SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O Conselho de Direitos Humanos da ONU aprovou, em uma reunião extraordinária, a criação de uma missão para investigar a repressão do regime do Irã às manifestações desencadeadas pela morte da jovem Mahsa Amini, em uma votação na qual o Brasil se absteve.

Reunidos em caráter de urgência em Genebra por iniciativa da Alemanha e da Islândia, os 47 países-membros do mais alto órgão das Nações Unidas sobre direitos humanos decidiram, nesta quinta-feira (24), nomear uma equipe de investigadores para esclarecer violações de direitos humanos relacionadas com a repressão do regime aos protestos.

A moção foi aprovada por 25 votos a favor, seis contra e 16 abstenções. Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha, Argentina e México estão entre os países que se declararam favoráveis à investigação, e China, Venezuela e Cuba, entre os que se opuseram. Além do Brasil, países como Índia, Qatar e Emirados Árabes Unidos se abstiveram.

Uma missão de investigação internacional independente -que tem pouca possibilidade de viajar ao Irã- deverá recolher provas de violência e preservá-las para que possam ser utilizadas em eventuais processos judiciais.

O conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Jake Sullivan, escreveu no Twitter que a votação é "a demonstração clara do compromisso internacional crescente de responsabilizar o regime iraniano por sua repressão brutal do povo iraniano".

"As autoridades iranianas não poderão realizar esta violenta repressão de maneira anônima; a comunidade internacional está observando", afirmou a embaixadora dos Estados Unidos, Michèle Taylor.

A ONG Anistia Internacional aplaudiu o que chamou de "resolução histórica", que representa "um passo importante para acabar com a impunidade".

A representante iraniana enviada por Teerã, Khadijeh Karimi, acusou os países ocidentais de falta de "credibilidade moral" para criticar o Irã, denunciando as sanções dos Estados Unidos e dos países europeus.

Em pleno debate no Conselho, a agência de notícias iraniana Fars anunciou a detenção do jogador de futebol Voria Ghafouri, acusado de ter "insultado e manchado a reputação da seleção nacional" e de ter feito "propaganda" contra a República Islâmica.

Situação 'insustentável' Durante as discussões, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, cujo pedido para visitar o Irã ainda não recebeu resposta, pediu a Teerã que "ponha fim" ao "uso desnecessário e desproporcional da força".

Muitos diplomatas ocidentais também denunciaram a repressão aos protestos que, em dois meses, deixou ao menos 416 mortos, 51 deles crianças, segundo a ONG Iran Human Rights (IHR), com sede na Noruega.

A onda de protestos contra o governo -que surgiu após a morte de Mahsa Amini, detida por não respeitar o uso do véu em público- alcançou uma magnitude sem precedentes desde a Revolução Islâmica de 1979.

Segundo o relator especial da ONU para o Irã, mais de 15 mil pessoas foram detidas.

A Justiça iraniana já proferiu seis sentenças de morte relacionadas às manifestações e anunciou nesta semana a prisão de "40 estrangeiros", acusados de participar dos "distúrbios" no Irã nestes dois meses.

Possibilidade de falar e ser ouvido "'Mulher, vida, liberdade'. Com este slogan, tão simples e tão forte, os iranianos recordam, há mais de dois meses, os valores que defendem", declarou a embaixadora francesa, Emmanuelle Lachaussée.

"O povo iraniano está exigindo algo tão simples, algo que a maioria de nós tem como certo: a capacidade de falar e ser ouvido", disse a embaixadora americana, Michèle Taylor, enquanto membros de sua delegação exibiam fotos com os nomes das vítimas.

Antes da votação, a ministra das Relações Exteriores da Alemanha, Annalena Baerbock, disse a jornalistas de Genebra que queria incentivar os países que geralmente votam com o Irã a terem a coragem de se abster.

"Não sabemos se [esta resolução] pode salvar vidas amanhã. Mas o que sabemos com certeza é que vai significar justiça para o povo", enfatizou.