Nesta sexta-feira (15), é celebrado o Dia da Informática, data que convida à reflexão sobre como a tecnologia influencia hábitos, escolhas e até mesmo a autonomia das pessoas. Para o professor do curso de Análise e Desenvolvimento de Sistemas da Estácio, Anderson Cruz, compreender o funcionamento dos algoritmos, especialmente os de recomendação, é essencial para lidar de forma consciente com as ferramentas digitais.
Segundo ele, serviços de streaming por assinatura que permitem aos seus membros assistir a séries, filmes e outros conteúdos, produzem uma “leitura minuciosa” do comportamento do usuário, agrupando-o em modelos de clusterização com pessoas que possuem desejos e afinidades semelhantes. “Depois que o algoritmo identifica esse grupo, ele passa a sugerir vídeos, músicas e outros conteúdos baseados no gosto dos seus integrantes. Com o tempo, o usuário acredita que realmente gosta daquilo e para de fazer suas próprias escolhas, deixando que o algoritmo decida por ele”, explica.
O professor alerta que, à medida que o sistema se torna “mais assertivo” em suas sugestões, a capacidade de escolha do usuário diminui. Esse processo, segundo ele, abre espaço para a manipulação em larga escala. “A gente tem a capacidade de manipulação de massa através de um algoritmo. Basta lembrar das tragédias do Baleia Azul e de outros desafios virtuais que se espalharam por movimentação de massa”, exemplifica.
Para evitar que os algoritmos assumam o controle, Cruz recomenda estratégias práticas, como monitorar o tempo gasto nas redes sociais e utilizar recursos de bloqueio presentes em aplicativos como o TikTok. Ele também sugere evitar conteúdos sugeridos, preferindo fazer buscas próprias, para não cair no que chama de “pseudo gosto” — interesses que não nascem de escolhas genuínas, mas de recomendações que geram o mesmo efeito viciante da dopamina liberada nas redes.
O professor também critica o uso indiscriminado de ferramentas como o ChatGPT por estudantes, especialmente para responder tarefas sobre conteúdos que não dominam. “Essas ferramentas podem auxiliar na programação e em tarefas de rotina, mas não devem substituir a pesquisa. Estamos perdendo a capacidade de leitura, de processamento e de raciocínio lógico”, afirma.
Cruz observa que muitos alunos já não conseguem sintetizar um texto por conta própria, apenas replicando respostas geradas por inteligência artificial. Para ele, o problema maior não é a pesquisa que se deixa de fazer agora, mas o impacto a longo prazo: “Daqui a dez anos, teremos profissionais que não conseguem tomar decisões, não se destacam e não crescem na carreira, porque perderam a capacidade de argumentação.”
Neste Dia da Informática, a mensagem de Cruz é clara: aproveitar a tecnologia, mas com consciência. “O desafio é usar a informática como ferramenta, não como muleta. Quem deixa que os algoritmos decidam tudo por si, aos poucos, deixa também de decidir sobre a própria vida.”