SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Davi Kopenawa está com Covid.

O xamã yanomami, que rodou o mundo nas imagens da fotógrafa Claudia Andujar e depois foi levado por ela para dar seu depoimento presencialmente a audiências internacionais, teve de cancelar sua participação na Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, por causa da doença.

"Não fui eu que peguei Covid. Foi a Covid que me pegou", disse o líder indígena, que deve participar da mesa em homenagem à artista brasileira de origem húngara por meio de um depoimento gravado em vídeo, direto de Boa Vista, em Roraima. Trata-se da capital mais próxima da Terra Indígena Yanomami, a primeira a ser reconhecida pelo governo brasileiro, em 1992.

Kopenawa é autor de "A Queda do Céu", editado pela Companhia das Letras, livro escrito em parceria com o antropólogo francês Bruce Albert e lançado primeiro na França e, em 2015, no Brasil. Albert transcreveu e organizou conversas que teve com o xamã yanomami gravadas ao longo de 12 anos de convivência e amizade. O resultado é uma obra que costura autobiografia, denúncia do materialismo do homem branco e manifesto da cosmologia de um dos povos da floresta no Brasil.

"Esse livro eu fiz para vocês, napë", explica ele, usando a palavra yanomami que pode designar brancos, forasteiros ou mesmo inimigos. "Fiz para abrir ideias, abrir pensamentos e aprender a respeitar a nossa grande alma, que é o nosso planeta", explica o xamã, que integra o grupo de transição do governo de Luiz Inácio Lula da Silva para a prometida pasta dos Povos Originários.

Presidente da Hutukara Associação Yanomami, criada há 18 anos para promover a cultura yanomami como forma de proteger seu povo, Kopenawa ganhou o chamado Nobel Alternativo, o Right Livelihood Award em 2019 por sua resistência à exploração predatória da terra indígena da Amazônia, invadida por garimpeiros nos anos 1980.

Também em 2019, sob a gestão do então novo governo de Jair Bolsonaro, os garimpeiros voltaram em peso às terras dos yanomami, mesmo formalmente protegidas, incentivados por promessas do presidente de legalização desta atividade. Além de envenenar os rios locais com mercúrio, os garimpeiros levaram para o território indígena doenças, como a Covid-19.

Para Kopenawa, as xawara (epidemias, em yanomami) são fruto da devastação do planeta Terra e sinal de que a queda do céu, que dá título a seu livro, está cada vez mais próxima.

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PERGUNTA - A Terra Indígena Yanomami foi a primeira demarcação homologada no Brasil, em 1992. Como avalia essa experiência de 30 anos?

DAI KOPENAWA - Lutamos muito. Então, não é governo que deu presente, não. Eu consegui conquistado. A homologação foi conquistada, registrada e reconhecida pelo governo brasileiro e por governos distantes, mas ela não está sendo respeitada. A terra é rica em madeira, em pedras preciosas, ouro, cassiterita. Por isso que o governo quer e os garimpeiros querem tirar riquezas da terra para yanomami ficar sofrendo. Esse é o jogo do político.

P - Os anos do governo de Jair Bolsonaro foram marcados por aceleração na destruição da floresta, desmonte dos órgãos ambientais e indigenistas e incentivo ao garimpo. Como ficou a situação dos yanomami?

DK - As coisas pioraram muito. Ele abriu as portas para os garimpeiros entrarem nas terras yanomami e levarem doença, bebida alcoólica, arma de fogo. O preço do ouro aumentou, entraram ainda mais garimpeiros. E agora eles têm máquinas pesadas, usam balsas. Usaram muito mercúrio nos rios. Está o maior estrago.

Eu calculo 70 mil garimpeiros nas terras yanomami hoje. Mas meu cálculo é de um total de 100 mil porque eu conto quem compra ouro, dono de loja, dono de avião e dono de helicóptero. É tudo garimpeiro. O senador, o deputado, o político, o presidente estão junto com os garimpeiros.

P - Na visão yanomami, por que é importante que essas riquezas da terra fiquem na terra?

