SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Era por volta de 16h do dia 11 de janeiro. O administrador de empresas André Krizak, 48, decidiu fazer um novo aporte na sua carteira de ações de varejo na B3 e escolheu a Americanas como alvo. Investiu boa parte das suas economias -"mais de R$ 40 mil"- para multiplicar por seis a sua posição na empresa que, sob nova gestão desde 1º de janeiro de 2023, prometia deslanchar.

"Eu estava animado com a chegada de Sergio Rial à Americanas, o que em tese motivou também o aumento da participação da BlackRock no negócio", diz Krizak, se referindo a uma das maiores gestoras de ativos do mundo, que aumentou essa participação em 28 de dezembro, às vésperas da chegada do executivo ao comando. O próprio Rial publicou na sua página no LinkedIn uma reportagem da Exame intitulada "BlackRock monta posição de 5% em Americanas à espera de Rial como CEO."

Krizak segue Rial na rede social e sempre admirou a gestão do executivo -ex-presidente do Santander Brasil, onde também ocupava a presidência do conselho do banco até a última sexta-feira (20), ex-presidente da Marfrig, e já apontado pela Forbes como o CEO mais bem pago do Brasil, com um salário anual de R$ 59 milhões. Havia uma grande expectativa em torno da chegada de Rial à companhia, que nos últimos 20 anos havia sido comandada por Miguel Gutierrez.

O administrador teve um baque quando, cerca de três horas depois de fazer o investimento, viu o próprio Rial assinar um fato relevante que tornou pública a existência de R$ 20 bilhões em "inconsistências contábeis" na Americanas. No mesmo anúncio, Rial renunciou à presidência e se apresentou como assessor dos acionistas de referência, os bilionários brasileiros fundadores do 3G Capital (Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira), que até o final de 2021 eram os controladores do negócio.

Na quinta-feira (19), apenas oito dias depois do anúncio de Rial, a Americanas entrou em recuperação judicial com dívidas de R$ 43 bilhões, a quarta maior operação dessa natureza na história do Brasil (só fica atrás das recuperações de Odebrecht, Oi e Samarco).

O anúncio da recuperação judicial, na quinta, veio também exatos cinco meses depois que Rial foi apontado como o novo presidente da Americanas, em 19 de agosto, o que fez com que os papéis da varejista avançassem cerca de 20% no pregão seguinte e a empresa ganhasse R$ 2 bilhões em valor de mercado.

"Me senti fraudado", disse Krizak à Folha de S.Paulo. "Comprei a ação por R$ 12 e agora ela vale menos de R$ 1, preço de bala. O tombo foi grande para mim. A Americanas fez o 11 de janeiro se transformar no meu 11 de setembro", diz ele.

Na sexta-feira (20), a ação foi negociada a R$ 0,71, seu menor valor histórico. Entre a data da compra até hoje, Krizak perdeu R$ 65 mil em ações da Americanas.

'Caso Americanas lembra o caso Madoff, nos EUA' O administrador -que no momento está afastado do mundo corporativo, em tratamento de câncer de pele e dando sequência a um mestrado em varejo pela FGV (Fundação Getulio Vargas)- tem passagens por grandes empresas do setor alimentício, como Nestlé, Bunge, Mars e Dori, sempre na área comercial. Segundo ele, com o investimento do dia 11, 60% da sua carteira de ações passou a ser composta de Americanas.

"Os demais investimentos também são em empresas no varejo, mas que têm uma gestão séria. O que aconteceu não foi uma fraude no varejo, foi uma fraude na Americanas, que atingiu pequenos investidores como eu", diz ele.

"O investimento em Bolsa é arriscado e eu sou ciente disso. Mas desde que o jogo seja limpo. O que houve na Americanas foi fraude, algo semelhante ao que Bernie Madoff fez nos Estados Unidos", diz Krizak, referindo-se ao operador financeiro Bernie Madoff, que foi condenado pela maior fraude financeira da história dos Estados Unidos, e morreu em 2021 na prisão, aos 82 anos, 12 anos após ser sentenciado a 150 anos de detenção.

