"É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo”.
— Paulo Freire
Há momentos na história em que a esperança parece se tornar um exercício de resistência. Diante das desigualdades sociais, da intolerância, da violência e das constantes ameaças aos direitos conquistados, não são poucas as razões que poderiam nos conduzir ao desânimo. Afinal, como continuar esperançoso quando a realidade insiste em contrariar aquilo que desejamos para nós e para os outros? Talvez essa pergunta encontre no pensamento de Paulo Freire não uma resposta definitiva, mas um caminho possível para compreendermos o nosso compromisso com o mundo.
Em sua obra Pedagogia da Esperança: um reencontro com a Pedagogia do Oprimido, publicada em 1992, Freire apresenta uma compreensão da esperança que ultrapassa o simples desejo de que as coisas melhorem. Não se trata de uma atitude contemplativa, muito menos de uma confiança ingênua em um futuro que, supostamente, se encarregaria de corrigir as injustiças do presente. A esperança, para o educador pernambucano, constitui uma necessidade ontológica, isto é, algo profundamente relacionado à nossa própria condição de existir.
Essa compreensão nos conduz a uma questão fundamental: de que vale a esperança quando permanecemos indiferentes às condições que tornam a vida de tantos seres humanos insuportável?
No Brasil, aprendemos, muitas vezes, a conjugar o verbo esperar. Esperamos que a educação pública seja valorizada, que a fome deixe de ocupar a mesa de milhões de famílias, que o racismo seja superado, que a diversidade seja respeitada e que a dignidade humana deixe de ser privilégio de alguns para tornar-se uma realidade compartilhada. Esperamos, esperamos e continuamos esperando. Enquanto isso, inúmeras existências seguem atravessadas pela exclusão, pelo silenciamento e pela negação de direitos fundamentais.
É justamente nesse ponto que a reflexão freireana se torna provocativa. Esperançar significa reconhecer que a realidade, por mais difícil que seja, não constitui uma sentença definitiva. O mundo não está pronto, acabado ou determinado de uma vez por todas. A história permanece aberta às possibilidades humanas de intervenção e transformação. Entretanto, essa abertura não representa uma garantia de progresso. O futuro não se realiza independentemente das escolhas, dos conflitos e das ações que assumimos no presente.
Por isso, a esperança não pode ser confundida com acomodação. Ela exige posicionamento, responsabilidade e, sobretudo, práxis. Não basta reconhecer a existência das injustiças; é necessário compreender os mecanismos que as sustentam e construir possibilidades concretas de enfrentamento. A esperança que não encontra correspondência na prática corre o risco de transformar-se em discurso vazio, facilmente pronunciado, mas raramente vivido.
Na educação, essa reflexão assume uma dimensão particularmente importante. Uma escola verdadeiramente comprometida com a formação humana não pode se limitar à transmissão de conteúdos, como se os estudantes fossem recipientes vazios à espera de conhecimentos. Educar pressupõe reconhecer sujeitos históricos, portadores de experiências, memórias, saberes e interpretações próprias do mundo.
Essa compreensão ganha ainda mais sentido quando pensamos na Educação de Jovens e Adultos (EJA). Como alguém que, antes de se tornar professor dessa modalidade, também esteve sentado em suas carteiras como estudante, compreendo que a esperança pode assumir formas muito concretas. Ela se manifesta no trabalhador que, depois de uma jornada exaustiva, encontra forças para frequentar a escola; na mulher que retorna aos estudos após anos dedicados à sobrevivência da família; na pessoa idosa que descobre, na leitura e na escrita, novas possibilidades de participação no mundo.
Cada uma dessas trajetórias nos recorda que a educação não se reduz à aquisição de competências escolares. Trata-se, também, da possibilidade de reconstruir relações consigo mesmo, com os outros e com a sociedade. Aprender a ler uma palavra pode significar, ao mesmo tempo, descobrir novas maneiras de interpretar a própria existência.
Contudo, seria injusto atribuir exclusivamente aos indivíduos a responsabilidade pela superação de suas dificuldades. Não podemos romantizar a pobreza, transformar a resistência cotidiana dos trabalhadores em espetáculo ou exigir heroísmo daqueles a quem foram historicamente negadas condições dignas de existência. Esperançar também significa exigir políticas públicas, combater desigualdades estruturais e defender uma educação pública, gratuita, inclusiva e socialmente referenciada.
Há, portanto, uma dimensão inevitavelmente política na esperança. E política aqui não deve ser compreendida apenas no sentido partidário ou eleitoral, mas como participação na construção da vida coletiva. Uma sociedade democrática não se sustenta exclusivamente pelo funcionamento de suas instituições ou pela realização periódica de eleições. A democracia precisa encontrar expressão concreta no reconhecimento da dignidade humana, na garantia dos direitos fundamentais e no respeito à pluralidade que constitui nossa experiência social.
Isso significa reconhecer que as diferenças não representam ameaças à convivência, mas possibilidades de ampliação de nossos horizontes. Em tempos marcados pelo sectarismo político-ideológico, pelo extremismo e pela intolerância, esperançar também implica cultivar o diálogo. Não aquele diálogo superficial que disfarça as injustiças em nome de uma falsa harmonia, mas um encontro capaz de reconhecer o outro em sua alteridade, sem pretender reduzi-lo às nossas próprias convicções.
O diálogo, nesse sentido, não exige a renúncia às nossas posições, tampouco a aceitação passiva de discursos que legitimam a violência e a desumanização. Exige, antes, o reconhecimento de que nenhuma compreensão individual esgota a complexidade do mundo e de que a convivência democrática pressupõe a disposição de escutar, argumentar, questionar e, quando necessário, rever nossos próprios entendimentos.
Talvez uma das maiores dificuldades de nosso tempo esteja justamente em reconhecer que ninguém se torna verdadeiramente humano de maneira isolada. Nossa existência é atravessada por encontros, conflitos, aprendizagens e experiências compartilhadas. É na relação com os outros que ampliamos nossa compreensão do mundo e descobrimos possibilidades que, sozinhos, dificilmente alcançaríamos.
Esperançar, portanto, não significa negar a dor, ignorar as derrotas ou disfarçar as contradições que atravessam a sociedade brasileira. Pelo contrário, significa confrontá-las sem permitir que a desesperança seja elevada à condição de destino. Significa compreender que nenhuma conquista democrática é definitiva e que os direitos, mesmo quando reconhecidos formalmente, exigem cuidado, participação e vigilância permanente.
A esperança não deve servir para nos reconciliar com aquilo que precisa ser transformado. Deve, antes, inquietar-nos. Afinal, há algo profundamente contraditório em desejar um mundo mais justo enquanto permanecemos confortavelmente indiferentes às injustiças que o constituem.
Que possamos, então, recuperar essa dimensão profundamente humana da esperança. Não como promessa de que tudo dará certo, mas como compromisso ético com aquilo que ainda pode ser construído. Que nossas escolas continuem abrindo caminhos, que a diversidade encontre acolhimento, que nenhuma voz seja condenada ao silêncio e que a democracia permaneça como uma tarefa coletiva, jamais como uma conquista concluída.
Porque, no fundo, esperançar é reconhecer que o mundo ainda não é tudo aquilo que pode ser. E que nós, enquanto sujeitos históricos, não estamos condenados apenas a habitá-lo, mas somos também responsáveis por transformá-lo.
O futuro não está simplesmente à nossa espera. Ele começa nas escolhas que fazemos, nas mãos que encontramos e nas possibilidades que temos coragem de construir juntos.