GUARULHOS, SP (FOLHAPRESS) - Após três décadas de mais reveses do que êxitos em sua trajetória política, Anwar Ibrahim, 75, foi nomeado nesta quinta (24) premiê da Malásia, país de 34 milhões de pessoas no Sudeste Asiático.

A nomeação foi feita pelo rei Al-Sultan Abdullah após um impasse entre as forças políticas malaias. O país foi às urnas no sábado (19), mas nenhuma coalizão conquistou maioria no Parlamento de 222 assentos. A Pakatan Harapan (pacto da esperança), do agora premiê, conseguiu 82 cadeiras -para a maioria, porém, são necessárias 112.

A Malásia é, ao mesmo tempo, uma democracia parlamentar e uma monarquia constitucional. Ao rei, cabe a última palavra na nomeação de primeiros-ministros no caso de um impasse do tipo.

Abdullah até tentou um governo de unidade, a ser forjado junto com a aliança conservadora Perikatan Nasional, do ex-premiê Muhyiddin Yassin, que obteve 73 cadeiras no Legislativo, mas o plano não vingou.

Anwar Ibrahim iniciou sua carreira política como aliado de Mahathir Mohamad, o premiê mais duradouro da Malásia, que ficou no cargo por 22 anos, mas a relação entre os dois azedou no final da década de 1990, quando Ibrahim começou a denunciar casos de corrupção.

O agora premiê fundou um movimento de protesto chamado Reforma e, desde então, tornou-se líder da oposição. Ibrahim também foi preso, duas vezes, acusado de sodomia, prática considerada crime punível com até 20 anos de prisão no país, e corrupção, alegações que ele e ONGs como a Anistia Internacional dizem ter motivações políticas.

Em entrevista à agência Reuters dias antes da eleição, Ibrahim disse que um eventual governo seu buscaria dar ênfase ao combate à corrupção, ao racismo e à intolerância religiosa. Por diversas vezes, ele pediu o fim de políticas que favorecem os malaios e o fim do que chama de um sistema clientelista.

País multiétnico, a Malásia conta com 61,8% de sua população formada por malaios, de maioria islâmica, além de 21,4% de chineses e 6,4% de indianos, segundo dados oficiais de 2016. A política local tem sido marcada por um amplo debate sobre a supremacia malaia, que parece ter ganhado força no pleito atual.

O partido mais bem votado nas eleições foi o PAS, o Partido Islâmico, que conquistou 49 cadeiras no Parlamento. A sigla prega a rígida adoção da sharia, a lei islâmica, e seu líder, Abdul Hadi Awang, já defendeu que a Constituição malaia ganhe uma interpretação islâmica.

Ele pediu a adoção de punições como amputação, espancamento e apedrejamento até a morte, entre outras coisas. Para muitos malaios, então, Ibrahim poderia representar uma espécia de antídoto aos ímpetos radicais e supremacistas. Basta saber se o novo premiê conseguirá governabilidade.