SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Embora seja muito lembrado pelo público brasileiro como expoente do rock brasileiro, Erasmo Carlos, morto aos 81 anos nesta terça-feira (22), é dono de um marco histórico peculiar no festival que inicialmente foi dedicado ao gênero musical. Ele foi vaiado na inauguração do primeiro Rock in Rio, em 1985.

O caso se deu por um erro de programação da parte do evento. Tremendão foi escalado para participar do festival no dia 11 de janeiro, quando se apresentariam Whitesnake, Iron Maiden e Queen. Uma programação de nomes muito diferentes do seu perfil, portanto, com o dia sendo batizado posteriormente de "noite do heavy metal."

Ainda que já tivesse se superado a relação do músico com a Jovem Guarda e o alçado à justa posição de pioneiro do rock no país, o brasileiro não tinha o perfil destes grupos, o que causou estranhamento com parte do público que compareceu na antiga Cidade do Rock, oeste do Rio de Janeiro.

O que aconteceu, então, foi que um grupo de pessoas começou a vaiar Erasmo enquanto estava no palco. O artista era ainda, junto de Pepeu Gomes e Baby do Brasil, o último brasileiro a tocar antes dos nomes internacionais, antecedendo o Whitesnake que tinha um estilo radicalmente diferente do seu, mesmo que em tese pertencesse também ao rock.

No documentário "Erasmo 80", lançado pelo Globoplay no ano passado, o músico relembrou do caso comentando que a atmosfera era muito pesada e que ele, como outros naquela edição, ainda "estava conhecendo aquilo". "Ninguém sabia que existiam tribos [de metaleiros] naquela ocasião. Foi um erro da produção e dos artistas, de reunir todos os gostos num dia só."

Ainda no documentário, o artista ressaltava que a vaia partiu de uma parcela bem pequena do público, mais próxima do palco e, portanto, mais capaz de fazer barulho no evento.

Erasmo não foi o único brasileiro vaiado naquele ano, e inclusive assumiu o palco na esteira de outra onda de hostilização do público. No horário anterior ao músico, Ney Matogrosso desagradou a turba com seu show performático, mas conseguiu superar as vaias com o instrumental. Naquele dia, Pepeu e Baby foram os únicos a passarem "ilesos" no palco principal.

O Tremendão teve chance de redenção naquele ano e voltou a se apresentar no último dia do festival, em companhia melhor sintonizada, como o Barão Vermelho e a Blitz.

Mas é claro que algumas feridas ficaram. "Rock é isso mesmo, vaia, manifestação popular. Isso que é rock. É triste", disse numa entrevista após o show.