ABU DHABI, QATAR (FOLHAPRESS) - Duas garotas se debruçam, uma sentada e outra de pé, sobre o piano de uma casa burguesa. As pinceladas que dão sensualidade àquelas figuras ordinárias são soltas, afetadas, buscam jogo de luzes e movimento. Uma é loira e usa um vestido branco, de onde cai um laço azul que lhe amarra a cintura. A outra, morena, leva um vestido rosa tocado por um colar branco.

O senso de paz e perfeição aqui é retrabalhado, pelos ideais clássicos, a partir de personagens populares. A cena retratada em 1892 pelo pintor impressionista Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), no quadro "Garotas ao Piano", poderia ser vista em diversos lares da classe média europeia, principalmente francesa ou britânica.

Era, pois, o final do século 19, e o que se via à frente desse movimento era a desintegração de um ser humano sufocado pelos efeitos da Revolução Industrial. Rapidamente a ciência transformou não só vida social, mas também a maneira como as pessoas ocupavam as cidades.

A maior versão das três que Renoir fez desse quatro foi parar na coleção fixa do Museu d'Orsay, em Paris. Ao menos até o começo de outubro deste ano, quando a obra viajou para o leste, emprestada para um pequenino e riquíssimo país no continente ao lado. Hoje faz parte de uma exposição com mais de cem pinturas sobre impressionismo no Museu do Louvre de Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos.

Embora esse aglomerado de ilhotas situado nas águas mornas do golfo Pérsico tenha sentido o impacto tanto da Revolução Industrial quanto o da Segunda Guerra Mundial e da quebra da Bolsa de Nova York de 1929, essa parte do Oriente Médio ainda desconhecia o potencial de sua principal atividade econômica.

Foi a descoberta do petróleo na região em que hoje fica Abu Dhabi, no início dos anos 1960, que juntou em forma de nação um local até então dedicado à exploração de pérolas.

E foi só por isso que, em 1971, nasceram os Emirados Árabes Unidos, um dos países mais ricos do planeta, com uma efervescência cultural capaz de contratar os melhores arquitetos do globo (assim como tem feito o Qatar, que fica a quase 600 quilômetros de Abu Dhabi) para -além de ter seu próprio Louvre, com direito a um Renoir em casa-, reconstruir a relação entre a população e a cidade a partir da construção de uma série pretensiosa de museus oníricos.

Inaugurado em 2017, após cinco anos de atraso e oito anos de construção, com um domo de 180 metros de diâmetro, o Louvre de Abu Dhabi foi o primeiro desses prédios incríveis a ser aberto ao público, ele próprio assinado pelo arquiteto francês Jean Nouvel -que ganhou o Prêmio Pritzker, considerado o Oscar da arquitetura, em 2008- com a ideia de se tornar uma cidade-museu, com 55 prédios individuais, 23 galerias, restaurante, museu infantil, auditório e exibições.

A estrutura toda fica em uma ilha artificial próxima a Abu Dhabi e possui, nessa cúpula, uma estrutura entrelaçada com 7.850 peças que permite a entrada de luz natural nas galerias -algo que seria, para Nouvel, comum a todas as civilizações.

"Trazer a Abu Dhabi um movimento da vanguarda do século 19 é um feito cultural e estético, uma oportunidade de a região conhecer mais sobre essa aventura que 150 anos atrás trouxe nova linguagem visual e técnica à arte, e hoje traz ferramentas para questionar as especificidades do nosso próprio mundo contemporâneo", diz Manuel Rabaté, diretor do Louvre Abu Dhabi.

A mostra sobre impressionismo, que fica em cartaz até fevereiro de 2023, estreou apenas uma semana antes do principal evento de cultura da cidade, o Culture Summit Abu Dhabi, que aconteceu presencialmente após três anos e reuniu personalidades de diferentes regiões do mundo para encontrar maneiras de transformar o planeta por meio da cultura.

"Os Emirados Árabes Unidos sempre foram um lugar que reunia pessoas do leste e do oeste. É um lugar onde tivemos que aprender a falar com os outros, apreciar uns aos outros e, principalmente, entender a respeitar o outro", afirma Mohamed Khalifa Al Mabarak, presidente do departamento de cultura e turismo da cidade.

Estava por lá o também arquiteto e prêmio Pritzker Frank Gehry, que virou queridinho dos árabes ao topar assinar o projeto do novo Guggenheim.

A repórter viajou a Abu Dhabi a convite do Culture Summit Abu Dhabi