Juiz de Fora e toda a Zona da Mata mineira estão inseridas em uma região marcada por relevo acentuado, caracterizado pelos chamados “mares de morros”, expressão consagrada pelo geógrafo Aziz Ab’Sáber. Essa característica natural, somada ao processo de urbanização e ao papel regional da cidade, ajuda a explicar a ocorrência de tragédias associadas a deslizamentos e ocupação de encostas.
A avaliação é da pesquisadora Talita Micheleti, integrante da equipe urbana do MapBiomas, em entrevista ao Portal Aceesa. Segundo ela, o conjunto de fatores que envolve relevo, dinâmica de ocupação e a centralidade econômica da cidade cria um cenário de maior pressão sobre áreas sensíveis do território.
Juiz de Fora exerce forte influência regional ao concentrar comércio atacadista e varejista, serviços especializados de saúde, ensino superior, atividades financeiras e funções administrativas que extrapolam os limites do município. Essa centralidade atrai população e fluxos econômicos, intensificando a ocupação urbana muitas vezes em áreas de maior risco.
Dados do MapBiomas mostram que, nas últimas quatro décadas, a cidade mais que dobrou a urbanização em terrenos com inclinação superior a 30%. Em 1985 eram 547 hectares nessas condições; em 2024, esse número chegou a 1.256 hectares, um aumento de 709 hectares.
Com isso, Juiz de Fora passou a ocupar a terceira posição entre as cidades brasileiras com maior área urbanizada em encostas íngremes em 2024, ficando atrás apenas de Rio de Janeiro e São Paulo. Já em 1985, o município ocupava o quarto lugar nesse ranking.
Outro levantamento recente do MapBiomas, divulgado na versão beta do módulo de risco climático, identifica as chamadas “Áreas Urbanas Suscetíveis a Deslizamentos”. O mapeamento cruza informações sobre litologia, tipo de solo, declividade, curvatura do terreno, uso do solo, áreas urbanizadas, edificações e dados de risco geológico do Serviço Geológico do Brasil.
Os números indicam crescimento significativo da ocupação em áreas classificadas com potencial alto ou muito alto para deslizamentos. Em 1985, eram 897 hectares de área urbanizada nessas condições, sendo 138 hectares com risco alto e 760 hectares com risco muito alto. Em 2024, a área chegou a 1.617 hectares, sendo 447 hectares com risco alto e 1.170 hectares com risco muito alto, um aumento de cerca de 80%.
Quando comparadas ao total da área urbana do município, essas áreas representavam 19,7% em 1985 e passaram a 18,2% em 2024. Já a urbanização em terrenos com alta declividade cresceu proporcionalmente, passando de 12% para 14% do total urbanizado no mesmo período.
A vulnerabilidade territorial também aparece quando se analisam as comunidades urbanas. Das 37 favelas identificadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística no Censo 2022, apenas oito não possuem áreas em alta declividade.
Em 2024, as áreas urbanizadas em encostas íngremes dentro de territórios de favelas somavam 56,2 hectares. Entre as comunidades com maior presença desse tipo de ocupação estão Três Moinhos, com cerca de 10 hectares, Vila Alpina, com 6 hectares, além de Jardim da Lua e Rua Augusto Vicente Vieira – Alto Três Moinhos, ambas com aproximadamente 5 hectares.
A plataforma do MapBiomas permite visualizar detalhadamente a localização dessas áreas, tanto no módulo urbano quanto no módulo de risco climático, possibilitando análises cruzadas com recortes territoriais como favelas e comunidades urbanas.
Segundo Micheleti, a consulta aos dados mostra expansão da ocupação urbana principalmente nas regiões do Aeroporto, Santa Cruz/Benfica e Martelos, além de crescimento nas áreas de borda da mancha urbana da cidade.
A pesquisadora também destaca que as mudanças climáticas tendem a agravar riscos já existentes. “Normalmente o risco é definido a partir de três dimensões: perigo, ameaça e vulnerabilidade. As mudanças no clima ampliam as ameaças relacionadas à frequência e intensidade das chuvas”, explica.
Quando esse cenário se combina com a urbanização de terrenos naturalmente inclinados e com a vulnerabilidade de populações que vivem em áreas precárias, o resultado é um quadro que exige atenção das autoridades e planejamento urbano mais cuidadoso.
O levantamento reforça um alerta importante: a expansão urbana em áreas de encosta e suscetíveis a deslizamentos continua sendo um dos principais desafios para o planejamento urbano e a redução de riscos em Juiz de Fora.
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