DK - Para nós tudo, planeta Terra é um só. E é muito importante não tirar ouro nem pedras preciosas, não poluir nem envenenar rios, não matar peixe. Água é o principal ?é saúde. A palavra do branco é que a terra é patrimônio. Mas ela é patrimônio do universo e precisa ser preservada, não só para mim ou para os povos indígenas, mas para todo mundo.

P - Como o senhor avalia a criação do Ministério dos Povos Originários? Quais são os desafios da nova pasta?

DK - É a primeira vez que eu escuto que o Ministério dos Povos Originários vai acontecer. E eu estou achando muito bonito. Lula que sonhou e pensou para criar. Eu, Davi Kopenawa, quero aproveitar a oportunidade. Vários lugares indígenas do Brasil estão precisando e vamos ocupar esse espaço com quem entende português e entende a política porque povos indígenas estão precisando de apoio. Tem que melhorar saúde indígenas, demarcar território, retirar garimpeiros, melhorar transporte.

Tem muita coisa para resolver. Não queremos comida ou mercadoria, queremos ajuda para defender [os territórios].

P - No seu livro, o senhor se refere aos brancos como ?povo de mercadoria?. Por quê?

DK - Na minha cultura yanomami, não pode explorar a terra. Eu chamo branco de povo de mercadoria porque eles tiram da terra para fazer mercadoria e colocar nas lojas. Planta e colhe os alimentos, cria boi e mata boi e coloca tudo na loja. Por isso o povo de mercadoria não para de destruir. Ele quer pegar mais e mais e destruir mais.

P - Eventos climáticos extremos ganharam o noticiário e intensificaram o debate sobre mudanças climáticas. Estamos perto de "A Queda do Céu"?

DK - Está ficando perigoso, sim. Vocês, napë [palavra yanomami para branco, forasteiro ou mesmo inimigo], não podem mais destruir, não. Estão deixando a nossa Terra-mãe revoltada. E o que você chama de mudança climática é vingança do mundo.

O homem da cidade não quer escutar nada, mas ele ajudou a criar a mudança climática com fábrica, petróleo, carbono, desmatamento, veneno. A poluição cresceu e gerou xawara, que são doenças: gripe, Covid e outras.

Agora, isso é uma doença do mundo inteiro. Um lugar é muito seco, e outro lugar tem muita chuva e trovão. A cidade fica alagada, e a força da água leva casas, leva carros. Isso não é mudança, não, é vingança do mundo. O mundo está se revoltando contra destruição, contra destruir montanha, contra tirar pedras preciosas.

Na cidade, pensam que estão protegidos, mas não estão. Na nossa visão, ninguém está protegido.

P - "A Queda do Céu" foi apontado como leitura essencial para compreender o Brasil. A que você atribui essa recepção?

DK - Eu demorei pra descobrir a cultura do não indígena, que gosta de olhar o papel escrito. Então o único pensamento que eu tive foi de escrever porque, se eu falo, o não indígena não presta atenção. E, se presta, esquece.

Nossa história é muito rica e conta a vida na Terra, a vida da floresta, do rio, das montanhas, da lua, das estrelas, da chuva, da claridade, da escuridão. Tudo o que existe dentro do universo.

Yanomami são muito inteligentes e sabem pensar olhando, escutando. Nosso mundo não tem barulho, é silencioso. Por isso que nós conseguimos escutar o som da Terra. A palavra e a cultura da Terra.

Esse livro eu fiz para vocês, napë. Para abrir ideias, abrir pensamentos e aprender a respeitar a nossa grande alma, que é o nosso planeta.

P - No prefácio do livro, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro conta a história de um encontro seu com o ministro da Casa Militar do governo de José Sarney, em que ele lhe ofereceu informações sobre como cultivar a terra?

DK - O próprio Sarney quis me dar semente de arroz. Eu fui a Brasília fazer denúncia de garimpo na terra yanomami, que mataram meus amigos e meus irmãos. Sarney falou que garimpeiros eram perigosos e me ofereceu sementes de arroz para eu plantar na aldeia. Eu disse que não queria. Eu estava ali para pedir providências urgentes porque ele era autoridade.

O general falou que eu estava com a cara pintada e fazia charminho porque queria obter algum benefício ou assistência. Falou essa palavra que eu não esqueci ainda. Eu fiquei na minha. Responder é pior. Pensei: quem vai responder é minha mãe Terra.