Quando 23 a 25 de novembro | Qua. a Sex. às 20h

Onde Teatro Sérgio Cardoso (r. Rui Barbosa - Bela Vista)

Preço R$ 20,00 (meia) | R$ 40,00 (inteira)Autor Aldri Anunciação

Elenco Aldri Anunciação e Ícaro Silva

Direção Lázaro Ramos