SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em resumo, Judith Lauand é uma artista radical. Aos cem anos, a única mulher que integrou o grupo Ruptura ganha sua maior mostra, "Judith Lauand: Desvio Concreto", reunindo 124 obras, numa retrospectiva no Museu de Arte de São Paulo, o Masp.

Dispostas em ordem cronológica, as pinturas expostas no primeiro andar do museu evidenciam a busca permanente da artista pela renovação. O primeiro núcleo da mostra, organizada por Fernando Oliva, data ainda de sua fase figurativa.

São obras que lembram composições cubistas, seres construídos por retas retorcidas, objetos, eles próprios, representados por figuras semigeométricas. É o caso de "Operário", de 1951, uma tela que mostra um trabalhador talhando seu material de trabalho. As cores, acinzentadas, sugerem todo o esforço daquele homem, bem como o ambiente opressivo em que o retratado está inserido.

Antes mesmo das formas que se espalham na tela, é curiosa a escolha do retratado. Se o traço de Lauand indica certa filiação à revolução empreendida por Pablo Picasso, tematizar as condições de trabalho de um operário afirma a nacionalidade brasileira da pintora.

Não é um detalhe desimportante. Os artistas concretos sempre foram acusados de certa alienação formalista, isto é, nenhum deles incluía em seus trabalhos as temáticas mais urgentes, que afligiam a sociedade brasileira.

Sob o aspecto visual, o que se ressalta é o tom amarelado com que Lauand preenche o trabalhador, cuja forma é delimitada por uma tinta preta, com um pincel finíssimo. É o amarelo contra os vários tons gris ao fundo que imprime ao retratado certa apatia, ou melancolia mesmo, do azul de suas ferramentas e vestimentas. Lauand utiliza procedimento similar em "Moça Sentada", de 1950.

Ali, a cor amarela é ainda mais viva, ressaltando a figura da mulher, à frente de planos que se insinuam abstratos, em verde, marrom, azul, cores que dialogam com a personagem. E o mais importante -a mulher está olhando para baixo, como se mirasse os próprios sapatos.

Nascida em Pontal, no interior de São Paulo, Lauand esteve cercada pela arte desde a primeira infância, numa casa em que se ouvia boa música e onde se liam bons livros. Em 1950, se formou na Escola de Belas Artes de Araraquara -daí o domínio técnico exibido nos trabalhos da primeira fase.

Num ato de mecenato, a família Lupo convidou a jovem artista para estudar na Itália, mas não obteve permissão de seu pai. "Ela foi a transgressora da família", diz Elisa Lauand, sobrinha-neta de Lauand. "E nunca se casou, chegou a fazer uma cópia de um anel de noivado e ficou usando, para não ter confusão com os pais."

Quatro anos depois, a artista trabalhou como monitora da 2ª Bienal de São Paulo. Na ocasião, a jovem entrou em contato com a efervescência cultural do circuito das artes plásticas à época. Conheceu, então, as obras de Geraldo de Barros e Alexandre Wollner.

Também em 1954, Lauand realizou a primeira exposição individual da carreira, na galeria Ambiente. No ano seguinte, Waldemar Cordeiro a convidou para integrar o Grupo Ruptura, movimento que disseminaria os ideais do concretismo na arte brasileira.

No interior do grupo, ocasionou, ela própria, uma explosão. Tanto que o espectador se espanta com a radicalidade pela qual Lauand se liberta da figuração para alcançar a abstração geométrica.

"Ela já trabalhava com formas elementares em suas primeiras obras, então não virou uma concretista de repente", afirma Oliva, o curador da mostra. "Não só ela seguia as regras do concretismo, mas experimentava a partir das cores, aliando isso ao estudo da geometria."

Como símbolo dessa libertação, surge uma obra em que um cubo, formado por fios azuis e roxos, é entrecortado por quadriláteros. Pontiagudos, eles incidem nos triângulos, estruturantes de cada parte do cubo. É, em última instância, uma ode à geometria espacial, como se todas as formas orbitassem ao redor do cubo flutuante.

Noutra obra, Lauand também imprime a sensação de movimento em suas obras. Uma linha divide uma tela em duas partes desiguais -em preto e branco. No centro, a linha divisória forma um ângulo bem aberto e, ao seu redor, pequenos triângulos verdes, parecidos com setas, apontam para cima, para a diagonal ou, dependendo da perspectiva, para baixo.

Após a explosão concretista, a artista passa a utilizar tachinhas, alfinetes e dobradiças, objetos que afixa nas telas. Assim, consegue criar novas texturas e relevos para as suas obras, que parecem puzzles ou jogos de tabuleiro. Entre fitas azuis, laranjas e vermelhas, o olhar se perde, sendo fixado somente por tachinhas coloridas -amarelas, vermelhas e verdes.

No caso dos alfinetes, observamos superfícies planas e coloridas, com a saliência dos objetos dentro das telas, provocando certa tensão entre o plano afixado à parede e os alfinetes. Lauand também faz uma síntese entre o concretismo e a arte pop, se valendo de palavras em algumas obras.

A palavra "atenção" é escrita em amarelo por letras garrafais. Abaixo, está "agora", em letras verdes contra um retângulo da mesma cor. Depois, ainda lemos "pare" e, finalmente, encaramos a sequência "olhe, hoje, veja", circundada em tom vermelho, que clama pelo olhar imediato do espectador.

Foi pelo domínio da forma que a artista impôs sua atitude feminista. O quadro "Mulher Fumando", de 1969, traz a marca de sua transgressão com delicadeza. A retratada abraça o seu companheiro, cujo rosto não nos é revelado, enquanto traga um cigarro, como se aquele lugar fosse um fardo.

"Ela tinha uma inquietação muito grande para lidar com novos materiais, tinha até uma atitude masculina", diz a galerista Berenice Arvani, que representa a artista. "Era uma mulher muito à frente de seu tempo."