DOHA, QATAR (FOLHAPRESS) - A primeira vez que Abdu Rahaman, 50, pisou pela primeira vez no Qatar em 2016. Ele viajou de Gana, sua terra natal, para trabalhar na construção de reservatórios de água para a Copa do Mundo 2022. Assim como outros homens do seu país, o dinheiro para manter sua família foi o que o convenceu.

Pai de 14 crianças e marido de três esposas, o muçulmano com um dente de prata aceitou um contrato de trabalho que não previa água, comida ou mesmo atendimento médico em caso de acidentes.

Na construção civil, diz que viu um garoto de Nepal, que também trabalhava para construir o Mundial, morrer. O jovem tentava colocar um grande cano em cima de um caminhão, quando a estrutura caiu sobre ele. Ainda assim, Rahaman permaneceu trabalhando.

Sua maior dificuldade foi a comida, que era muito diferente daquela servida em Gana, mas também não lidava bem com a saudade da família. "Se você quer ver sua esposa, se quer ver suas crianças, é só chamada de vídeo. Foram três anos sem vê-los."

As violações de direitos de trabalhadores migrantes da Copa do Mundo foram um dos argumentos que levaram ao questionamento de se o Qatar era o país correto para sediar o Mundial em 2022.

Trabalhadores que chegaram após 2017, porém, quando o país iniciou reformas trabalhistas em resposta à pressão internacional, sentem algumas diferenças em relação aos colegas que desembarcaram antes. Organizações internacionais reconhecem avanços, mas afirmam que ainda falta um longo caminho para uma implementação efetiva das mudanças nas leis laborais.

Ali (nome fictício), natural Blangadesh, por exemplo, chegou ao país em 2019, quando as reformas laborais propostas pelo regime qatariano já haviam sido iniciadas. Seu contrato dá acesso a atendimento médico pago pela empresa caso se envolva em algum acidente, e ele recebeu as passagens para o Qatar.

Os avanços, porém, não evitaram cenas dramáticas. Desde sua chegada, viu dois conterrâneos morrerem na construção do Mundial. Além disso, mesmo após atravessar o continente para prestar serviços, precisa pagar pela própria moradia no complexo em Asian Town.

O bairro foi projetado para os trabalhadores da construção e da infraestrutura oriundos de outros países asiáticos como Sri Lanka, Bangladesh, Nepal, Paquistão e Índia. O local, um misto de poeira de construção e deserto, conta com um condomínio para migrantes em que os prédios são pequenos blocos iguais em tons de bege. A entrada é controlada por seguranças.

Ao lado estão um estacionamento de ônibus abandonados e uma quadra de críquete, esporte famoso na terra natal de muitos deles. Quando projetou a cidade, o governo qatariano tentou manter por perto suas principais necessidades: a atividade física por meio do esporte, moradia no complexo de trabalhadores e lazer por meio de um shopping chamado Grand Mall.

O espaço dedicado aos imigrantes tem restaurantes que lembram botecos, espaços para a compra de eletrônicos, alguns comércios simples e diversos bancos para que os imigrantes mandem dinheiro para as famílias no exterior. Assim como outros espaços da região, mulheres são raridade. Ainda assim, o shopping é o principal ponto de convivência no fim de tarde.

O campo de críquete ao lado do espaço foi o escolhido pelas autoridades locais para a instalação da Fan Zone do bairro, onde os trabalhadores migrantes se reúnem para assistir os jogos da Copa.

Vestindo a camisa da Argentina e chateado pela inesperada derrota para Arábia Saudita na tarde da última terça-feira (22), Ali é um dos animados com o Mundial. Não ganhou ingressos da empresa, nem tem condição de comprá-los, mas pretende assistir às partidas.

Quer voltar para Bangladesh, mas não sabe quando. O jovem, na casa dos vinte, não quis ser identificado por medo de perder o emprego na construtora. Muitos trabalhadores têm receio de falar sobre suas condições de trabalho pela repressão do regime e para manter seu posto.

"Eu não ligaria de trabalhar com isso o resto da vida aqui, mas não em outro país", conta, ao salientar que sua vida em Doha é melhor do que os dias em sua terra natal.

O dinheiro foi o principal atrativo para os migrantes que atuaram na construção da Copa, com pagamentos superiores aos que recebiam em seus países de origem. O salário de Rahaman, por exemplo, era 2.000 em rial do Qatar, a moeda local (cerca R$ 3.000), o que diz ser suficiente para sustentar os 14 filhos e três esposas.

O país fez um grande programa de construção e infraestrutura para se colocar cidades de pé e se preparar para o Mundial. Além dos estádios, trouxe imigrantes de nações pobres para construírem ruas, estradas, sistemas de transporte público, hospitais, aeroportos e hotéis.

As denúncias de violações de direitos dos trabalhadores braçais imigrantes durante esse processo geraram pressão internacional, o que fez com que o país propusesse reformas trabalhistas em 2017. O Qatar assinou um acordo com a Organização Internacional do Trabalho (ILO, na sigla em inglês) se comprometendo a revisar suas leis laborais para imigrantes, colocando-as no padrão mundial, segundo a Anistia Internacional.

Um comunicado da Anistia de outubro deste ano, porém, pedia às autoridades qatarianas para reassumirem o compromisso de finalizar as reformas prometidas. A instituição diz reconhecer "notáveis melhorias", mas que a falta de implementação total ainda debilita o trabalho dos imigrantes, que chegam a ter jornada de 18 horas em setores como de segurança.

A organização também indica que milhares de trabalhadores morreram durante a preparação do Mundial, e que muitas das mortes permanecem não esclarecidas. Eles também não têm o direito de se unir a sindicatos, segundo a Anistia.

O indiano Sanjay Saini, 38, chegou ao país em 2016, um ano antes da proposição das reformas, mas quando o direito dos trabalhadores imigrantes já estava no centro do debate sobre a Copa. Sentado a poucos metros de quase uma dezena de lojas para transferir dinheiro para o exterior no Grand Mall, ele refletia sobre sua jornada na construção dos estádios.

Em dias normais, seu turno durava cerca de dez horas por dia, mas podia chegar a 15. O indiano não tinha nenhum tipo de apoio da empresa que o trouxe -nem mesmo atendimento médico por acidentes de trabalho, água ou comida.

Pai de dois filhos, perdeu toda a infância das crianças para trabalhar, mas viaja a cada 6 meses para revê-los. Tem planos de voltar de forma definitiva para a Índia em 2023.