As chuvas que voltaram a atingir Juiz de Fora nos últimos anos não deixaram apenas ruas alagadas, encostas instáveis e bairros em alerta. Elas também escancararam uma discussão que já não pode mais ser adiada: como construir cidades mais sustentáveis, resilientes e preparadas para enfrentar os impactos das mudanças climáticas. Em meio a esse cenário, a Estácio Juiz de Fora realiza, no dia 3 de junho, o fórum “Entre Águas e Raízes — Sustentabilidade e Inovação Criativa”, reunindo especialistas, projetos acadêmicos e empreendedoras locais em torno de um debate que conecta meio ambiente, responsabilidade social e transformação econômica.
Mais do que um evento acadêmico, o fórum nasce em um momento em que sustentabilidade deixa de ocupar apenas campanhas institucionais e passa a integrar conversas urgentes sobre mobilidade urbana, descarte de resíduos, ocupação do solo, consumo consciente e geração de renda. Em Juiz de Fora, cidade marcada historicamente pelos desafios provocados pelas chuvas intensas, o debate ganha contornos ainda mais próximos da realidade da população.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que apenas cerca de 63% dos municípios brasileiros possuem iniciativas estruturadas de gestão ambiental. Ao mesmo tempo, levantamento da Confederação Nacional da Indústria aponta que mais de 70% das indústrias brasileiras já adotam práticas ligadas à sustentabilidade. O contraste evidencia que, enquanto parte do setor produtivo começa a se adaptar às novas demandas ambientais, muitas cidades ainda enfrentam dificuldades para estruturar soluções permanentes de prevenção e conscientização.
É justamente nesse ponto que o fórum pretende atuar: aproximando universidade, comunidade e iniciativas locais capazes de transformar a reflexão em prática. Inspirado no formato TEDx, o evento contará com talks dinâmicos e acessíveis, conectando experiências reais de empreendedorismo sustentável, economia circular e inovação social.
Entre os destaques da programação estão as falas das arquitetas e urbanistas Naiara Valéria e Dani Leonel, que abordarão como projetos urbanos sustentáveis podem ajudar a minimizar tragédias climáticas, discutindo planejamento urbano, drenagem, ocupação do solo e responsabilidade coletiva sobre os espaços da cidade.
A programação também abre espaço para experiências que mostram como a sustentabilidade pode gerar renda, criatividade e impacto social. Aline Azevedo, da UPCO, apresentará iniciativas de upcycling e reaproveitamento têxtil, discutindo os impactos do fast fashion e a necessidade de repensar a relação da sociedade com o consumo. Já a professora Tâmara Lis apresentará os resultados da Colab de Costura da Estácio, projeto que transforma resíduos industriais e materiais descartados em produtos reutilizáveis, promovendo economia circular e inclusão produtiva.
Além das palestras, o evento contará com a “Mostra Raízes Criativas”, uma exposição com produtos sustentáveis desenvolvidos por empreendedoras do projeto Mulheres Empreendedoras e Empoderadas (MEE). Entre as participantes estão iniciativas que reutilizam resíduos da construção civil na produção de biojoias, trabalhos de patchwork e costura criativa, além de produtos produzidos a partir da reciclagem de plástico flexível.
Para a professora Tâmara Lis, coordenadora do MEE, discutir sustentabilidade atualmente é também discutir território, cidadania e permanência. “As mudanças climáticas deixaram de ser uma realidade distante. Elas impactam diretamente a vida das pessoas, principalmente das populações mais vulneráveis. Quando a universidade aproxima esse debate da comunidade e das experiências locais, ela contribui para construir consciência coletiva e soluções mais humanas e possíveis”, afirma.
A professora Sayhane Paiva, responsável pela disciplina Ecodesign, Sustentabilidade e Inovação, destaca que o evento também busca ampliar o olhar sobre sustentabilidade para além das questões ambientais. “Sustentabilidade envolve comportamento, economia, cultura e relações sociais. Precisamos discutir formas de produzir, consumir e viver que sejam mais responsáveis e menos destrutivas. E isso passa pela criatividade, pela educação e pela inovação”, pontua.
A realização do fórum também reforça o papel crescente das universidades na promoção de debates públicos e no fortalecimento de redes locais de transformação social. Em vez de limitar a sustentabilidade ao campo teórico, o evento aposta em exemplos práticos de pessoas e projetos que já desenvolvem soluções dentro da própria cidade.
Em tempos em que os impactos ambientais deixam marcas cada vez mais visíveis nas ruas, nas casas e na rotina da população, iniciativas como “Entre Águas e Raízes” buscam provocar uma reflexão simples, mas necessária: que cidade Juiz de Fora deseja construir para o futuro — e quanto tempo ainda há para adiar essa conversa.
O fórum será realizado no Anfiteatro Guimarães Rosa, na Estácio Juiz de Fora, a partir das 19h. Antes da abertura oficial, às 18h, palestrantes e expositoras participam de um coffee break exclusivo com mostra de produtos sustentáveis na sala 304. A entrada é gratuita, mediante inscrição prévia.