Figura de alto prestígio no mercado financeiro americano, no qual fundou sua empresa, a Bernard L. Madoff, em 1960, Madoff chegou a ser presidente da Bolsa de valores Nasdaq. Ele usava o dinheiro de novos investidores para pagar os dividendos aos mais antigos, em um esquema de pirâmide financeira que, além de ilegal, é insustentável no longo prazo.

"Eu fui fraudado, mas vou buscar justiça, quero representar os minoritários nesta disputa. A Americanas levou parte do dinheiro que me deixaria mais tranquilo no momento de enfrentar a minha doença", diz Krizak, que critica a atuação da auditoria da Americanas, a PwC, e a B3, a Bolsa de valores brasileira, que lista no Novo Mercado as empresas que alcançam o mais alto índice de transparência e governança corporativa. A Americanas integrava o Novo Mercado.

"A B3 e a PwC não me passam mais credibilidade", diz Krizak.

Questionada pela Folha de S.Paulo, a PwC informou, por meio da sua assessoria de imprensa, que "não comenta casos de clientes".

Já o presidente da B3, Gilson Finkelsztain, divulgou nota, por meio da sua assessoria de imprensa, em que afirma que "o Novo Mercado estabelece o que as empresas devem estruturar em termos de governança corporativa. Mas o esforço para evitar prejuízos ao investidor deve mobilizar todos os agentes do mercado, como reguladores, auditorias e os próprios investidores."

Segundo Finkelsztain, a B3 poderá avaliar a criação de regras de exclusão de empresas do Novo Mercado na próxima revisão do segmento. "É um debate interessante, mas que sozinho não evita prejuízo ao investidor, porque funciona após o surgimento do problema. O mais relevante é buscarmos medidas cada vez mais eficientes de evitar que isso ocorra", afirmou.

'PwC é incompetente e B3 não fiscaliza nada' A Abradin (Associação Brasileira de Investidores), que reúne sobretudo acionistas minoritários, também faz duras críticas às empresas que deveriam fiscalizar ou acompanhar os controles de governança da Americanas.

"O episódio deixa evidente a completa ineficiência dos mecanismos de controle estabelecidos pelos reguladores e pela lei brasileira", diz André Valporto, presidente da Abradin. "A começar pela mais absoluta incompetência da empresa auditora, a PwC, cujos pareceres servem para induzir investidores ao erro. Foi assim com Petrobras, IRB e agora com Americanas", afirma.

No último dia 13, a Abradin apresentou uma denúncia à CVM (Comissão de Valores Mobiliários) para pedir apuração de responsabilidades sobre o caso Americanas.

De acordo com Valporto, por ser listada no Novo Mercado da B3, a Americanas é obrigada a preencher uma série de requisitos básicos de governança. "O que ficou patente, mais uma vez, é que a B3 nao fiscaliza absolutamente nada e que pertencer às listagens especiais da Bolsa nao tem significado algum", diz. "A única multa aplicada pela B3 à Americanas foi 2012, pela demora na atualização de dados."

Para ele, diante do público investidor, a B3 deu aval a todas as divulgações financeiras da empresa. "Dos 150 mil acionistas da Americanas, 146 mil são pessoas físicas, que estao amargando a enorme dilapidação do seu patrimônio por culpa dos fraudadores e de quem os avalizou, como a PwC e a própria B3", afirma Valporto.

De acordo com o executivo, a Abradin recebeu até agora mais de mil e-mails de acionistas, associados ou nao, cobrando atitudes da associação em defesa de seus direitos.

"O que nos impressionou a quantidade de acionistas preocupados não só com seu próprio bolso, mas com a moralidade do mercado", diz. "É um golpe que tem consequências muito negativas sobre a capacidade do Brasil de atrair investimentos por meio de seu mercado de capitais."

- Justiça aceita pedido de recuperação judicial das Americanas