SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A professora Ana Bock jamais se esqueceu da expressão no rosto dos policiais militares que invadiram a PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) na noite de 22 de setembro de 1977.

"O ódio, a indiferença, a brutalidade", relembra. "Era como se não olhassem para uma pessoa, olhavam através. Um olhar fixo, raivoso, uma fala que gritava, uma violência corporal. Violência muito extrema."

À época com 25 anos e professora de psicologia havia pouco tempo, ela estava numa assembleia de docentes quando ouviu o barulho de bombas ali por perto. Ao sair do auditório com seus colegas e ganhar a varanda do chamado prédio novo da PUC, viu estudantes correndo pela rampa interna da universidade, tendo no seu encalço policiais com cassetetes nas mãos e a ditadura militar no espírito.

Era o começo de horas de terror que resultariam na prisão de centenas de jovens e deixariam pelo menos 19 feridos, sendo 18 mulheres -duas das quais passaram cerca de um mês hospitalizadas.

O crime? Cerca de 2.000 alunos de diferentes cursos tinham se reunido do lado de fora da faculdade para celebrar o terceiro Encontro Nacional dos Estudantes (ENE), realizado mais cedo naquele mesmo dia.

"Ato público está proibido. Não admitimos passeata nem comício. Está todo mundo preso", disse naquela noite o coronel Erasmo Dias (1924-2010), secretário de Segurança de São Paulo.

Quando um jornalista perguntou quantas pessoas seriam presas, o coronel respondeu, com a mesma voz elevada, quase um berro: "Não sei quantas. Quantas estiverem aqui".

Entre elas estava Ricardo Melantonio, hoje superintendente de Comunicação, Jurídico e Compliance do CIEE (Centro de Integração Empresa-Escola). Então um calouro de 19 anos na Faculdade de Direito da PUC, Melantonio, assim como tantos outros, tentava recuperar a liberdade das entidades estudantis. A União Nacional dos Estudantes (UNE), por exemplo, tinha sido banida em 1964, meses depois do golpe.

Aquele terceiro ENE havia sido convocado justamente com o propósito de restaurar a UNE, entidade que reforçaria o combate ao arbítrio da ditadura militar (1964-1985).

"Passados 45 anos, parece que nós estamos permanentemente lutando contra ameaças ao Estado democrático de Direito", diz Melantonio, em referência a atitudes do presidente Jair Bolsonaro (PL).

E não é força de expressão. Na quinta (22), a universidade promoverá o evento "PUC-SP pela democracia - 45 anos depois da invasão". A exemplo do ato de 11 de agosto na Faculdade de Direito da USP, o dia 22 tratará do passado, relembrando a resistência encampada pela PUC, e também do presente e do futuro.

Com organização da própria PUC-SP, a ação tem parceria com Grupo Prerrogativas e o Washington Brazil Office, que lançará na data um manifesto por eleições livres e respeito pelos resultados das urnas no país.

"Nenhum golpe de Estado jamais foi tão anunciado", diz o texto. "A democracia no Brasil hoje precisa do apoio e da vigilância do mundo. Que a Constituição e o sufrágio popular sejam respeitados é nossa responsabilidade comum", afirma.

Com presença de artistas, representantes da sociedade civil e acadêmicos, o ato, aberto ao público, ocorrerá a partir das 9h, no Tuca (Teatro da Universidade Católica de São Paulo, r. Monte Alegre, 984).

Foi ali que os estudantes de 45 anos atrás estavam reunidos antes da chegada dos comandados por Dias. Os agentes da ditadura, sobretudo os do mais alto escalão, buscavam antes a vingança do que a lei.

É que os alunos haviam ensinado como se dribla a repressão. Após terem tentado, sem sucesso, organizar o terceiro ENE em junho de 1977, em Belo Horizonte, eles reconvocaram o encontro para setembro.

Dessa vez, porém, usaram a criatividade para confundir seus algozes: anunciaram atos falsos no dia 21 e no próprio dia 22, chamando a atenção dos policiais; enquanto isso, o terceiro ENE ocorria secretamente, na PUC, com a presença de 70 delegados estudantis de dez estados.

Logo correu a notícia do sucesso e da sua comemoração, que se daria à noite -mas a notícia também chegou ao conhecimento da ditadura, que não ficou nada feliz com aquele ultraje.

À noite, as forças policiais cercaram a PUC, com um contingente que varia de 3.000 a 15 mil, a depender do relato. Aproximaram-se de forma discreta até que, às 21h50, entregaram-se à truculência. Os alunos entraram na PUC, imaginando que os policiais não cruzariam aquela fronteira. Mas cruzaram.

Soltando bombas e desferindo golpes de cassetete, invadiram salas de aula, centros acadêmicos, bibliotecas e refeitórios; chutaram quem ousava bloquear a passagem, gritaram com quem questionava a violência e prenderam quem estivesse pela frente. Pareciam dopados, de acordo com vários relatos.

Conforme seguiam no arrastão, foram ordenando aos alunos que se dessem as mãos e formassem filas indianas, as quais eram forçadas a caminhar em ritmo marcial. Cerca de 1.500 terminaram conduzidos a um estacionamento ao lado do Tuca -hoje há um prédio no local.

Nadir Gouvêa Kfouri (1913-2011), então reitora da PUC, chegou nesse momento e se dirigiu ao coronel Erasmo Dias para entender o que estava acontecendo. Quando ele quis cumprimentá-la, ela recusou. "Não dou a mão para assassinos", disse, virando o rosto.

Segundo o jornalista Juca Kfouri, colunista da Folha e sobrinho orgulhoso de Nadir, ela, que nunca foi de se vangloriar daquele feito, também disse na ocasião: "Na PUC só se entra fazendo vestibular. Não se invade como a polícia havia feito".

A reitora negociou a liberação dos que fossem da PUC. Os demais, além de alguns puquianos que já estavam no radar da ditadura, foram levados ao batalhão Tobias de Aguiar. Segundo reportagens da época, 854 tiveram esse destino -embora contagens mais recentes mencionem cerca de 500-, dos quais 92 foram fichados, e 32, processados com base na Lei de Segurança Nacional.

Apesar dos pesares, a ação foi favorável ao movimento estudantil. A repercussão do ato -inclusive internacional- fortaleceu a luta pacífica contra a ditadura. O coronel Erasmo Dias, morto em 2010, não se arrependeu daquela truculência. Em entrevista à Folha, em 2007, disse que não faria nada diferente.

Os puquianos, por motivos opostos aos do coronel, têm ainda mais satisfação ao recordar aquela noite, um marco na posição central que a universidade teve na luta pela redemocratização. Nos dias que se seguiram, olhando o rastro de destruição deixado pelos policiais, debateram como lidariam com aquilo. "E ali decidimos que nós contaríamos essas histórias por muitos anos", relembra Ana Bock.