Em meio à tragédia provocada pelas chuvas que atingiram Juiz de Fora, deixando mortos, desaparecidos e milhares de pessoas desalojadas, uma história de coragem e solidariedade ganhou destaque em todo o país.
O protagonista é Yuri de Souza, de apenas 19 anos, torcedor apaixonado do Cruzeiro Esporte Clube. Durante o desastre, ele protagonizou um resgate que salvou um bebê e seus pais no Bairro Industrial. A cena, registrada em vídeo, viralizou nas redes sociais e transformou o jovem em símbolo de heroísmo durante os dias mais difíceis da cidade.
Agora, alguns dias depois do episódio, Yuri viverá outro momento marcante. Assistir pela primeira vez a um jogo do Cruzeiro no Mineirão, e não será uma partida qualquer. O jovem estará no estádio para acompanhar a final do Campeonato Mineiro contra o Clube Atlético Mineiro, que ocorre neste domingo (8) às 18h, no clássico mais tradicional do futebol de Minas Gerais.
A experiência será proporcionada pelo reduto JFzeiros, grupo de cruzeirenses de Juiz de Fora liderado por Jhon Seixas, que decidiu homenagear o jovem pelo ato de coragem.
O resgate que comoveu o Brasil
O dia que mudou a vida de Yuri começou como mais uma rotina no quartel. Ele cumpria seu último dia no Exército quando foi acionado para ajudar no socorro às vítimas da enchente que atingia o Bairro Industrial.
A primeira missão era resgatar um casal de idosos preso em casa. “Eu estava no quartel. Aí nós fomos acionados para ir salvar um casal de idoso lá no Bairro Industrial”, contou.
Depois do primeiro resgate, os militares passaram a percorrer a região, batendo de porta em porta para identificar quem ainda precisava de ajuda. Foi então que um pai desesperado apareceu pedindo socorro.
“A gente foi batendo de porta em porta perguntando quem queria ajuda. Aí chegou o pai da menina que eu estava no colo pedindo para ajudar ele, a criança e a mãe da criança”. Sem tempo para pensar, Yuri entrou em ação.
No vídeo que viralizou nas redes sociais, ele aparece carregando o bebê no colo enquanto atravessa a área alagada para retirar a família do local. Segundo o jovem, naquele momento não havia espaço para medo ou reflexão, apenas para agir.
“Na hora eu não estava pensando em nada não, só tirar a criança dali. O pai e a mãe estavam desesperados, chorando. No momento só pensei em resgatar a criança”.
A simplicidade com que ele descreve o episódio contrasta com a dimensão do gesto que mobilizou milhares de pessoas nas redes sociais.
O último dia no Exército
O resgate aconteceu justamente no último dia de Yuri no serviço militar. Ele entrou no Exército aos 18 anos, movido por um desejo antigo. “Eu sempre quis entrar no Exército. Minha mãe falava que era bom”.
Mas, ao completar 19 anos, o jovem decidiu não seguir carreira militar. “Eu desisti. Lá tem umas coisas que não são muito boas”, disse. Entre os motivos, ele cita a rotina rígida da instituição.
“Tem hora que você não tem liberdade direito. Você precisa fazer alguma coisa e tem que esperar eles falarem se você pode ou não. Você perde muito tempo com a família”.
Mesmo deixando o quartel, Yuri não abandonou o desejo de seguir uma carreira ligada à segurança pública. Seu plano agora é estudar Direito. “Quero virar delegado policial”.
A inspiração veio, em grande parte, da mãe. “Minha mãe sempre falava para eu ser policial, entrar para o Exército. Aí resolvi ser delegado”.
Uma história de vida simples
Yuri cresceu em diferentes bairros de Juiz de Fora e também viveu um período em outra cidade de Minas. Ele nasceu na região de Benfica, passou um tempo em Patos de Minas, e depois voltou para a Zona da Mata.
“Em Patos de Minas eu fui morar com a minha mãe. Lá é muito bom. Fiz muita amizade”.
Hoje ele mora com a família em Juiz de Fora. “Na minha casa somos quatro: eu, minha mãe Aparecida, meu padrasto Juca e minha irmã Dara”.
O jovem faz questão de destacar a importância da mãe em sua trajetória. “Ela é muito guerreira. Criou a gente sozinha. Eu sempre uso ela como inspiração”.
Paixão pelo Cruzeiro desde criança
Se existe algo que acompanha Yuri desde cedo, é o amor pelo futebol, mais especificamente pelo Cruzeiro Esporte Clube. Ele garante que a paixão começou ainda na infância. “O pai da minha irmã era cruzeirense e influenciou a gente. Depois que comecei a entender o que é Cruzeiro, sempre acompanhei”.
Nem mesmo o período difícil do clube afastou o torcedor. “Desde o tempo que ficou três anos na Série B eu continuei acompanhando firme. Mesmo com zoação e tudo, eu não largo o Cruzeiro”.
Entre os ídolos, ele cita dois nomes marcantes da história recente do clube. “O meu ídolo é o Fábio, infelizmente não está no Cruzeiro, mas é o melhor que já passou. O Moreno também”.
O sonho do Mineirão
Apesar da paixão pelo clube, Yuri nunca havia conseguido ir ao estádio para ver o Cruzeiro jogar. Isso mudará agora.
Quando recebeu a notícia de que iria assistir ao jogo no Mineirão, o jovem diz que custou a acreditar. “Até agora eu não estou acreditando. A ficha nem caiu ainda”.
Ele já sabe qual será sua primeira reação ao entrar no estádio. “A primeira coisa é chorar muito”.
E também tem palpite para o clássico. “Cruzeiro ganha de dois a um”.
A homenagem da torcida
A iniciativa de levar Yuri ao jogo partiu do reduto JFzeiros, grupo que reúne cruzeirenses de Juiz de Fora. O líder, Jhon Seixas, explica que a ideia surgiu como forma de reconhecer o gesto do jovem. “A missão da JFzeiros é retribuir um ato de coragem tão imenso que ele teve”.
Segundo ele, o grupo busca aproximar os torcedores da cidade do clube. “A gente sabe que o Cruzeiro não é a primeira torcida aqui em Juiz de Fora. Então a nossa ideia é unir os cruzeirenses e trazer uma experiência real com o clube”.
Para Jhon, proporcionar a primeira ida de Yuri ao Mineirão tem um significado especial. “Ele nunca imaginou ir a um estádio um dia. Para a gente é como se fosse realizar um sonho”.
A iniciativa também contou com apoio do próprio Cruzeiro. “O Cruzeiro está nos dando todo o suporte. Sem o clube seria impossível”.