SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - As críticas de Jair Bolsonaro (PL) ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) reacenderam o morde e assopra que rege a relação do ex-presidente e seu afilhado político.

Enquanto o núcleo bolsonarista considera que o governador de São Paulo deveria ouvir mais Bolsonaro, políticos próximos a Tarcísio afirmam que as declarações do ex-presidente são uma distração desnecessária num momento em que o governo estadual concentra esforços para implementar seu principal projeto político, o da privatização da Sabesp.

Ambos os grupos consideram que a crise é pontual, mas que esse tipo de situação tende a se repetir nos próximos anos, uma vez que tanto Bolsonaro quanto Tarcísio não pretendem dar uma guinada em seus modos de agir.

Bolsonaro afirmou na quinta-feira (16) à rádio Gaúcha que "não está tudo certo" na sua relação com Tarcísio e que "jamais faria certas coisas que ele faz com a esquerda".

A crítica da vez se deve ao fato de o governador ter elogiado o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT).

Bolsonaristas ouvidos pela reportagem afirmam que a irritação se estende, além de acenos à esquerda, às questões econômicas.

Um dos pontos que o ex-presidente não engoliu, por exemplo, foi a postura favorável à Reforma Tributária enviada pelo governo Lula (PT). Demonstrando pragmatismo, o governador afirmou que concordava com 95% do texto. O projeto foi votado no Senado na semana passada e agora vai ser novamente analisado na Câmara dos Deputados.

Deputados da base do governo não alinhados a Bolsonaro consideram que o ex-presidente foi impertinente, principalmente no momento das críticas.

Agora, Tarcísio tenta mobilizar ao máximo a base para votar um projeto com grau de dificuldade raramente enfrentado por um governador paulista, o de privatizar a Sabesp, com o debate sobre o tema foi contaminado pela atuação da Enel no setor de energia, em decorrência de apagão no início deste mês.

Na visão dos deputados da base, este seria o momento de se unir contra a esquerda, que está junta na oposição à venda da empresa de saneamento.

Os questionamentos a privatizações por parte de aliados do ex-presidente já haviam aberto uma nova frente de constrangimento para o governador.

O grupo de Bolsonaro deve votar a favor da privatização da Sabesp, mas não descarta usar projetos menores para mandar recados ao governador.

Para eles, Tarcísio se irrita ao menor sinal de crítica do ex-presidente, quando, na verdade, deveria refletir sobre os conselhos de seu maior cabo eleitoral.

Publicamente, o governador se cala sobre o assunto. Na manhã desta sexta (17), ele acompanhou um debate do 9º Fórum Brasil Diverso na capital paulista, mas, ao deixar o evento, não quis falar com a imprensa.

A reportagem também procurou a assessoria do governador, que não comentou as falas, que mesclaram elogios e críticas a ele.

"Eu não mando no Tarcísio. Ele é um baita de um gestor. Politicamente dá suas escorregadas. Eu jamais faria certas coisas que ele faz com a esquerda", disse Bolsonaro em entrevista à rádio Gaúcha.

Bolsonaro contemporizou dizendo em seguida que os governadores dependem do governo federal e não podem se afastar dele. Mas disse que, se fosse ele, não apareceria em uma foto com Haddad.

"Eu não tiraria [a foto]. Aí eu sou radical. O que eu tenho a ganhar com Haddad, meu Deus do céu? O que eu tenho a ganhar com o pior prefeito de São Paulo."

Essa questão, porém, não é a única insatisfação do grupo bolsonarista raiz com Tarcísio.

Parte da base bolsonarista de Tarcísio na Assembleia Legislativa vinha se contendo, mas, agora, com as críticas de Bolsonaro, sente-se à vontade para vocalizar uma série de insatisfações contra o governador.

Entre os pontos, está a autorização, em maio, para o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) fazer evento no parque Água Branca, veto a projetos da base sem explicação, sanção a projetos de petistas, demora no pagamento de emendas e indicações e a presença do PSDB no interior da máquina pública.

Eles consideram que, uma vez eleito, o governador relegou o grupo político do ex-presidente a espaços limitados, principalmente se comparados outros aliados, como o secretário estadual de Governo, Gilberto Kassab (PSD).

Os dois principais postos ocupados pelo núcleo de confiança de Bolsonaro são a Secretaria de Segurança Pública, sob Guilherme Derrite (PL), e a pasta de Políticas para Mulheres, esta quase sem orçamento algum, dirigida por Sonaira Fernandes (Republicanos).

Embora ambos façam barulho para agitar a base com declarações polêmicas e políticas criticadas pela esquerda, o espaço é considerado insuficiente.

Tarcísio e Bolsonaro também têm posturas diferentes em relação à eleição para a Prefeitura da capital paulista no próximo ano.

Enquanto o governador dá sinais bastante claros de que deve apoiar o projeto de reeleição do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), Bolsonaro oscila, por não considerar que o emedebista seja um legítimo representante da direita.

Para o cientista político Marco Antonio Teixeira, da FGV (Fundação Getúlio Vargas), os atritos entre Bolsonaro e Tarcísio são efeitos de "duas situações e posturas distintas".

"Tarcísio não está em campanha, ele está no governo. O Bolsonaro parece que desde que ganhou eleição em 2018 está no palanque", diz Teixeira.

Ele ressalta que o governador precisa ter interlocução com o governo federal, tanto para influenciar nos debates que afetam o estado quanto pelo fato de que os entes têm responsabilidades compartilhadas.

"Quem vira governador é governador de todo mundo, inclusive daquele que não votou nele", diz, ressaltando que a tendência é que as tensões entre ambos fiquem mais agudas.

Apesar das rusgas com o ex-presidente, Tarcísio vem fazendo acenos a Bolsonaro, que já ficou hospedado no Palácio dos Bandeirantes e foi beneficiado com lei que anistiava multas aplicadas durante a pandemia, sancionada há uma semana.


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