SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Principal aliado de Vladimir Putin, o líder chinês Xi Jinping afirmou nesta quarta-feira (21) que o seu país precisa "focar na preparação para guerras".

Ele não comentava diretamente a escalada do russo no conflito da Ucrânia, com a mobilização planejada de 300 mil homens, anexação de territórios ocupados e uma ameaça explícita de uso de armas nucleares contra países de Otan (aliança militar liderada pelos EUA).

Mas a frase ocorreu no mesmo dia desse desenvolvimento, em uma fala de Xi à cúpula militar do país, o que joga luz sobre a ambiguidade da posição chinesa no ambiente da Guerra Fria 2.0 que trava com os EUA com o apoio de Moscou.

"É necessário resumir de forma consciente e aplicar experiências de reforma [militar], dominar a nova situação e os requisitos das tarefas, para focar na preparação para guerras", disse o líder, segundo a agência Xinhua.

Antes, a chancelaria chinesa havia emitido um comunicado comentando o agravamento da crise na Europa na qual repetia o pedido por um cessar-fogo imediato, mas novamente evitando condenar Putin pela invasão de fevereiro.

O contexto entre os dois aliados salta aos olhos. A guerra na Ucrânia começou 20 dias depois de Putin se encontrar com Xi pessoalmente pela primeira vez desde a pandemia, em Pequim. Agora, sua guinada vem seis dias depois de uma nova reunião com o chinês, no Uzbequistão.

Na cúpula de fevereiro, os dois expressaram "amizade ilimitada", mas focando em cooperação político-econômica. Na segunda (19), a Rússia e a China anunciaram que iriam estabelecer um protocolo mais próximo de intercâmbio militar, com mais patrulhas e exercícios conjuntos.

Se Putin tem na sua opacidade grande ativo na condução de sua política, Xi consegue superá-lo. Ao chinês não interessa um aliado enfraquecido demais em seu embate com o Ocidente e o regime de sanções que teme um dia ser aplicado contra a ditadura comunista que comanda desde 2012.

Por outro lado, uma vitória rápida, como a que o próprio Ocidente acreditava que Putin teria na Ucrânia, não veio. O prolongamento do conflito desagrada a Xi estrategicamente, pois com ele perdeu brilho o argumento do uso da força nas suas próprias demandas, como a absorção prometida de Taiwan.

Ao mesmo tempo, o russo foi o primeiro a apoiar o chinês em seus protestos contra a visita da presidente da Câmara dos EUA, Nancy Pelosi, à ilha que o regime de Pequim vê como parte da China.

Além disso, há a questão global. A China é mais interligada ao Ocidente, e tem uma economia dez vezes maior do que a russa. Putin pode ter armas nucleares e força militar, ainda que agora colocada em xeque, mas Xi é o verdadeiro rival estratégico do Ocidente --os EUA repetem isso em documentos desde 2017, e a Otan entronizou o país asiático nessa categoria ao revisar sua política neste ano.

O presidente Joe Biden, com problemas maiores na Europa, até assoprou em sua fala na ONU nesta quarta ao dizer que a liderança de Xi é "sensata" e que não procura uma nova Guerra Fria, algo retórico de todo modo.

Desta forma, fica a especulação acerca do que realmente Xi disse a Putin no Uzbequistão. Antes do encontro, o russo disse que "entendia as preocupações" do colega, e que iria "explicar sua posição". Reprimenda pública veio só do indiano Narendra Modi, que tem boa relação com Moscou mas é aliado dos EUA no grupo do Indo-Pacífico que se opõe a Pequim.

Uma frase solta em um evento militar pode não significar muito, quanto mais uma aliança sob a sombra de uma Terceira Guerra Mundial, mas também pode dar uma pista da visão de um mundo em blocos rivais que vem se desenhando sob Xi, que irá ser reconduzido para um inédito terceiro termo à frente do país em outubro.