SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A pouco mais de 10 dias do primeiro turno das eleições presidenciais, apoiadores famosos do candidato do PDT, Ciro Gomes, e integrantes do partido têm declarado voto no ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno.

Segundo dissidentes da campanha de Ciro ouvidos pela reportagem, o movimento é uma reação aos ataques do candidato ao ex-presidente o que, na prática, se convertem em apoio ao presidente Jair Bolsonaro (PL), ferrenho opositor do petista.

Lula lidera as pesquisas de intenção de voto e, neste momento, aparece com chances de obter mais de 50% dos votos válidos, o que lhe daria a vitória já no primeiro turno. O petista tem feito campanha pelo chamado voto útil, motivo de irritação de Ciro e da também adversária Simone Tebet (MDB).

Em carta endereçada ao presidente do PDT nesta segunda-feira (19), o ex-deputado Haroldo Ferreira (PDT-PR), e vice-presidente da Fundação Leonel Brizola, pediu afastamento das funções no partido por discordar da "campanha odiosa contra o principal candidato de oposição ao regime bolsonarista".

"De tal forma que Ciro Gomes, seja hoje, dentro do nosso campo político, o principal detrator de Lula, servindo direta ou indiretamente, de linha auxiliar para a candidatura oficial da situação", diz trecho da carta.

Questionado sobre as dissidências de sua campanha, Ciro se negou a repercutir o que chamou de fake news.

"Isso é mentira, vocês estão sendo enganados. Outra pergunta. Desculpa, mas não vou repercutir fake news de forma nenhuma", disse após participar de sabatina na Abras (Associação Brasileira de Supermercados), em São Paulo, nesta terça-feira (20).

Procurado, o presidente do PDT, Carlos Lupi, disse se tratar de um movimento de ex-integrantes que não falam pelo partido. "É tudo ex[-integrante], não pertencem ao partido. Alguns [estão] saindo do PDT, que Deus os abençoe e a mim não desampare", disse.

O gesto do ex-deputado se juntou a movimento iniciado na semana passada por ex-integrantes do PDT para deslegitimar os ataques de Ciro a Lula.

Foram redigidas duas cartas que devem ser lidas em tom de manifesto nesta quarta-feira (21) em São Paulo e no Rio de Janeiro. Entre os signatários, estão atuais filiados ao PT e a partidos que compõem a chapa petista na disputa pela presidência, como o PSB.

"Reconhecemos a legitimidade das disputas, mas como Brizola fez em 2002, entendemos conveniente aos destinos do Brasil e do povo brasileiro a solução da eleição presidencial em 2 de outubro", diz trecho de umas das cartas ao citar o ano das eleições presidenciais em que Brizola apoiou Lula.

Filiada ao PDT há mais de 40 anos, a ex-deputada Cidinha Campos diz ser "lamentável que Ciro Gomes esteja fazendo o jogo de Bolsonaro".

Segundo ela, Ciro está reeditando as eleições de 2018, quando o pedetista insistiu na candidatura afirmando ter mais condições do que Fernando Haddad. "Ciro sempre defende a si próprio. Não é hora disso. Não dá mais tempo. Ele não tem condições de chegar ao segundo turno".

Cidinha criticou especificamente a entrevista concedida por Ciro à rádio Jovem Pan no último dia 6 em que o candidato disse que não irá apoiar Lula no segundo turno. "Coisa lamentável fazer o jogo de Bolsonaro. Brizola nunca concordaria com isso. O PDT é maior que isso. O PDT é maior que Ciro."

Outras baixas recentes na campanha de Ciro vieram do universo artístico.

O cantor Caetano Veloso, que havia declarado apoio a Ciro na pré-campanha, gravou vídeo nesta segunda-feira (19) para a campanha de Lula em que diz: "Agora, sinceramente, eu acho que, mesmo a gente adorando Ciro, e respeitando o que ele planeja e promete, eu acho que o negócio é [faz o gesto de L com a mão]. Tem que ser Lula."

O PT estuda usar o vídeo de Caetano em suas propagandas eleitorais na TV.

Outro apoiador famoso, o músico Tico Santa Cruz, vocalista da banda Detonautas, também desembarcou da campanha de Ciro para apoiar Lula.

"Agora precisamos dar fim a esse regime de ódio e sofrimento. Resolver no primeiro turno. O voto útil no Lula é o caminho para encerrar esse ciclo de tragédias", escreveu em sua página no Twitter no último sábado (17).

Procurado, Lupi não comentou os desembarques da campanha dos famosos citados pela reportagem.

Na última quinta-feira (15), a campanha de Ciro deu início a uma ofensiva contra o voto útil depois de uma ofensiva petista para atrair o eleitor do PDT e tentar vencer as eleições ainda no primeiro turno.

Em menos de 24 horas, a campanha de Ciro postou ao menos cinco vídeos com o mesmo tema. Na quarta (14), Ciro chamou de "autoritários" e de "covardes" quem "faz qualquer negócio para ganhar no primeiro turno". "Os autoritários querem o máximo de poder nas mãos, e os covardes temem debater a verdade."